“Se há personagem inspiradora nesta matéria é a personagem de Cristo que nunca teve medo de andar com aqueles que se diziam de má fama. Os políticos têm má fama. É um facto”. As palavras pertencem à ministra da Agricultura, Assunção Cristas numa conferência organizada na sexta-feira pela arquidiocese de Braga, no âmbito do ciclo de conferências “Nova Ágora”.

Desafiada a responder a uma pergunta da assistência sobre o descrédito da classe política e a distância entre portugueses e políticos, a governante e dirigente do CDS lembrou o exemplo de Jesus e admitiu que muito do que pode justificar este fenómeno reside no desânimo dos portugueses com os agentes políticos. No entanto, à “má fama dos políticos”, como descreveu Assunção Cristas, não é estranha a falta de envolvimento da sociedade civil na política.

“Se os políticos têm má fama, temos Cristo que nunca teve medo ou vergonha ou receio de comer com aqueles que tinham má fama. (…) A minha perspetiva sempre foi esta: antes de exigir aos outros, exija-se a nós próprios. Antes de se pensar porque é que não se tem melhor política, [devíamos perguntar] porque é que não somos melhores agentes nessa política”, questionou a ministra.

Mesmo admitindo que os políticos têm “má fama”, a centrista negou-se a aceitar que façam parte de uma classe especialmente poluta. “[Na política], não vejo gente diferente dos outros, não vejo gente diferente da advocacia, da faculdade ou do resto do mundo. É gente mais escrutinada. É gente de quem se sabe tudo sobre a sua vida”, defendeu, por fim, Assunção Cristas.

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O desafio tinha sido deixado por Ricardo Gonçalves, um ex-deputado do PS, aos três convidados da conferência “Olhares sobre política” – além de Assunção Cristas, também José Junqueiro, deputado socialista, e Miguel Morgado, professor universitário e assessor do primeiro-ministro, compunham o painel de oradores. Numa intervenção longa, Gonçalves falou sobre a “confusão” instalada nos portugueses que acham que “quem está no poder deve ser arrasado e que os da oposição devem fazer completamente diferente”. No entanto, se a oposição fizer realmente tudo diferente enfrenta a possibilidade de deixar as pessoas em “pânico”, disse.

Então, Cristas pegou no mote: “É o paradoxo de hoje em dia: por um lado, exigir-se muito à política; por outro lado, ter-se muito pouca disponibilidade para votar. (…) Como podem imaginar, um político, nos seus círculos de amigos e de conhecidos, ouve muito estas coisas e ouve ‘porque é que não fazem assim, porque é que não fazem assado… E a minha pergunta é sempre: porque é que não se juntam mais? Porque é que não há mais gente a juntar-se? (…) Onde estão hoje os católicos na política? E porque é que não estão mais na política? Porque se calhar é mais cómodo”, afirmou.

Recusando-se a aceitar a ideia de que não existe uma maior participação cívica por culpa das máquinas partidárias, a governante preferiu insistir na tese de que, mesmo vivendo num contexto em que “as questões pessoais” e “familiares” estão cada vez mais no centro das preocupações dos cidadãos, é preciso um maior empenho da sociedade civil na vida política portuguesa e lembrou as últimas orientações de Papa Francisco.

“[A mudança é feita por] quem se sente interpelado, [por] quem acredita que quando exige mudanças tem de ser agente da própria mudança. [Nesse sentido], acho que os cristãos – o Papa Francisco refere isso – devem sentir-se particularmente interpelados porque a nossa doutrina é feita de desacomodamento, é feita de não estar a exigir aos outros mas a nós próprios”, afirmou Cristas.