Boris Nemtsov, líder da oposição russa, foi morto a tiro na passada sexta-feira, em Moscovo. A sua morte, ainda por explicar, gerou uma onda de contestação, dentro e fora do país. Depois de um funeral onde poucos quiseram faltar, na capital, cerca de 50 mil pessoas marcharam em honra do opositor de Putin. Lá fora foram vários os governantes que exigiram uma investigação clara e isenta.

Uma semana depois, as dúvidas em relação ao seu assassinato persistem. Quem, como e porquê, são algumas das questões que estão ainda por responder. Até à data, as autoridades ainda não foram capazes de identificar o possível autor do crime e são muitas as contradições que estão por explicar:

Morto ao atravessar a ponte Moskorestsky? Alvejado pelas costas? As dúvidas são muitas

Na noite de 27 de fevereiro, Nemstov jantou com a namorada, Anna Duritskaya, no restaurante Bosco, no centro comercial GUM. Por volta das 11 da noite (hora local), o casal deixou o local em direção à casa do ex-vice-primeiro-ministro (com Ieltsin), situada na rua Malaya Ordynka. Ao passarem pela Praça Vermelha, junto ao rio Moscovo, Nemtsov foi morto a tiro, a cerca de 100 metros da Ponte Moskvoretsky.

A polícia recebeu, às 23h23, várias chamadas relatando o incidente na ponte Moskvoretsky. Mas segundo um vídeo divulgado pelo canal de televisão TCV, o assassinato aconteceu exatamente às 23h11 e a polícia só chegou ao local 12 minutos depois, segundo refere o Financial Times.

Apesar do relatório divulgado pela investigação — e confirmado pela namorada do antigo líder da oposição — de que o antigo líder da oposição foi baleado nas costas, o Financial Times refere que existem contradições. Segundo o jornal, uma imagem do corpo de Nemtsov, divulgada por um canal de televisão, mostra que não existe nenhum vestígio de que tenha sido alvejado dessa forma.

Outras fotografias, disponíveis na internet, mostram Nemtsov na ponte, de camisola levantada. E aí sim, é possível ver os buracos deixados pelas balas.

Por causa destas contradições, há quem defenda que Nemtsov não foi morto na ponte, mas sim noutro lugar.

Anna Duristkaya, a única testemunha do crime… que diz nada ter visto

Em entrevista ao canal de notícias russo “Dozhd”, Anna Duristkaya confessou não ter visto “nada”. De acordo com o Wall Street Journal, a modelo ucraniana explicou que o atacante estava atrás deles e que, por isso, não conseguiu ver quem ele era.

Depois dos disparos, a modelo disse ter visto um carro de cor clara a sair do local, mas que não se consegue lembrar da marca ou da matrícula. “Não vi nada. Quando me virei, a única coisa que consegui ver foi um carro de cor branca a ir embora”, contou. Depois do ataque, Duritskaya foi interrogada pelas autoridades. O interrogatório durou “a noite toda” e não lhe foi fornecido um advogado.

Ainda na mesma entrevista, a modelo disse que a polícia não a deixava regressar à Ucrânia. Contou que estava a viver na casa de um amigo de Nemtsov e que queria regressar a casa. Entretanto, já foi autorizada a regressar a Kiev, onde vive.

À “Dozhd”, Duritskaya disse que namorava com Nemstov há três anos. O antigo vice-primeiro-ministro ainda era legalmente casado, mas estava separado há vários anos.

Duristkaya, de 23 anos, é modelo na agência Amodels, em Kiev. Nasceu em Bila Tserkva, uma cidade a mais de 80 quilómetros da capital ucraniana, refere o Mashable.

Chão lavado… pela chuva. E balas de muitos fabricantes

De acordo com o Financial Times, antes de amanhecer uma equipa limpou a zona do crime, apagando todos os vestígios. O facto foi depois desmentido pelas autoridades, que disseram que o local tinha sido “lavado” pela chuva.

Perto do corpo, foram encontradas seis cápsulas de munições de calibre 9 mm, provenientes de diferentes fabricantes, o que torna mais difícil rastrear a sua origem. Quatro deles foram fabricados na cidade de Chelyabinsk, em 1986, e os restantes em Tula, em 1992.

Com base no depoimento de Duritskaya, a polícia tentou encontrar o “carro de cor clara”, no qual o atacante parece ter escapado. Alguns veículos foram investigados, mas as autoridades não chegaram a nenhuma conclusão.

 As câmaras de segurança em manutenção? 

O Kremlin, um dos lugares mais protegidos de Moscovo, está rodeado de câmaras de segurança mas, durante o ataque a Nemtsov, estavam todas desligas para manutenção.

A notícia, avançada pelo Moscow Times, foi depois desmentida pelo governo municipal, que insistiu que os aparelhos estavam a funcionar normalmente e que a gravação de segurança nunca foi interrompida.

Segundo o Financial Times, o governo municipal explicou que a gravação das câmaras de segurança do Kremlin foi entregue ao Departamento de Segurança Federal. O canal de televisão TVC, publicou o vídeo que mostra o assassinato. As imagens, de pouca qualidade, parecem ter sido gravadas por uma câmara de segurança, localizada no lado oposto da ponte.

Mas afinal, quem matou Boris Nemtsov? Islamistas, radicais ucranianas ou inimigos políticos?

A 28 de fevereiro, um dia depois do incidente, as autoridades responsáveis pela investigação divulgaram um comunicado, numa primeira resposta completa ao assassinato de Nemtsov. No documento, citado pelo New York Times, é referido que estão a ser investigados seis possíveis suspeitos é que “não há qualquer dúvida de que este crime foi minuciosamente planeado, assim como o local escolhido para o assassinato”. “Boris Nemtsov dirigia-se com a sua companheira para casa, localizada perto do local do crime. É evidente que os organizadores e os autores do crime estavam informados do seu trajeto”, concluiu a comissão responsável pela investigação.

No comunicado, as autoridades referem a possibilidade de o antigo vice-primeiro-ministro ter sido morto por radicais islâmicos, devido à sua posição em relação ao atentado ao jornal francês Charlie Hebdo. De acordo com a comissão, Nemstov terá recebido ameaças por parte de islamitas, que eram do conhecimento da polícia.

Para além desta possibilidade, as autoridades afirmaram que “personalidades radicais” ucranianas podem também ser as responsáveis pelo assassinato. A estação de televisão “Life News”, com ligações aos serviços secretos russos, refere ainda a possibilidade de Nemtsov ter sido morto num ato de vingança, por ter levado uma mulher a abortar.

O comunicado refere ainda que a polícia está a considerar outras motivações, de ordem pessoal e profissional. “A investigação está a considerar várias versões. A primeira é a de que o assassinato foi uma provocação para destabilizar a situação política no país, onde a figura de Nemtsov se tornou numa espécie de vítima sacrificial para aqueles que não olham a meios para atingir os seus objetivos políticos”, pode ler-se na nota.

A explicação dada pela comissão é semelhante à elaborada num comunicado publicado durante a noite de sexta-feira no site oficial do Kremlin, no qual Vladimir Putin caracterizava o assassinato como “provocatório”, refere o New York Times.

Para a oposição, é evidente que Putin está por trás do ataque, mas há quem tenha outras teorias. Alguns órgãos de comunicação estatais russos e comentadores nacionalistas acusaram a CIA, o governo ucraniano e Mikhail Khodorkovsky, um empresário exilado, de terem encomendado o crime.