Ao fim de 100 dias de liderança de António Costa, Eduardo Ferro Rodrigues vê sem surpresas os resultados das sondagens que apontam o PS ainda longe de uma maioria absoluta – aquela que muitos costistas ferrenhos esperavam dias depois da vitória de Costa nas primárias que destronaram António José Seguro. Numa avaliação sobre este primeiro período do novo secretário-geral, aponta aquelas que, a seu ver, têm sido as dificuldades inesperadas, entre as quais, o rumo da Grécia, o aparecimento de novos partidos e a detenção do ex-primeiro-ministro José Sócrates. E as dificuldades em passar a mensagem.

“O PS tem uma situação bastante infeliz com o facto de o antigo primeiro-ministro estar em prisão preventiva, uma situação que causa evidentemente grandes dificuldades”, assume Ferro Rodrigues, um dos socialistas que foi visitar José Sócrates à prisão a Évora, em declarações ao Observador a propósito dos 100 dias de António Costa.

O líder parlamentar do PS considera que o atual secretário-geral tem uma “força diferente” de António José Seguro e que tem uma “legitimação” dada por “milhares de pessoas” nas eleições primárias. Mas admite que nunca embarcou na ideia que há uma altura em que o PS daria um salto nas sondagens porque “a situação mudou muito”.

E o que mudou?

Ferro Rodrigues, que tem ouvido nas últimas semanas críticas de deputados sobre a falta de iniciativas ou de tomadas de posição por parte do PS, considera que o partido (e António Costa) têm apresentado propostas, mas que as suas ideias dificilmente passam através dos órgãos de comunicação social.

“António Costa tem tentado conduzir o partido no sentido de ter propostas. Ao contrário do que é muitas vezes dito, têm sido apresentadas numerosas propostas tanto no terreno social como económico e político. Temos feito uma oposição frontal ao Governo”, diz ao Observador.

Ferro queixou-se destes problemas de comunicação numa reunião da bancada parlamentar, um dia depois de Costa ter apresentado propostas (na área da segurança social, por exemplo) e de o dia ter ficado marcado por uma troca de palavras entre Costa e o ministro Poiares Maduro sobre os fundos comunitários.

Para o ex-ministro e também ex-secretário-geral do PS, daqui até às eleições, os socialistas têm de se habituar a repetir – “nem que seja preciso 500 vezes” – a mesma mensagem, porque estão debaixo dos holofotes por poderem vir a ser Governo.

“O PS e António Costa, por serem aqueles que aparecem à frente nas sondagens e com possibilidade de formar Governo, são mais criticados. Isso é óbvio que é o que vai acontecer daqui até às eleições, temos de achar isso uma coisa perfeitamente normal. Quando três comentadores das televisões em canal aberto são dois ex-líderes do PSD – só o Morais Sarmento é que não foi – estamos numa situação um pouco estranha do ponto de vista da comunicação”.

O socialista refere ainda que Costa tem feito o papel de alternativa ao Governo, não mostrando uma “colagem às políticas de austeridade”. “Seria um absurdo colarmo-nos a políticas que deram um resultado extremamente negativo para o país”, considera, acrescentando que isso não tem impedido o PS de encontrar pontes de diálogo com o Governo, nomeadamente nas questões de soberania, de que é exemplo as alterações à legislação anti-terrorismo.

Socialistas são gregos, mas qb

Os próximos meses vão ser de várias definições, na Grécia, na Europa e, por arrastamento, por cá. Num primeiro momento, o PS teve uma posição de colagem à vitória do Syriza, salientando a vantagem de ter um governo que aponta armas à austeridade, mas com o desenrolar das negociações entre os gregos e os parceiros europeus houve um arrefecer do entusiasmo. Ferro lembra até uma diferença entre Costa e Tsipras: as promessas eleitorais e, por exemplo, a posição do PS (ou falta dela) em relação à dívida pública.

“Faz mais sentido não avançar com propostas ou proclamações que depois não são possíveis de levar à prática depois das eleições. Há uma grande preocupação dele [Costa] em relação a isso e acho que tem demonstrado ter toda a razão”, explica Ferro, sublinhando que mesmo o Syriza assume agora “uma posição bastante mais suave do que antes das eleições”. 

Mas na vida dos socialistas há ainda outro fator a ter em conta: a proliferação de partidos à esquerda.

“Há um conjunto de novas forças políticas que está a aparecer e que vão capitalizar este descontentamento geral. Compreendo que se aponte para a maioria absoluta, outra coisa é ter a certeza que ela se vai verificar”, frisa.

De fora da lista de dificuldades, está a acumulação do cargo de secretário-geral do PS com o de presidente da Câmara de Lisboa. Para Ferro, estas duplas funções de Costa não são um problema. “Tem sido possível compatibilizar as duas funções de uma forma que não prejudica nem uma nem outra”, defende. O líder do PS fez saber, através do vice-presidente da Câmara, Fernando Medina, que só abandonaria a autarquia para se candidatar a primeiro-ministro – decisão que, contudo, deixou surpreendidos alguns socialistas que denotam nessa atitude falta de ambição. Mas, de qualquer forma, ainda faltam muito mais do que outros 100 dias até às eleições legislativas.