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George Papandreou foi primeiro-ministro pelo Pasok
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▲George Papandreou foi primeiro-ministro pelo Pasok

FOTOILUSTRAÇÃO: ANA MOREIRA/OBSERVADOR

▲George Papandreou foi primeiro-ministro pelo Pasok

FOTOILUSTRAÇÃO: ANA MOREIRA/OBSERVADOR

Como os socialistas gregos quase desapareceram

Partido de centro-esquerda liderou Grécia durante anos, mas eleitores culparam-no por crise financeira. Perda de apoio aos socialistas foi tão forte que se criou novo termo político: pasokização.

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[Este texto faz parte de uma série que o Observador está a publicar sobre os terramotos políticos provocados pelos partidos antissistema de direita radical em diferentes países da Europa Ocidental. Pode ler também sobre os casos da Alemanha, Espanha, Reino Unido e França.]

O partido destruiu a nossa identidade nacional, as nossas condições sociais e económicas. Destruiu tudo. O Pasok é um cadáver.”

Revolta e incompreensão. Em declarações à BBC em 2013, Alexandros Liakopoulos fazia um retrato do que muitos gregos sentiram em relação ao Pasok, o histórico partido socialista que governou durante muitos anos o país do sul da Europa. O homem natural da cidade de Patras e a família votaram muitas vezes naquela formação partidária de centro-esquerda. Depois dos cortes de 60% da reforma da mãe e dois familiares no desemprego, garantia que isso “nunca mais ia acontecer”. 

Desde o final da ditadura militar, que acabou em 1974, o Pasok tornou-se um dos grandes partidos na Grécia, juntamente com o Nova Democracia (ND), de centro-direita. Criado em redor do carismático Andreas Papandreou, a força política tentou colocar Atenas ao nível das restantes capitais europeias ao longo das décadas. Lançou as bases de um serviço de saúde público, democratizou a educação e criou um sistema de segurança social que protegia os mais desfavorecidos.

No entanto, ao longo dos anos no poder, foram conhecidos inúmeros escândalos que envolviam os socialistas gregos: corrupção, clientelismo político e tráfico de influências. A entrada massiva de fundos europeus com a adesão da Grécia à Comunidade Económica Europeia (CEE, atual União Europeia) foi sobretudo gerida pelo ex-primeiro-ministro Andreas Papandreou. Se, por um lado, aumentou os padrões de qualidade de vida num país menos avançado face a outros Estados-membros, por outro multiplicaram-se os crimes de desvio de verbas e de fraude.

▲ Andreas Papandreou, fundador do Pasok

Getty Images

Na sequência de alguns casos de corrupção, o Pasok chegou a ser castigado nas urnas. Porém, o Nova Democracia funcionava num estilo idêntico aos socialistas no que diz respeito principalmente ao clientelismo político, ainda que cativasse outras parcelas do eleitorado. De qualquer forma, os gregos voltaram a confiar nos socialistas gregos nas décadas seguintes, mantendo um sistema de alternância dentro do bipartidarismo. E, num dos piores momentos recentes do país, os gregos também deram a vitória ao centro-esquerda.

Após o colapso do banco Lehman Brothers, que gerou uma recessão nos Estados Unidos da América em 2008, começaram a pairar nuvens negras sobre a Europa. A turbulência financeira atravessou o Atlântico e colocou as economias mais frágeis da zona euro numa situação crítica. A Grécia era uma delas, estando já debilitada por décadas de endividamento público. Eleito em outubro de 2009, o ex-primeiro-ministro socialista George Papandreou (filho do fundador do Pasok) revelou publicamente os problemas que o país enfrentava e aplicou as primeiras medidas de austeridade.

Corte de pensões, diminuição dos apoios sociais e privatizações — os socialistas gregos avançaram com estas medidas. Em meados de 2010, é também o Pasok quem assina o primeiro memorando de ajuda externa com a troika (o Fundo Monetário Internacional, a União Europeia e o Banco Central Europeu). Em troca, a Grécia foi obrigada a adotar um pacote mais severo de austeridade. Após décadas da defesa de um Estado mais forte e a sustentar redes de dependência estatal, o partido viu-se obrigado a ceder em tudo o que acreditara desde a sua função em troca da estabilidade financeira para o país.

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▲ George Papandreou, ex-primeiro-ministro que chamou a troika

ullstein bild via Getty Images

Por tudo isto, os gregos nunca perdoaram o Pasok — a imagem do partido ficou colada à crise financeira. Nas urnas, os socialistas sofreram uma verdadeira hecatombe. Em 2012, passaram de 44% para aproximadamente 13% dos votos, ao passo que em 2015 atingiram um mínimo histórico: 4,68%. A força partidária passou de partilhar a hegemonia com o Nova Democracia para quase desaparecer da cena política.

Da queda abrupta do Pasok à emergência do Syriza e da Aurora Dourada

A crise financeira, os sucessivos resgates e a austeridade que sufocava a população geraram o caos na Grécia, que cedo invadiu a política. Em janeiro de 2012, as eleições parlamentares antecipadas alteraram por completo o panorama político grego, que se mantinha mais ou menos inalterado desde o final da ditadura militar. O tradicional partido de centro-direita venceu as eleições (ainda que apenas com 19% dos votos e sem maioria absoluta), mas tudo o resto se alterou.

Em segundo lugar naquelas eleições, com 17%, ficou o Syriza, a formação de esquerda radical que fazia da sua principal bandeira o fim das medidas de austeridade. Bastante próximo do Bloco de Esquerda em Portugal, o partido na altura liderado por Alexis Tsipras já absorvia muitos dos votos de esquerda. O Pasok ainda se aguentou em terceiro lugar com 13%, mas perdeu 119 deputados face a 2009.

▲ Protestos contra as medidas de austeridade em Atenas

AFP/Getty Images

Dos dois lados do espectro político iam surgindo novos partidos: em quarto, com 11% dos votos, estiveram os Gregos Independentes, um partido de direita nacionalista fundado por dissidentes do ND. O histórico Partido Comunista da Grécia manteve mais de duas dezenas de deputados. Em sexto, surgiu uma novidade no Parlamento: o Aurora Dourada, um partido neonazi, com cerca de 7% dos votos. Seguiu-se o partido Esquerda Democrática, que tinha sido fundado por dissidentes do Syriza desagradados com o rumo mais eurocético e radical do partido, com 6,11%.

O Aurora Dourada já existia desde os anos 80 na Grécia, mas até aqui não tinha expressão. Reunia insatisfeitos com o novo regime democrático e saudosistas da ditadura militar. Abertamente antissistema e difundindo mensagens de superioridade do povo grego, a força partidária nunca teve grande destaque, obtendo resultados muito modestos nas eleições. A crise financeira foi uma oportunidade para crescer, principalmente nas zonas urbanas mais desfavorecidas.

Por exemplo, o partido organizava bancos alimentares nas zonas mais atingidas pela crise económica, sob a condição de que quem recolhesse a comida fosse grego. Estes gestos aumentavam a sua popularidade, mesmo que a retórica fosse ultranacionalista. “A sociedade grega está pronta para um novo tipo de guerra civil. De um lado estarão nacionalistas como nós, gregos que querem o nosso país como era. Do outro, os imigrantes ilegais e os anarquistas”, disse à BBC o ex-deputado Ilias Panagiotaros.

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▲ Membros da Aurora Dourado distribuem comida em Atenas

AFP via Getty Images

Face à direita radical na Europa, o Aurora Dourada extremava mais o discurso. Ilias Panagiotaros, um dos principais ideólogos da força política, chegou a descrever Hitler e Estaline como “grandes personalidades”. Nessa altura, o partido já enfrentava problemas na justiça, devido a agressões contra todos aqueles que considerava que não tinham “sangue puro” grego. Outrora um dos rostos principais da Aurora Dourada, o ex-deputado foi condenado, em 2020, a 13 anos de prisão.

O Aurora Dourada fez parte de várias mudanças que geraram um cenário de ingovernabilidade na Grécia, que apenas ficou sanado após uma repetição eleitoral em junho de 2012. Num clima de instabilidade financeira para negociar o segundo regaste e de caos no país, ficou acordado algo inédito na história da Grécia: um bloco central entre os rivais Nova Democracia e Pasok e que ainda contou com a Esquerda Democrática. Na oposição ficaram o Syriza (Alexis Tsipras tornou-se o líder da oposição), os Gregos Independentes, a Aurora Dourada e os comunistas.

Acoplado a um bloco central para manter alguma estabilidade num país que assistia a massivas manifestações contra a austeridade, o Pasok era o partido que mais anticorpos gerava, mesmo que o primeiro-ministro entre 2012 e 2015 tivesse sido Antonis Samaras, pertencente ao Nova Democracia. À BBC, a estudante Marina Mithou, que continuou a apoiar os socialistas gregos apesar da derrocada eleitoral, admitia que era “realmente difícil explicar a alguém porque é que se apoiava o Pasok” em 2013: “Era como uma palavra suja”.

▲ Antonis Samaras, ex-primeiro-ministro do Nova Democracia que governou a Grécia durante o pico da crise

YANNIS KOLESIDIS/EPA

Até os fundadores se mostravam descontentes. À BBC, Sifis Valirakis, que chegou a ser ministro pelo Pasok nos anos 90, recorda que teve uma “história de amor” com o partido: “Era um sonho de liberdade, democracia e de um futuro melhor. Mas senti-me um pouco desapontado, porque esse sonho não foi concretizado como esperávamos”. O país estava “em bancarrota”, era “corrupto” e “não estava a funcionar como devia”. “Não era mais o partido pelo qual me apaixonei.”

Os votos dos simpatizantes e membros do partido socialista na Grécia, que estavam descontentes com as políticas de austeridade, foram essencialmente para o Syriza, que usava um tom populista. O Aurora Dourada também o utilizava, mas misturava ainda as condições económicas precárias que a população vivia com uma crítica violenta à política migratória e uma retórica ultranacionalista.

O bloco central levou a uma melhoria muito tímida dos indicadores económicos, se bem que a austeridade se mantivesse. Os gregos estavam cada vez mais cansados dos cortes em serviços públicos. A coligação que governou a Grécia entre 2012 e 2015 também foi marcada por desentendimentos constantes entre parceiros governamentais. Como exemplo, a privatização da ERT — o canal estatal helénico — levou a que a Esquerda Democrática retirasse o apoio à coligação liderada por Samaras, da Nova Democracia.

"O Pasok era um sonho de liberdade, democracia e um futuro melhor. Mas senti-me um pouco desapontado, porque esse sonho não foi concretizado como esperávamos."
Sifis Valirakis, ex-ministro do Pasok e fundador do partido

O Pasok converteu-se no parceiro menor da coligação. Se por um lado o Nova Democracia dava a cara por medidas impopulares (o que levou a um desgaste do partido do centro-direita), por outro houve sempre a sensação entre os gregos de que os socialistas as subscreviam. Em dezembro de 2014, o bloco central desfez-se, depois de não ter havido uma maioria simples no Parlamento para eleger o Presidente. Isso obrigou à convocação de novas eleições — que foram um verdadeiro terremoto político na Grécia.

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A pasokização, o Syriza a governar a Grécia e a Aurora Dourada em terceiro

Se em 2012 já tinha havido várias alterações na política grega, três anos depois a mudança ainda foi mais radical. As eleições de janeiro de 2015 acabaram com o bipartidarismo. O Syriza venceu com 36,5% dos votos, enquanto a Nova Democracia se ficou pelos 28%. Em terceiro, a Aurora Dourada com 7%. Um novo partido centrista, O Rio (To Potami, em grego), ficou em quarto com 6%. E assiste-se a um descalabro no Pasok: os socialistas foram arrasados e ficaram-se pelos 4,7% dos votos, elegendo apenas 13 deputados para o Parlamento — um mínimo histórico.

Por volta de 2015, à semelhança do que acontecia em outras democracias, os partidos de centro foram perdendo votos, numa Europa que enfrentava ainda as consequências de uma crise económica e onde se começavam a sentir os efeitos de uma crise migratória. Isso deu espaço a que surgissem partidos radicais nos dois lados políticos, que ameaçavam o ‘centrão’ político. A Grécia é um exemplo paradigmático; e, até hoje, ficou cunhado na ciência política o termo pasokização, principalmente no que diz respeito a fortes derrocadas de partidos de centro-esquerda.

▲ Alexis Tsipras, líder do Syriza, comemora vitória eleitoral em Atenas

A este tipo de fenómenos políticos está normalmente associado um quadro de instabilidade política. Na Grécia, isso também aconteceu. Ainda assim, depois das eleições de janeiro de 2015, o Syriza foi rápido a formar governo. Ficando a apenas dois deputados de uma maioria absoluta, a força política de esquerda radical aliou-se a um partido de direita nacionalista, que tinha tido 4,8% dos votos: os Gregos Independentes. Apesar de estar ideologicamente longe do partido, Alexis Tsipras angariou o seu apoio e tomou posse como primeiro-ministro, liderando um executivo abertamente contra as políticas de austeridade e que enfrentava as instituições financeiras internacionais.

Foi este governo que, no final de junho de 2015, avançou com o polémico referendo sobre a terceira proposta de resgate por parte da troika, que incluía novas medidas de austeridade e mais reformas. O ‘não’ (ou ‘oxi’, como ficou conhecido na altura) venceu com 61,3% dos votos, resultado que o Syriza e os Gregos Independentes utilizaram como prova de legitimidade política tanto interna como externa.

O referendo servia, essencialmente, para negociar melhores condições com a troika. Contudo, o governo de Alexis Tsipras viu-se confrontado com a inflexibilidade dos credores e a perspetiva de um país à beira da bancarrota; e foi obrigado a aceitar novas medidas de austeridade em troca de um terceiro resgate. Foi uma nova onda de choque na política grega. Um dos efeitos consistiu numa cisão dentro do Syriza — a ala mais à esquerda abandonou o partido e fundou um novo, a Unidade Popular.

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▲ Campanha do "Oxi" (Não) no referendo sobre a nova proposta de resgate económico

Bloomberg via Getty Images

Com a saída de vários membros, o Syriza e os Gregos Independentes deixaram de ter maioria no Parlamento e foram convocadas novas eleições em setembro de 2015. Diante de todas as recentes mudanças, os partidos da Grécia usaram novas estratégias para sobreviverem num terreno que nunca tinha sido antes pisado. Ciente de animosidade que sentiam muitos eleitores, o Pasok passou a integrar uma coligação de centro-esquerda com outros partidos pequenos do mesmo espaço ideológico, mudando de nome no boletim de voto para Alinhamento Democrático.

Simultaneamente, verificavam-se novos fenómenos após a reconfiguração do panorama político da Grécia. Além do apoio que muitos dos antigos eleitores socialistas deram ao Syriza, os mais moderados que saíram do Pasok transferiram-se para a União dos Centristas, liderada por um dos fundadores do partido de centro-esquerda, Vasilis Leventis, que era, desde 1992, uma força política pequena que não ia além de 1% dos votos. Aliás, a nova formação concorria com O Rio, que também disputava o eleitorado moderado que não se identificava nem com o Pasok nem com a Nova Democracia.

Esvaziado do seu eleitorado de esquerda e centro-esquerda, que tinha sido a grande base de apoio do Pasok, o Alinhamento Democrático apresenta-se numa coligação às eleições de setembro de 2015, liderada por Fofi Gennimata. O resultado foi ligeiramente melhor do que em janeiro: passa de 4,68% para 6,29%, convertendo-se na quarta força política mais votada. Foi, aliás, uma das poucas mudanças nesta repetição eleitoral: o Syriza voltou a vencer as eleições confortavelmente, seguindo-se a Nova Democracia e, em terceiro, manteve-se a Aurora Dourada.

▲ Alexis Tsipras, ex-primeiro-ministro grego no Parlamento

ALEXANDROS VLACHOS/EPA

Mesmo tendo perdido votos, os Gregos Independentes deram novamente a mão ao Syriza. Os dois partidos voltaram a governar a Grécia entre 2015 e 2019 e moderaram o discurso contra a austeridade. Continuaram a tomar medidas impopulares, mantiveram um forte controlo das despesas públicas, incentivaram privatizações e tentaram lidar com os ânimos inflamados da população. O estilo de Alexis Tsipras alterou-se também significativamente: o líder com um discurso bastante radical transformou-se num tecnocrata que convergia com as instituições financeiras que tanto tinha criticado no passado.

Em termos concretos, na nova cena política grega o Syriza aproximou-se do centro — e ocupou em grande medida o vácuo deixado pelo Pasok. Em 2015, em declarações ao Observador, Dimitris Tsarouhas, especialista na Fundação de Estudos Progressistas Europeus (um think tank próximo dos socialistas europeus), esclarecia o fenómeno: “Ao assinar o acordo [para o terceiro resgate], o Syriza aproximou-se do centro. O que as pessoas nem sempre sabiam é que os que votaram Syriza são muito menos radicais do que as bases ou do que a liderança do partido”, assinalou.

“Muitos dos eleitores de centro-esquerda foram parar ao Syriza”, constatou Dimitris Tsarouhas. A insatisfação com anos de clientelismo político — que levou a um descalabro nas contas públicas —, a assinatura do primeiro memorando da troika e o bloco central com o Nova Democracia no pico da crise financeira criaram uma tempestade perfeita que levaram ao quase desaparecimento do Pasok.

“Ao assinar o acordo [para o terceiro resgate], o Syriza aproximou-se do centro. O que as pessoas nem sempre sabiam é que os que votaram Syriza são muito menos radicais do que as bases ou do que a liderança do partido."
Dimitris Tsarouhas, especialista na Fundação de Estudos Progressistas Europeus

Pasok tenta reerguer-se das cinzas e Syriza perde força

Com uma base de apoio que nunca desapareceu em algumas regiões gregas que sempre foram bastiões do Pasok — como a ilha de Creta —, o partido tentou voltar a ser um protagonista na política da Grécia, num esforço que dura até hoje. Em 2017, Fofi Gennimata decidiu aglutinar todos os movimentos de centro-esquerda e criar uma nova formação partidária. Apesar das expectativas elevadas, acabou mais por ser uma operação de  cosmética que alterou, um ano depois, o nome do histórico partido Pasok para Kinal.

No Kinal, Fofi Gennimata (que morreu inesperadamente em 2021 na sequência de um cancro) reuniu alguns antigos dissidentes do partido e George Papandreou, o antigo primeiro-ministro que vencera as eleições em 2009 e que tinha assinado o primeiro memorando. O objetivo da líder partidária era claro: combater o Syriza e reconquistar o lugar de grande partido do centro-esquerda. “Temos de nos livrar do Syriza e das suas políticas catastróficas”, defendia Gennimata, acusando Tsipras de ter chegado ao poder ao explorar a “crise com um populismo e uma demagogia monumentais”.

Se à esquerda havia movimentação, à direita também, mas a tarefa não era tão difícil. Mesmo tendo participado num governo no pico da crise e tendo-se envolvido ao longo da sua história em várias polémicas, a Nova Democracia nunca gerou tanta repulsa nos eleitores como o Pasok. Além disso, era muito mais fácil para o ND fazer oposição contra o partido de Alexis Tsipras, uma vez que ideologicamente estava mais longe do Syriza do que o Kinal. Desde 2016, a força partidária histórica é liderada por Kyriakos Mitsotakis, um antigo analista financeiro que estudou nos Estados Unidos.

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▲ Fofi Gennimata, líder do Pasok que tentou reavivar o partido

NurPhoto via Getty Images

Dentro do Syriza, as coisas não estavam a correr de feição e era difícil manter unidade. Houve várias saídas entre 2015 e 2019: a aproximação ao centro e a aliança com os Gregos Independentes deram várias dores de cabeça a Alexis Tsipras. Como definiu o jornalista Nikolas Voulelis, citado pela Deutsche Welle, o Syriza foi sempre um “fenómeno único e raro na Europa”: “Consiste em diferentes orientações e isso acrescenta-lhe riqueza, mas também é a sua fraqueza”.

A saída mais mediática do Syriza foi a do antigo ministro das Finanças Yanis Varoufakis, que foi um dos seus principais ideólogos. Logo a seguir a Tsipras ter aceitado os termos do terceiro memorando em 2015, abandonou o cargo e entrou em rota de colisão com o partido. Em 2018, ao mesmo tempo que o Kinal dava os primeiros passos, o ex-governante vai ainda mais longe: cria uma nova força política, o Mera25, uma alternativa de esquerda.

As eleições europeias em junho e as legislativas de julho de 2019 foram um termómetro perfeito para medir a temperatura política num país que estava a dar os primeiros passos na saída de crise financeira. A situação económica estava melhor — a Grécia terminara o último programa de assistência financeira um ano antes — e tinha-se assistido a uma pacificação da sociedade grega.

▲ Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças, criou um novo partido de dissidentes do Syriza

AFP/Getty Images

O resultado? O Nova Democracia venceu com maioria absoluta (39,9%), o Syriza ficou em segundo lugar a cerca de nove pontos percentuais do centro-direita e o Kinal foi a terceira força política, com 6,3% dos votos. Os comunistas mantiveram-se no Parlamento, que recebeu apenas dois estreantes: o partido de Varoufakis e um novo de direita radical, a Solução Grega, que substituiu o Aurora Dourada. Entre 2015 e 2019, a força política neonazi foi perdendo apoio no eleitorado pela sua retórica extremista e até pelo uso de violência contra opositores políticos, minorias e migrantes, que levaram à prisão de vários dos seus membros. Em 2020 seria declarada uma organização criminosa pela Justiça grega.

Ao longo dos últimos anos, a tendência que se verificou naquelas eleições manteve-se: o ND continuou a ser a principal força política na Grécia, sob o comando do primeiro-ministro Kyriakos Mitsotakis. Nenhum partido conseguiu chegar perto dos resultados da Nova Democracia, que se transformou no partido hegemónico grego. Em simultâneo, o Syriza foi perdendo força — e isso começou a ser encarado como uma oportunidade para o Kinal.

Nesta senda, numa espécie de reconciliação com os gregos, o Kinal foi obtendo resultados paulatinamente melhores, se bem que permaneça muito longe da força de outrora do Pasok e do seu adversário do centro-direita. Em 2022, o partido mudou de nome e voltou às origens, após um referendo interno: passou a chamar-se Pasok-Kinal, mas a maioria dos gregos usa a designação original.

▲ Kyriakos Mitsotakis venceu as eleições na Grécia em 2019 e é até hoje primeiro-ministro

ALEXANDROS VLACHOS/EPA

Depois da doença e da morte inesperada de Fofi Gennimata em 2021, o partido perdeu um pouco o rumo. Porém, voltou a encontrá-lo sob a liderança de Nikos Androulakis, que foi eleito para o cargo há três anos e que ainda continua em funções. Em relação à mudança de nome e também ao símbolo original (um sol branco com um fundo verde), o presidente do Pasok destacou que era o regresso às “memórias de um partido histórico que se identificou com as reivindicações da população pela democracia, justiça social e dignidade nacional”.

À medida que o Pasok se tenta reerguer, o Syriza perde fulgor — o que sustenta a teoria que a subida desta força política resultou do voto dos eleitores de esquerda moderada desagradados com a austeridade. Nas eleições parlamentares de maio de 2023, o Nova Democracia voltou a vencer, ainda que desta vez sem maioria absoluta, obrigando a uma repetição eleitoral um mês depois.

Aí o ND venceu com grande folga e conquistou uma maioria absoluta em junho de 2023, com 40,5% dos votos. O Syriza ficou em segundo lugar, mas apenas com 17,9% dos votos, o que motivou a saída de Alexis Tsipras da liderança do partido. O Pasok ficou em terceiro com 11,9% dos votos, quatro pontos percentuais acima do que nas últimas eleições.

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▲ Nikos Androulakis, atual líder do Pasok

SOOC/AFP via Getty Images

O centrão parecia ter estabilizado em redor destes três partidos. O Syriza foi cada vez mais encarado pelos eleitores como um partido ao centro, especialmente sob a liderança de Stefanos Kasselakis (que substituiu Tsipras). O líder mudou radicalmente as estruturas do partido e transformou-o numa força política abertamente pró-União Europeia. A mudança de rumo foi tão forte que levou a várias cisões no partido e a uma moção de censura bem-sucedida contra Stefanos Kasselakis.

Nos extremos, após o fim da Aurora Dourada, o Solução Grega manteve-se no Parlamento, mas tem agora dois novos concorrentes no espaço da direita radical: os neofascistas Espartanos e os ultraconservadores do Vitória. À esquerda, os comunistas mantiveram a representação parlamentar e surgiu um novo partido, liderado por uma dissidente do Syriza, Zoe Konstantopoulou: o Curso da Liberdade. O partido de Yanis Varoufakis desapareceu entretanto do hemiciclo helénico.

Em novembro de 2024, a moção de censura contra Kasselakis fez com que o grupo parlamentar do Syriza se dividisse em dois — entre membros mais radicais e moderados, alguns dos quais independentes. Isso teve uma consequência: oficialmente, ainda que tenha apenas 33 dos 300 deputados, o Pasok tornou-se na principal força da oposição no Parlamento. Esta alteração deu esperança aos socialistas gregos de que poderão, em breve, voltar ao centro da política grega. Por esta altura, o partido cumpriu 50 anos — e aproveitou a ocasião para cerrar fileiras e mobilizar eleitorado.

As sondagens mais recentes mostram alguma recuperação do Pasok; num estudo de opinião publicado no início de maio, os socialistas estão com 14% das intenções de voto. Melhoram o resultado, mas continuam a não fazer sombra ao Nova Democracia, que tem 30%. O Syriza cai para mínimos históricos — 6%. E estes votos perdidos parecem ter ido não só para os socialistas, como também para o novo partido Curso da Liberdade, que, em algumas sondagens, já chega aos 18%. À direita, os novos partidos radicais também estão com bons resultados — o Solução Grega tem cerca de 10%.

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▲ Pasok voltou em 2022 ao nome original e ao logitpo do sol branco com fundo verde

SOOC/AFP via Getty Images

Nascido após uma ditadura militar, o Pasok governou a Grécia durante a democratização do país e a convergência com a Europa. No entanto, os escândalos e o clientelismo político que o partido de centro-esquerda incentivou durante décadas, aliados à maior crise económica da Europa, tiveram um resultado catastrófico e obrigaram o país a viver uma das épocas mais conturbadas da História recente. Os gregos, que viram no Syriza uma alternativa, estão a demorar a fazer as pazes com os socialistas, que não voltou aos resultados do pré-troika.

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