Rezam os evangelhos canónicos que na noite anterior à sua crucificação Jesus Cristo terá reunido os seus doze apóstolos para uma derradeira refeição em conjunto, no evento que ficou comummente conhecido como Última Ceia. Não se sabe, ao certo, o que comeram, mas o menu não terá fugido muito ao que era habitual na época: pão ázimo e ervas amargas, com cálices de vinho a acompanhar. Uma coisa singela mas honrada, portanto.

A refeição ficou para a história. Não necessariamente pelo que se comeu, como qualquer leitor do Novo Testamento saberá, mas ficou. Não é de estranhar, por isso, que volta e meia se tente recriar a ocorrência de forma mais ou menos criativa.

Desta vez, o desafio de reproduzir a Última Ceia ou, pelo menos, uma refeição inspirada por esta, partiu do canal História (pelo terceiro ano consecutivo), e dirigiu-se a três chefs: Kiko Martins, Miguel Castro e Silva e Pedro Almeida. Com eles, esteve o gastrónomo Duarte Calvão, que provou e comentou as ementas escolhidas.

O processo de criação, execução e prova das refeições vai ser transmitido no dia 27 de março, às 21h55, no programa “A Última Ceia”. Mas, felizmente, a celebração da data não se fica por aí. Entre 27 de março e 6 de abril os respetivos menus estarão disponíveis nos restaurantes de cada um dos chefs. Eis o que vai poder lá provar.

O Talho

A recriação mais próxima da realidade será a do chef Kiko Martins, que usou os mesmos ingredientes da Última Ceia real, introduzindo-lhe um cordeiro recheado e batatas, em representação da cozinha tradicional portuguesa, devido à sua frequente utilização em diversos pratos típicos. O menu vai custar 54€ para duas pessoas.

Palavra ao chef: “A refeição foi criada de forma a ser possível comer-se com as mãos. Era importante que a refeição fosse comida sempre sentada e fosse colocada toda de uma só vez sobre a mesa, sem haver a necessidade de as pessoas se levantarem para irem buscar o segundo prato ou repetirem.”

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De Castro Flores

Miguel Castro e Silva criou um menu de quatro pratos inspirados no evento, com uma patanisca de nada com enguia fumada, alfaces, molho de mostarda e mel a abrir as hostilidades. A falta de recheio da patanisca simboliza o pão da Última Ceia e alude à tradição portuguesa (havia quem comesse pataniscas de bacalhau sem bacalhau, por exemplo). Segundo prato: truta com laranja e funcho. Depois, lugar à codorniz recheada com passas e pinhão e, para terminar, sericaia com chutney de figo, passas, gengibre e sorvete de uva.

A escolha dos ingredientes não vem ao acaso: a enguia e a laranja, por exemplo, aparecem em “A Última Ceia” de Da Vinci. O chef também escolheu os vinhos que acompanham cada prato, devido ao papel relevante da bebida no evento original. O menu custa 30€/pessoa e a seleção de vinhos 9€.

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Midori

Seria possível um restaurante de cozinha japonesa recriar com propriedade a Última Ceia? Pedro Almeida, chef do Midori, respondeu afirmativamente ao desafio, adicionando ao pão e às ervas alguns ingredientes muito utilizados na cozinha nipónica, como o umeboshiyuzu (frutos), a raiz de lótus ou unagi (enguia). E explica: “Recriei esta refeição imaginando que Jesus Cristo fosse Japonês. Foi criada para ser servida de um modo requintado e elegante, utilizando algumas flores e raízes de forma a dar cor e graciosidade ao prato.” O menu de três pratos custa 55€/pessoa, com 18€ de suplemento para os vinhos.

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