Uma semana depois de conhecido o programa económico desenhado pelos economistas do PS, a esquerda não está convencida. O PCP disse logo que era uma continuação da “política de direita” do atual Governo, o Bloco de Esquerda demarcou-se pelo “irrealismo” e por “facilitar os despedimentos”. Nem o movimento Agir, de Joana Amaral Dias, quer ouvir falar em compatibilidades. “É mais do mesmo”, diz ao Observador. Sobra uma força política para piscar o olho ao PS: a candidatura Livre/Tempo de Avançar, que vê uma “lógica positiva” na visão socialista e que mantém a “esperança” de que, de facto, o cenário dos economistas não seja a Bíblia do PS.

Para o Livre, que tem aparecido nas últimas sondagens com cerca de 2% das intenções de voto e que sempre admitiu a possibilidade de fazer entendimentos de governação, há no programa económico do PS “medidas que devem ser olhadas com interesse”, mas também algumas linhas vermelhas que não poderiam ser pisadas num eventual cenário de entendimento. Nada que faça o Livre, no entanto, perder a esperança de que o programa apresentado pelos socialistas em junho venha a ser mais “clarificador” do que o dos economistas, especialmente no que à dívida diz respeito, afirmou ao Observador o economista e coordenador da candidatura cidadã, José Maria Castro Caldas.

As medidas “interessantes”

A reposição dos cortes salariais na função pública em dois anos, num calendário mais acelerado do que o apresentado pelo Governo, é para Castro Caldas uma “medida que deve ser olhada com interesse”. Assim como a lógica de aumentar o rendimento disponível das famílias e dos trabalhadores, bem como o regresso do imposto sucessório sobre as heranças milionárias.

Para o comentador e também coordenador do movimento Daniel Oliveira, a lógica “até é a correta”: “Animar o mercado interno para sair da crise, aumentando o rendimento dos trabalhadores mais pobres, que consomem tudo o que ganham em bens essenciais”, escreveu no seu habitual espaço de comentário no semanário Expresso.

As dificuldades “claras” de entendimento

Taxa Social Única. A redução da TSU aparece no programa dos economistas como “temporária” para os trabalhadores, o que faz com que, segundo Castro Caldas, “venham a ser os próprios trabalhadores a pagar mais tarde essa redução, refletindo-se numa descida nas pensões”. Por outro lado, a redução de quatro pontos percentuais da TSU para os empregadores aparece como “definitiva”. “A parte da redução para as empresas não está explicada”, diz Castro Caldas, acrescentando que “no documento não é claro qual é o impacto que essa redução vai ter para as empresas, já que o que as empresas pagam em TSU é insignificante se comparado com o que pagam em rendas, energia e telecomunicações”.

Legislação laboral, nomeadamente no que diz respeito aos despedimentos pela via conciliatória. Para Castro Caldas, este é uma das linhas vermelhas que “tornariam difíceis” entendimentos com o Livre. Mas o economista realça que a solução laboral dos economistas parece estar “em contradição” com o que o PS tem vindo a dizer sobre a liberalização dos despedimentos.

Dívida pública. O programa económico não se refere às formas de contornar o problema da dívida pública e isso, para o Livre, é um entrave. “A questão da dívida tem de ser encarada de frente e de forma aberta”, mas o Livre mantém a confiança de que o PS vá deixar de “ignorar o elefante no meio da sala” e vá esclarecer o que pensa fazer em relação à dívida pública.

Salário Mínimo. Castro Caldas lembra que documento dos economistas “não faz uma única vez referência ao aumento do salário mínimo nacional”, o que é outra “contradição” face ao que o PS e António Costa têm vindo a defender.

Mudanças no quadro europeu. Para o Livre, a flexibilização do quadro europeu devia ser o ponto de partida para o PS desenhar qualquer cenário para o país. Caso contrário, “não é possível recuperar os rendimentos, acabar com a austeridade, agradar a trabalhadores e patrões e manter obedecer ainda assim às metas da UE”.

“Fabricando uma ficção, contorna a renegociação da dívida e tem o fim da austeridade sem ninguém se zangar. Oferece Keynes aos trabalhadores, Hayek aos patrões e obediência à Europa. Como exercício eleitoral, a arte da fuga é de génio. Como exercício económico e de transparência, é mau sinal”, escreve Daniel Oliveira.

Ainda assim, a candidatura Tempo de Avançar, que reúne o Livre com movimentos de esquerda como a Renovação Comunista e a Fórum Manifesto, dos ex-bloquistas Ana Drago e Daniel Oliveira, não descarta entendimentos depois de analisada a primeira base do plano do PS para as legislativas. E, perante os aspetos “irrealistas”, deposita as esperanças no dia 6 de junho, altura em que o PS vai apresentar o programa final. “Esperamos que haja uma substancial alteração entre o que os economistas apresentam e o que o PS vai propor”, afirma Castro Caldas, acrescentando que ainda há “alguns grandes pontos de interrogação”.

O mesmo sentimento de esperança não percorre o resto do espetro político à esquerda. Para a ex-bloquista Joana Amaral Dias, que integra o movimento Agir e que se vai apresentar às legislativas com o Partido Trabalhista Português, o programa económico do PS “não tem nada de positivo” e “é um programa vergado ao poderio financeiro”. “Mais do mesmo”, afirmou ao Observador, acrescentando que tanto o Governo como o PS se limitam a propor “pequenos ajustes”, quando o que o país precisa é de “soluções grandes soluções para grandes problemas”.