As negociações entre as seis potências mundiais e o Irão sobre o seu programa nuclear vão continuar esta quarta-feira, estendendo por um dia o prazo limite marcado para terça-feira, com os responsáveis a citar progressos suficientes que merecem ser explorados por mais um dia. Nos EUA, a contestação volta a aumentar com acusações de incapacidade à administração Obama e ao Irão de empatar as conversações.

“Fizemos progressos suficientes nos últimos dias que fazem com que [o processo] mereça que fiquemos quarta-feira”, disse esta terça-feira uma porta-voz do Departamento de Estado dos EUA. O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Javad Zarif, que lidera as negociações por Teerão em Lausana, na Suíça, também se admitiu algo esperançoso. “Espero que consigamos finalizar o trabalho na quarta-feira e começar o trabalho de elaboração” do documento final, referiu.

No entanto, as dificuldades são ainda grandes, como o Departamento de Estado dos EUA admite, pois “ainda permanecem várias questões difíceis”. Isto apesar de o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia ter dito que, depois de se estenderem pela madrugada, as duas partes tinham já um acordo de princípio.

Mas ainda há dois grandes pontos que separam dos dois blocos de um acordo, mesmo que de princípio, para que se possa começar a trabalhar nas questões técnicas, que se antecipa que nunca devam terminar antes de junho (e ter em si também um elevado grau de dificuldade para se conseguir chegar a um entendimento).

O Irão quer o fim imediato das sanções económicas de que é alvo decididas no Conselho de Segurança das Nações Unidas, assim que sair um acordo destas negociações, e mesmo antes de o acordo técnico ser fechado. As seis potências (Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, Rússia e China) não aceitam este ponto. Para o grupo de países este é o único incentivo ao Irão para ir cumprindo o programa e como tal defendem que as sanções sejam retiradas gradualmente, à medida que as condições forem sendo cumpridas.

Outro dos grandes pontos de discórdia nesta altura é o tipo de investigação e desenvolvimento em torno do nuclear que o Irão pode fazer no final do programa. Um dos pontos principais do acordo é que o Irão se abstenha de desenvolver um programa militar de caracter nuclear. Como tal, o desenvolvimento e a investigação em torno da energia nuclear deve estar interdita num período mínimo de 10 anos (potências pediam 15, Irão diz que aceitaria discutir 10).

Com tudo isto, mesmo que só por um dia, o prazo limite para o acordo acabou por ser estendido pela terceira vez, o que provocou mais discórdia interna em torno de uma questão tipicamente muito politizada nos Estados Unidos. Os congressistas norte-americanos já ameaçam novas sanções contra o Irão, caso não se consiga um acordo de princípio.

A maior dureza do Congresso não parte apenas da maioria republicana – os mais ativos, que fizeram mesmo chegar uma carta com 47 assinaturas aos líderes iranianos avisando que o Congresso pode anular qualquer acordo –, mas existe também no partido de Barack Obama, com os legisladores a duvidarem da capacidade deste acordo em evitar que o Irão venha a desenvolver armas nucleares.

“A decisão de estender as negociações sobre o programa nuclear em face da intransigência e duplicidade iraniana prova mais uma vez que é o Irão quem manda nas negociações”, disse o senador Tom Cotton, o republicano que representa o Arkansas e que no mês passado liderou o esforço para enviar o ‘tiro de aviso’ aos líderes iranianos.