Na carta do Boi-Cavalo, em Alfama, poucos são os pratos que se aguentam mais do que um ou dois meses. Será isso mau? Só para quem gostaria de os experimentar a todos. De resto, é apenas sinal que na cozinha reinam duas cabeças — sim, duas — fervilhantes de ideias, sempre à procura de novos produtos, combinações e forma de as apresentar. Sinal de criatividade. Muita criatividade.

Não estranha, por isso, que a dupla que comanda a cozinha do Boi-Cavalo se assemelhe, em certa medida, a uma dupla criativa de agência de publicidade. Pouco interessa se Hugo Brito é o redator e Pedro Duarte o diretor de arte ou vice-versa. Interessa, isso sim, que se completam. Nas ideias, no discurso e, mais importante, na execução do trabalho.

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Os homens do Boi-Cavalo, Hugo e Pedro / Vera Marmelo ©

O prato do dia

A criação de que aqui se fala, reconhecem, tem sido uma exceção à regra da constante rotação da carta. Consta desta há vários meses, não sabem precisar quantos, e está para ficar, pelo menos para já. Os clientes gostam, eles fazem.

“Queríamos fazer um prato com açorda e há imenso tempo que também andamos a querer trabalhar lingueirão bebé. Decidimos juntar as duas coisas, foi assim que surgiu a ideia”, explica Hugo. E se a história podia ser mais entusiasmante, o prato dificilmente o poderia ser. Rechear gyozas, uma entrada tipicamente oriental, com açorda de chouriço, juntar-lhe lingueirão bebé e ainda um molho à Bulhão Pato, quatro elementos tão semelhantes como os filhos de Brad Pitt e Angelina Jolie, parece, à primeira vista, fazer tanto sentido como mascar um caramelo torrado depois de lavar os dentes. Mas só à primeira vista. Até porque a coisa foi devidamente pensada e os ingredientes para cada elemento provam-no.

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Seria impraticável estar a fazer a rechear e a fechar as gyozas ao momento, antes da fritura, portanto, chamam-lhe “trabalho de domingo”. E quem diz domingo diz quaisquer tempos mortos, que não abundam por ali. É nessa altura que fazem a açorda e recheiam as gyozas, antes de as congelarem. No momento da confeção só têm de preparar o lingueirão, corar (e não fritar completamente) as gyozas e juntar-lhes o segredo, que não está na massa, como dizia o outro, mas sim no molho.

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No empratamento, que pode ser acompanhado na bancada da cozinha, uma extensão aberta ao público da sala de jantar, o primeiro elemento a entrar será, talvez, o mais surpreendente: a paprika fumada La Chinata, um produto espanhol, da região DOP de La Vera, na Extremadura. Os restantes elementos são depois colocados com muito cuidado e preceito mas sem grandes formalismos. Como o próprio restaurante, no fundo.

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Prato: Lingueirão bebé, gyozas de açorda e bulhão pato
Preço: 8€
Restaurante: Boi-Cavalo
Morada: Rua do Vigário, 70B (Alfama), Lisboa.
Telefone: 21 887 1653
Horário: De terça a domingo das 20h00 à 01h00.