Há duas novas vacinas candidatas à prevenção da infeção pelo vírus ébola.

O estudo, publicado na Nature, revela que se está numa fase de ensaios pré-clínicos, mas uma das vacinas mostrou-se eficaz mesmo ao fim de seis meses.

O vírus ébola, estirpe Zaire, que tem afetado a África ocidental desde o final de 2013 já provocou mais de dez mil mortes. Para Jorge Atouguia, especialista em doenças infecciosas e medicina tropical, este é o cenário ideal para fazer investigação sobre um vírus e até para desenvolver uma vacina ou um tratamento. Mas lembra que as vacinas, caso cheguem a ser produzidas, não chegarão para resolver o problema deste surto.

Uma das vacinas que já estava em ensaio clínico, ou seja, que já estava a ser testada em humanos, teve de interromper os testes devido a efeitos secundários indesejáveis. Servindo esta fase para testar a segurança da vacina, não era possível continuar os ensaios. O novo estudo volta aos ensaios pré-clínicos (testes com animais) depois de fazer várias modificações no vírus para o atenuar.

Neste estudo, conduzido por Chad Mire, investigador no ramo médico da Universidade do Texas (Estados Unidos), e Demetrius Matassov, investigador no Departamento de Virologia e Vetores de Vacinas, da empresa Profectus BioSciences, a vacina mostrou-se segura e eficaz e não exigiu uma segunda dose para manter a imunidade. Mas os ensaios foram feitos com primatas não humanos e não se pode saber o que acontecer num ensaio clínico com humanos, embora o sucesso desta experiência tenha aberto as portas à nova fase seguinte. Dos dez animais expostos ao ébola, apenas dois não vacinados ficaram doentes.

A vacina estudada mostrou-se eficaz na prevenção da doença e tem potencial para ser usada como vacina pós-exposição – logo após a infeção, durante o período de incubação. “É um grande avanço, porque a maior parte das vacinas que temos não é curativa”, refere ao Observador Jorge Atouguia. “Criar uma vacina curativa é muito difícil, porque o vírus é muito mutável.” Mas o antigo investigador no Instituto de Higiene e Medicina Tropical, da Universidade Nova de Lisboa, interroga-se sobre o verdadeiro potencial da vacina: preventivo ou pós-exposição?

Para vacinar as populações como forma de prevenção era preciso definir quais as populações em risco. Uma tarefa difícil, segundo Jorge Atouguia. E depois é preciso avaliar se os benefícios que a população pode ter compensam os custos da vacina. “É pouco provável que a saúde pública decida imunizar toda a população.” Os surtos ocorrem sobretudo longe dos grandes centros urbanos e “provavelmente não vai acontecer um surto deste tipo nos próximos tempos”, diz o especialista.

Jorge Atouguia, médico especialista em medicina tropical, defende até que faz mais sentido vacinar de forma preventiva apenas alguns grupos específicos em África ou que vão para África ajudar a combater os surtos. Ou, caso os custos o permitam, vacinar as pessoas logo após a infeção com o vírus.

O médico lembra ainda que, apesar do potencial, a vacina apresenta algumas limitações, nomeadamente qual a eficácia contra as outras estirpes do vírus ébola, diferentes da estirpe Zaire testada. Acrescenta ainda que uma mutação num gene da estirpe Zaire pode ser o suficiente para a vacina deixar de ter efeito sobre o vírus.