Foi no passado dia 23 de setembro, no MAAT Central, em Lisboa, que teve lugar a 3ª conversa de um ciclo de conversas promovido pela Fundação EDP, no âmbito do seu 20º aniversário. Em todas as conversas, são levados a debate temas fundamentais para a Fundação e, acima de tudo, para a comunidade. Sob o mote “O Futuro Conta a Nossa História”, a tarde foi dedicada ao tema da energia.

António Coutinho, CEO EDP Inovação, Júlia Seixas, Professora da Universidade NOVA de Lisboa, e Assunção Cristas, Professora da Nova School of Law e Partner da VdA, foram os intervenientes de uma conversa moderada pelo host do Observador, Paulo Ferreira. Juntos, desmistificaram o tema da energia em Portugal, percebendo de que forma devemos encarar o futuro da sua história.

Se é verdade que a eletrificação mudou Portugal com transformações sociais e económicas, será que é tempo de dar por terminado esse impacto? Esta foi a pergunta que ditou o início.

“Quando falamos de uma das invenções que mais transformaram o mundo, a eletricidade aparece sempre como um dessas tecnologias mais transformadoras. Transformou sociedades, a forma como nos movemos, produzimos, a forma como nos aquecemos. Transformou o mundo naquilo que conhecemos hoje”, começou por dizer António Coutinho, acrescentando que, no caso português, a eletrificação trouxe consigo um efeito extraordinário: “O primeiro aspeto foi o acesso universal à energia. Esta universalização reduziu assimetrias entre os vários portugais que ainda hoje existem, entre um litoral e um interior e entre pessoas que têm mais e menos posses. A eletricidade permitiu elevar o conforto de todas as pessoas. Mas permitiu mais. Permitiu aumentar a produtividade e, portanto, foi de facto uma grande alteração”, afirma, reforçando que este foi apenas o início.

Temos de produzir eletricidade de uma forma ambientalmente sustentável e esta mudança que o mundo tem de fazer, e tem de fazer num prazo relativamente curto, é uma transformação muito grande. Nesse aspeto, Portugal está a liderar e é um exemplo. Vamos ter de eletrificar muito mais a nossa economia” – António Coutinho, CEO EDP Inovação.

A eletrificação trouxe consigo um conforto e, consequentemente, elevou fatores como a competitividade. Contudo, foi claro ao longo da mesa-redonda que encontrar um equilíbrio entre estes dois fatores nem sempre se traduz na tarefa mais fácil. Nos últimos 10 anos, em Portugal, o consumo de eletricidade aumentou. Porém, na estrutura global de todo o conjunto de formas de energia consumidas, o aumento não foi tão significativo, representando menos de 1/4 do problema energético em Portugal.

“Consumimos mais eletricidade, mas também estamos a aumentar o consumo de outro tipo de formas de energia. Isso, no contexto da economia europeia, integrado na dita transição energética inclusiva, significa que estamos a evoluir muito devagar. O termo transição significa que temos algum tempo para fazer este percurso. Não há varinhas mágicas. Há aqui este tempo que demora”, referiu Júlia Seixas.

Para a Professora da Universidade NOVA de Lisboa, as palavras “incerteza” e “adversidade” são escolhas indicadas na hora de descrever o contexto internacional. Com a ajuda da professora catedrática, ficámos a saber que, atualmente, ainda existem 666 milhões de pessoas, no mundo inteiro, sem acesso a eletricidade. “Estamos aqui numa encruzilhada em que algumas partes do mundo não estão a caminhar na mesma direção. Em termos de bem-estar, o acesso à energia tem de ser entendido de uma forma mais ampla do que propriamente ter acesso à eletricidade, combustíveis ou o que for. Portugal, em conjunto com a Espanha, são os dois países em que, na pobreza energética, somos os campeões. Cerca de 21%, o que em Portugal dá cerca de 2 milhões de pessoas”.

A energia é um direito de cidadania. Porém, foi possível perceber que ainda não é um ponto assente no país. Nem no mundo. Segundo Assunção Cristas, existe uma divisão na sociedade entre os que “conseguem lá chegar e os outros que, simplesmente, não podem fazê-lo. Há, ainda, um certo desencontro entre a disponibilidade, por um lado, das soluções, e, por outro lado, da capacidade que as pessoas têm para pagar essas soluções. Temos muita gente que vive na pobreza energética, que não consegue aquecer as suas casas. É o advento de uma nova assimetria e eu acho que já se pode sentir”.

A política pública devia fazer um pacto com a ciência. A ciência é um porto seguro” – Júlia Seixas, Professora da Universidade NOVA de Lisboa

Ao longo da conversa sobrou ainda tempo para juntar ao diálogo dois temas fundamentais: a inovação e a literacia. Neste campo, a defesa de António Coutinho foi clara, o desafio que as empresas e os vários organismos têm “é de fazer mais com menos pessoas. A energia vai ter um papel importante nesse aumento de produtividade. Associamos muito inovação à tecnologia. E obviamente que a tecnologia é uma parte importante da inovação. Mas eu costumo dizer que inovação difere de invenção. Inovação pressupõe sempre um tema de escala. E o desafio que nós temos não é tanto um desafio tecnológico. O grande desafio é fazer a adoção em escala das tecnologias que já existem”.

Já no campo da literacia, ela é claramente fundamental e ainda há lacunas que urgem de ser preenchidas. A principal, talvez, será a da simplificação. Para os oradores, é fundamental que os discursos comecem a ser simplificados, no que ao tema da energia diz respeito, para que todos, enquanto sociedade, a consigamos compreender e desmistificar. “A literacia da energia tem de entrar no discurso público”, sublinhou Assunção Cristas.

Há coisas básicas que podem ser comunicadas de uma maneira mais simples. É irrealista pensar em dar grande informação sobre estes temas, porque são temas muito complexos. Grandes sofisticações nesta matéria não têm grande utilidade, mas, exemplos muito concretos, com números em cima da mesa e com soluções, podem ser mais transformadores” – Assunção Cristas, Professora da Nova School of Law e Partner da VdA.

Opiniões partilhadas, ideias discutidas e várias conclusões. Entre elas, a de que o caminho ainda é longo e que a história sobre o futuro ainda está longe de chegar ao seu final – que se espera feliz. No campo da energia, as mudanças ainda precisam de acontecer e a transformação, ainda que grande e trabalhosa, precisa de ser feita por cada um de nós.