Noroeste americano, Estado de Washington, 1997. A sonoridade grunge do início da década era apenas um eco nas alamedas sonoras de Seattle. A 140 quilómetros, hora e meia de carro em direção ao norte, a pacata cidade costeira de Bellingham e o campus da Western Washington University configuram o berço de uma das bandas mais importantes do início do século. Os Death Cab for Cutie nasceram como banda de estudantes universitários que se tornou, gradualmente, uma referência do estilo indie rock, terno e melancólico, com melodias progressivas e letras a condizer com a profundidade dramática da adolescência.

A banda liderada por Ben Gibbard, um quarteto entretanto reduzido a trio após a saída de Chris Walla – oficializada em setembro passado no último concerto em que atuou com a banda – vive tempos de mudança. Walla foi alma criadora do projeto desde o início, com Gibbard, assumindo a produção de todos os álbuns de estúdio da banda, sete em 17 anos.

O oitavo disco, com saída prevista para 31 de março, chama-se “Kintsugi”. É aguardado com grande expectativa por ser o primeiro sem a assinatura de Walla, embora o guitarrista e compositor tenha contribuído para as gravações até à conclusão do álbum. O título do disco, a lista de temas e a capa foram revelados através das redes sociais no dia 12 de janeiro. “Black Sun“, single de apresentação, “The Ghosts of Beverly Drive” e “No Room in Frame“, o 2º single lançado a 23 de fevereiro, foram apresentados ao vivo em janeiro, durante um concerto no The Crocodile, em Seattle. Em qualquer dos novos temas parece notório um certo regresso às origens rítmicas da banda.

“Kintsugi” é a arte japonesa de reparar cerâmica partida. As “cicatrizes” ganham destaque, não são disfarçadas. Fazem parte da história do objeto. Um processo de evolução em que não há intenção de esconder os danos provocados pelas mudanças, mas antes crescer e aprender com elas. Talvez uma alusão ao corte provocado pela saída do elemento fundador ou, quem sabe, a evocação do período vivido por Gibbard, em Los Angeles, depois do fim do casamento com a atriz Zooey Deschanel.

Os Death Cab for Cutie chegam à Europa em junho, estreando-se em Portugal no sábado dia 6, último dia do NOS Primavera Sound 2015, no Porto. É um regresso a este festival, ou melhor, uma segunda tentativa, já que na edição de 2012 não puderam atuar devido ao temporal que se abateu no Parque da Cidade, provocando estragos na estrutura do palco. A fórmula seguida nas recentes atuações nos EUA deverá continuar por cá. A banda tem contado com a colaboração de Dave Depper (guitarra) e Zac Rae (teclados) como músicos de suporte. Como cabeças de cartaz do último dia do festival, espera-se uma atuação virada para a promoção do novo disco “Kintsugi”, num desfile pontuado pelos principais momentos de uma carreira que este ano atinge a maioridade.

De projeto de curta duração e sucesso improvável a banda rock com cinco nomeações para os prémios Grammy, entre 2006 e 2012, a ascensão foi tudo menos rápida. Depois de terem conseguido criar uma base de fãs dedicados, nos primeiros anos, conseguiram entrar no circuito comercial somente depois de quatro álbuns editados numa pequena editora independente.

Catalogados como alternative rock, indie ou emo, os Death Cab for Cutie nasceram da reunião de quatro estudantes que viam na música a melhor forma de expressão. Os retratos pessoais e o registo sentimental são ingredientes constantes nas composições do grupo. Trovadores autênticos, capazes de interpretar como poucos a angústia juvenil que pode assaltar-nos mesmo quando já chegámos aos 40. Boa prova disso é, por exemplo, o notável “I Will Possess Your Heart”, espécie de elegia romântica com mais de oito minutos, cerca de metade em crescendo instrumental.

Mas de onde vem este nome estranho? Ben Gibbard admitiu em alguns momentos que, se pudesse voltar atrás, arranjaria um nome mais intuitivo. Quando gravou a primeira cassete, com Walla, foi buscar o nome a uma velha canção de 1967 dos The Bonzo Dog Band (também referida como The Bonzo Dog Doo-Dah Band), banda londrina formada no cenário pop psicadélico da altura. A letra conta a história de uma rapariga bonita (Cutie) que resolveu sair de casa, certa noite, contra a vontade do namorado e apanhou um táxi em direção a um cruzamento com a morte (Death Cab), quando o táxi não parou num semáforo encarnado. Mas afinal “o que tem um simples nome? Aquilo a que chamamos rosa, com outro nome, teria igual perfume.” O solilóquio de Julieta, na obra clássica de Shakespeare, adequa-se à questão do nome da banda. Podia de facto chamar-se outra coisa qualquer… a música continuaria a ser a mesma.

Na vida nem tudo são rosas. Após a digressão de “Codes and Keys”, em 2012, os elementos da banda resolveram afastar-se e tirar algum tempo para fazer outras coisas. Gibbard gravou um disco em nome próprio – “Former Lives” – e garantiu a digressão respetiva, participou num filme, fez um tema com Leslie Feist – “Train Song” – para uma compilação de indie rock com receitas de venda a favor da Red Hot, organização que luta contra o VIH. Chris Walla voltou a Seattle para se dedicar à renovação do seu estúdio, o Hall of Justice, onde gravaram os Death Cab for Cutie mas também os Nirvana, entre muitos outros. O baixista Nick Harmer e o baterista Jason McGerr seguiram os seus próprios projetos e colaborações eventuais com outros músicos.

Reencontraram-se no verão de 2013 para preparar o oitavo disco “Kintsugi” mas, a meio do processo, decidiram que seria melhor contratar um novo produtor, alguém externo ao processo criativo da banda. A ideia era fazer algo novo, sem a marca omnipresente de Walla no som de Death Cab for Cutie. Sair da zona de conforto parecia ser uma necessidade reconhecida por todos.

A produção de “Kintsugi” foi entregue a Rich Costey, homem associado ao som de nomes tão diversos como Muse, Foo Fighters, Jane’s Addiction, Frank Turner ou Foster the People. Recentemente assinou a mistura de som da banda sonora do filme “As 50 Sombras de Grey”. Curiosamente, Costey era engenheiro principal no estúdio de Philip Glass, em Nova Iorque, quando a banda de Gibbard dava os primeiros concertos na faculdade, em 1997. Costey afirmou-se como produtor num disco de Fiona Apple, sendo depois responsável pelo álbum de 2002 dos Audioslave e por um disco ao vivo de Rage Against the Machine, em 2003.

Após a conclusão de “Kintsugi” a mudança tornou-se mais evidente e profunda. Chris Walla tinha decidido abandonar o projeto em absoluto. Escreveu uma carta de despedida anunciando a saída do quarteto ao fim de 17 anos, grato pelo passado construído mas ansioso pelo futuro. Com um percurso notável enquanto produtor para bandas como Nada Surf, The Decemberists ou Tegan and Sara, Walla é dono de dois estúdios e de uma pequena editora.

Independentemente do que venha a ser o futuro, está para já assumida, sem preconceitos, uma nova fase no percurso dos Death Cab for Cutie, agora como trio formado por Ben Gibbard, Nick Harmer e Jason McGerr, após a separação amigável de Chris Walla. Estão entre os músicos mais talentosos da sua geração e conseguiram fazer do fenómeno Death Cab uma das bandas que ajudam a definir o panorama sonoro desta era.

Têm fama de bons rapazes, comprovável pelo ambiente que se vive nos seus concertos. Não costumam despir-se em palco, vestem roupa casual, não consomem drogas e mantêm a mesma atitude discreta, focada na música, sem grande espalhafato. São habitualmente noites sem perigo e sem chamadas para o 112. Resta saber se no final do concerto do NOS Primavera Sound vamos ouvir alguém dizer “drive well, sleep carefully”. A conferir no dia 6 de junho, no Porto.

deathcabforcutie.com / NOS Primavera Sound