Há erros que não se cometem, dos que deixam um treinador, das duas uma, irritado e aos berros, ou sem palavras, pasmado pelo que acabou de acontecer. Sobretudo se forem do tipo a que nem dedica palavras ou avisa contra, como lançamentos laterais que apontam a bola para o meio do relvado. Por norma, e isto ensina-se bem cedo, nas escolinhas, pede-se a quem lança a bola que o faça não para o centro, mas para alguém que esteja perto da linha. Porquê? Pois caso algo aconteça, como um pé, uma coxa e um peito que não dominem a bola, ou um adversário que se antecipe e a consiga roubar, é provável que a bola saia logo ali do campo. Ou pelo menos que haja alguém muito perto para lutar por ela.
Maxi Pereira ter-se-á esquecido disto. Com a pressa dos últimos minutos, a urgência de ir atrás da vitória, o uruguaio tentou lançar a bola para Jonas, que estava uns metros longe, no meio, e alguém do Rio Ave intercetou a bola. Jogada rápida, uns três passes e golo, 2-1 para os de Vila Conde. O Benfica perdeu, sim, mas a culpa não veio apenas do lateral. Os encarnados marcaram cedo (logo aos 5’) e depois relaxaram, abrandaram os ritmos, a velocidade dos passes, a rotação na pressão aos adversários, e quiseram acalmar um jogo que os vila-condenses conseguiram acelerar como queriam.
Há erros que não se cometem, sim. E na Choupana, os dragões também fizeram algo parecido. A equipa que Julen Lopetegui moldou para ser uma ditadora da bola e domar um jogo com ela teve calma em demasia quando, na segunda parte, a ganhar 1-0, quis colocar gelo na partida. Correu mal: porque o FC Porto, com os minutos a passarem, deixou de ser agressivo a reagir às vezes em que perdia a bola para o Nacional e não soube parar, fosse pela pressão ou por faltas das cirúrgicas, os contra ataque rápidos que os madeirenses dispararam. E foram muitos.
Por isso empatou, perdeu dois pontos e só ganhou um ao líder que, minutos antes de a bola começar a rolar na Madeira, tinha perdido em Vila do Conde. Calma em demasia e falta de mão no ritmo do jogo foram erros que os dois da frente cometem para, de novo, voltarem ambos a largar pontos na mesma jornada — já acontecera à 18.ª, em dezembro, quando os dragões foram derrotados no Funchal (1-0, Marítimo) e os encarnados também perderam em Paços de Ferreira (2-0).
Ambos já provaram, uma e outra vez, que têm jogadores, métodos e jogadas prontas para desmontarem qualquer equipa. O Benfica, quando engata, é capaz de multiplicar jogadas de ataque com poucos toques na bola e muitos jogadores a trocarem de posições que moem defesas contrárias. O FC Porto, quando tem a bola, roda-a de um lado ao outro e com velocidade, e paciência, suficientes para ficar à espreita de uma aberta que, por norma, não demora a abrir na equipa que defende. Mas também tem que saber aguentar vantagens quando as tem. Ou em, pelo menos, manter algum do ritmo que mostram até se colocarem a ganhar e no bom caminho. Como estava o Vitória Sport Clube, o de Guimarães, a morder o rasto dos líderes até janeiro. Até começar a cambalear: nos 12 jogos que já fez em 2015, a equipa só ganhou dois.
E o que desiludiu, mesmo, foi ver Lito Vidigal, treinador que na época passada salvara o Belenenses da descida na última divisão e que, esta temporada, o colocara a bater o pé pela Europa, sair do Restelo por ele e o Rui Pedro Soares, presidente da SAD azul, torcerem o nariz um ao outro. O clube perdeu um técnico dos bons e competentes.
Os vimaraneses perderam o terceiro jogo seguido e a culpa foi do Sporting, equipa à qual a jornada mais sorriu. Os leões foram um íman de pontos e ganharam-nos a toda a gente que estava à sua volta — aos dois da frente, ao quarto lugar do Braga, que empatou (0-0 frente à Académica), e, claro, ao quinto do Guimarães. Agora estão a nove pontos do Benfica e a seis do FC Porto. As trocas de bola aceleradas e jogadas de 2-para-1 que montaram nas laterais, sobretudo a direita, na primeira parte, deram perigo e três golos marcados até ao intervalo.
Palmas para Miguel Lopes, que tem andado na sombra de Cédric, mas deu calma e pensamento às jogadas que, no final, até fizeram Marco Silva dizer que ali “há condições para ser um grande lateral”. Está com 28 anos. Um bravo também é devido Diego Lopes, o pequenote brasileiro que, em Vila do Conde, só entrou na segunda parte e, com a bola no pé, trocou as voltas ao Benfica e, com passes certeiros e acelerações com a bola quando era preciso, endireitou o caminho do Rio Ave.
Longe dali, Saleh Gomaa fez algo parecido, mas desde início. O egípcio que Manuel Machado tem a controlar o meio campo do Nacional acerta muitos mais passes do que os que falha e, mesmo, por vezes, arriscando em demasia, é o seu pé direito que dita por onde, e com que velocidade, a equipa vai atacar. Algo que a canhota de Iuri Medeiros também fez este fim de semana.
O extremo que o Sporting emprestou ao Arouca para se habituar à primeira liga provou que não tem estranhado o ritmo: bateu um livre para marcar o primeiro golo ao Gil Vicente e, depois, inventou os passes para o segundo e o terceiro. “O meu objetivo era chegar à equipa principal do Sporting já esta época. Infelizmente, isso não foi possível e perante a possibilidade de ser emprestado ao Arouca, entendi agarrar a oportunidade”, disse. E parece que o está a conseguir.
“Às vezes vejo programas em que muitos miúdos tentam ser cantores, arriscam e conseguem. Nós vamos arriscar. Se não conseguirmos, não acaba o mundo, mas temos uma oportunidade de lutar por isso e vamos fazê-lo.” Mais do que arriscar, como disse Rui Vitória, os vimaraneses quererão encontrar o ritmo e o acerto que perderam algures pelo caminho desta liga e que, agora, os fez perder (4-1) em Alvalade.
Na primeira volta, em Guimarães, a equipa ganhara 3-0 ao Sporting, e agora o treinador, com razão, também lembrou que, aí, não era “uma super-equipa, nem agora [é] uma que não presta para nada”. Mas com apenas duas vitórias registadas em 2015 — e desde que Hernâni saiu para o FC Porto, algo que não pode servir de desculpa –, o Vitória tem de atinar.
Sporting de Braga 0-0 Académica
Estoril Praia 3-3 Penafiel
Rio Ave 2-1 Benfica
Nacional da Madeira 1-1 FC Porto
Boavista 1-0 Belenenses
Moreirense 1-1 Marítimo
Arouca 3-1 Gil Vicente
Sporting 4-1 Vitória de Guimarães
* o Vitória de Setúbal-Paços de Ferreira joga-se a partir das 20h desta segunda-feira.
O novo ano está mesmo a correr bem à Académica, que já vai com mais sete pontos do que a primeira equipa em lugares de despromoção (o Gil Vicente) e não perde há nove jogos, desde que foi a Alvalade a 25 de janeiro. Parabéns a José Viterbo, que já era o treinador nos últimos oito. E outros a Petit, que somou outra vitória em casa, no sintético do Bessa, desta vez com uma equipa à frente de uma equipa que andava na luta pela Europa. Os bracarenses de Sérgio Conceição é que não vencem há quatro jornadas e perderam velocidade na perseguição ao terceiro lugar do Sporting.