Mustang, Harry Potter ou mister trivelas. O que quiserem, senhoras e senhores. Ricardo Quaresma tem as costas largas e merece tais distinções. A primeira foi-lhe colada no Sporting, onde passou nove anos, tal era a força e o andamento, qual cavalo selvagem. Depois veio a magia. Curiosamente, nos filmes de Harry Potter o protagonista chega a combater com dragões. Quaresma não: sente-se em casa num e até beija o que tem estampado na camisola. A inspiração talvez venha do tio-avô, um antigo jogador do Belenenses que até marcou na inauguração do estádio do Real Madrid em 1947. O extremo brilhou esta noite com dois golos no 5-0 ao Paços de Ferreira.

FC PORTO: Fabiano, Danilo, Maicon, Marcano, Alex Sandro, Óliver, Casemiro, Herrera Quaresma, Tello, Jackson

PAÇOS DE FERREIRA: Defendi, Rodrigo Galo, Ricardo, Vasco Rocha, Hélder Lopes, Minhoca, Seri, Romeu Rocha, Sérgio Oliveira, Cícero, Edson Farias

Na baliza, apesar do debate, Lopetegui não teve muitos problemas em segurar Fabiano, que viu o lugar tremer depois da épica exibição de Helton em Braga. Jackson avisou cedo, mas Defendi fez jus ao nome. Depois foi Óliver e Maicon, que falhou escandalosamente. Só dava FC Porto nos primeiros minutos. O Paços pouco ou mal sabia como respirar. Ainda assim, tentava aqui e ali sair a jogar, mostrando alguma ousadia, que vivia sobretudo nos pés de um jogador emprestado pelo Dragão: Sérgio Oliveira.

Jackson e Tello voltaram a tentar o golo. O Paços não dava continuidade ao que fez contra o Benfica na jornada anterior (1-0). Os pacenses tiveram muitos problemas para travar os homens que vestiam de azul e apresentavam um défice de agressividade gritante. Sejamos justos: este FC Porto entrou muito forte e não queria dar abertura a surpresas. É que ainda por cima entrou em campo com um cenário novo: o Sporting estava em segundo lugar graças à vitória em Arouca (3-1).

Apesar do sufoco, da qualidade e rotação que apresentava, o FC Porto só chegou ao golo aos 28′ e precisou de ajuda alheia. O guarda-redes do Paços falhou o soco na bola e permitiu a Jackson encostar para a baliza deserta, 1-0. O colombiano marca há cinco jogos seguidos a este adversário. Não estivéssemos perante um projeto de goleada e belas exibições de Jackson e Quaresma, e o título de algumas crónicas teriam dificuldade em resistir à tentação de brincar com o nome de Rafael Defendi…

O golo até surgiu numa fase em que o Paços estava a serenar e a equilibrar as coisas. Mas o erro voltou a roubar tranquilidade à estrutura dos castores. Tello, adivinhando a tremideira na defesa do inimigo, pressionou até ao fim e ganhou a bola, numa posição açucarada para marcar. Mas a velocidade excessiva e a falta de coordenação ou ligação entre pés e cérebro, algo que tem sido hábito, não o permitiram brilhar como o talento tanto promete.

O segundo golo da noite chegou dez minutos depois do primeiro (38′). Belíssima bola longa de Marcano à procura de Jackson, numa altura em que a defesa do Paços já se aventurava a subir um pouco mais, culminou na falta de Hélder Lopes. O agarrão começa fora da área, mas parece ter continuidade quando o avançado entra na grande área. Seja como for, decisão complicada para o árbitro. Ricardo Quaresma assumiu e enganou Defendi, 2-0.

Quando muito boa gente já pensava nos afazeres para aqueles 15 minutinhos do intervalo, Quaresma, qual dragão selvagem com pó de perlimpimpim (porque não misturar tudo?), decidiu criar um misto de saudades, satisfação e déjà vu num só gesto. O número 7 recebeu, no corredor direito, colocou a bola para dentro e investiu na diagonal característica. A seguir desviou de um jogador de amarelo e… fez o que toda a gente pedia. Um trivela à antiga. Daquelas especiais, que aqueciam quem via. Daquelas que no dia seguinte, ou na própria noite, desatam a correr a toda a velocidade pelas redes sociais e televisões. E foi isso que aconteceu: trivela, barra e golo, 3-0. Classe. A forma como Óliver Torres festejou, saltando, como se tivesse sido ele a marcar, espelha bem como alguns colegas sabem a importância deste golo para Quaresma. O internacional português sairia aos 69′, abraçado por um sem fim de palmas.

O festival continuou logo no primeiro minuto do segundo tempo. Super-jogada de Jackson (mais uma) e finalização fácil de Herrera, já na pequena área, 4-0. A partir daqui, o FC Porto tiraria o pé do acelerador, pensaria em poupar gasolina para as batalhas que aí vêm. “Vamos tentar dar guerra neste campeonato”, foi assim que Lopetegui lançou o jogo. Os jogadores deram uma valente resposta.

Seri, um jogador irrequieto que ia mostrando toque de bola muito interessante, enviou uma bola à barra no minuto seguinte. Depois foi Óliver que abriu a porta para Defendi brilhar, falhando assim o golo que permitia a manita. A intensidade abrandou, mas o FC Porto tinha a bola e o jogo controlados, embora tivessem alguns momentos de apuros. É que o Paços estava a ser goleado porque é fiel a uma ideologia moderna e corajosa: o autocarro só serve para viajar.

Com pouco mais de dez minutos para jogar, já sem muita história para contar, Romeu viu o segundo amarelo por falta sobre… Jackson, pois claro. Tello aproveitou a ausência de Brahimi e Quaresma para reivindicar um lugar ao sol. Grande golo de livre direto do espanhol, 5-0. Enquanto os homens da Invicta davam um festival, a Argélia caía aos pés da Costa do Marfim no CAN, o que significava o regresso de Brahimi. Seria possível uma noite melhor para os portistas?

Ponto final no Dragão. Depois da derrota nos Barreiros, no Funchal, o Porto volta a entrar na estrada que tem como destino o topo da liga. Os dragões nunca haviam marcado cinco golos ao Paços. É necessário puxar a fita atrás até 2006 para ver o melhor resultado: 4-0, cortesia de Pepe (bis!), Hélder Postiga e Lucho. Foi a terceira vez que os portistas venceram por 5-0 nesta Liga (Arouca e Rio Ave). Na próxima jornada a equipa de Lopetegui desloca-se a Moreira de Cónegos para aproveitar a escorregadela de Benfica ou Sporting no dérbi de Alvalade. Ou de ambos…

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