O BPI já respondeu à notificação da Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), divulgando a carta enviada pela Santoro, holding de Isabel dos Santos, que propõe o estudo de uma fusão com o BCP. Mas ao contrário da gestão liderado por Nuno Amado, que mostrou disponibilidade para estudar esse cenário, a equipa liderada por Fernando Ulrich não faz qualquer comentário à proposta da empresária angolana. A gestão do banco está limitada pela oferta da CaixaBank.

Isabel dos Santos é a segunda maior acionista do BPI e defende o estudo de uma fusão com o BCP em alternativa à oferta pública de aquisição (OPA) lançada pelo banco catalão sobre o BPI. Na carta que é assinada por Mário Silva, o presidente da Santoro e administrador do BPI lembra que a empresa já manifestou reservas ao projeto de consolidação do BPI com uma estrutura internacional e revela que a holding de Isabel dos Santos tem mantido conversações com vários “stakeholders” do BCP, incluindo acionistas de referência e equipa de gestão, acreditando que existe “abertura para se iniciar um processo de diálogo aprofundado pelas equipas de gestão direcionado à consolidação entre os dois bancos”.

A missiva que começa com um “caro amigo” tem data de 2 de março (segunda-feira) e foi enviada aos presidentes do BCP, BPI e CaixaBank, respetivamente, Nuno Amado, Fernando Ulrich e Gonzalo Gortazar. Começa por reafirmar um entendimento já manifestado quanto à oferta do CaixaBank sobre o BPI que, “não reflete corretamente o valor da instituição, por si só, nem o seu potencial de crescimento e não partilha com os acionistas do BPI o adequado valor das anunciadas sinergias”.

A Santoro manifesta “as maiores reservas” a um projeto que não salvaguarda “a independência de gestão do Banco BPI”. Mário Silva realça que um dos mais importantes pilares do banco é uma “estrutura diferenciada, mas alinhada e coesa, que preserve a independência da sua gestão a longo prazo”. A holding de Isabel dos Santos lembra que foi neste quadro que comprou em 2012 uma parte das ações que o La Caixa tinha adquirido ao brasileiro Itaú, permitindo dispensar o banco catalão de lançar então uma OPA.

É preciso alinhar muitas vontades e interesses, incluindo o Caixa Bank

Considerando que a posição no BPI é estratégica, a “Santoro tem mantido conversações com vários stakeholders do Millennium BCP, incluindo acionistas de referência e, em termos ainda preliminares, com a própria equipa de gestão, sendo nossa convicção que existe abertura para se iniciar um processo de diálogo aprofundado pelas equipas de gestão direcionado à consolidação entre os dois bancos”. Reconhece que este caminho “implica a convergência e alinhamento de um conjunto significativo de vontades e interesses – e, em particular, a vontade e o interesse do Caixa Bank -, mas é nossa convicção de este será um processo virtuoso de criação de valor”.

A Santoro faz então a lista dos pontos a favor de uma fusão que criaria o maior banco em Portugal, que permitiria a captação de sinergias no desenvolvimento do negócio e da capacidade instalada em Portugal, mas também em Angola e Moçambique, países onde os dois bancos têm presença. Defende que a instituição teria capacidade reforçada para financiar o tecido empresarial e sublinha que o banco seria gerido de forma “profissional e independente e alicerçada numa estrutura acionista diversificada, sólida e alinhada”.

Nesse sentido, conclui que a fusão serviria melhor os interesses das duas instituições e propõe que seja “devidamente ponderada e analisada pelos conselhos de administração de ambas as sociedades. Gostaríamos de poder contar com o acordo e a recetividade do Caixa Bank para encetar esse processo de diálogo”. A gestão do BCP já respondeu, mostrando-se disponível para analisar a possibilidade. O BPI limitou-se a divulgar carta, sem emitir posição. O CaixaBank, que não está representado na comissão executiva do banco português, já manifestou reservas em relação à proposta. O presidente Isidre Fainés avisou: “o jogo ainda agora começou“.