Já em Varsóvia sentiu “dores no estômago” causadas “pelos problemas” que está a ver na FIFA. Aí não podia falar nem dizer nada, porque o dever obrigava-o a estar presente na final da Liga Europa. Assim que o jogo passou à história, Michel Platini enfiou-se num avião e voou até Zurique para, na manhã desta quinta-feira, estar presente numa reunião com Joseph Blatter e os líderes da outras cinco confederações que integram a entidade que rege o futebol internacional. Foi lá que o encarou e lhe pediu para fazer uma coisa: “Sepp, começámos juntos, vencemos juntos, mas agora tenho de te pedir para ires embora, para te demitires, porque a tua presença não é boa para a imagem da FIFA.

Michel Platini fez o pedido “com lágrimas nos olhos”, porque não é fácil “dizer coisas difíceis a um amigo”. Mas não serviu de nada porque Blatter respondeu-lhe que era “tarde demais” — e justificou-o com o facto de o congresso da FIFA, no qual a organização vai eleger, na sexta-feira um novo presidente, estar aí à porta. O presidente da UEFA insistiu e apelou ao suíço que tivesse coragem para abdicar do cargo, mas nada feito. “Isto já é demais, estou desiludido. Ele ficou afetado com o que eu lhe disse”, contou Platini, na conferência de imprensa que a UEFA montou, em Zurique, para dar conta do que se tinha passado.

Explicador: o que sabemos até agora sobre o escândalo de corrupção na FIFA.

E o que se passou pode resumir-se numa linha — Platini e os outros cinco presidentes pediram a Blatter para se demitir, o suíço disse que não, e por isso a UEFA apelou que, na sexta-feira, todos votem em Ali Bin Al Hussein, o Princípe de Jordânia que será o único a concorrer contra Joseph nas eleições presidenciais da FIFA. Porque, para a UEFA, boicotar as eleições está fora de questão. “A última coisa que pedi às confederações e às associações europeias foi para nos mantermos unidos e apoiarmos o Príncipe Ali Bin Al Hussein, porque essa é a única maneira de vencermos o Sr. Blatter”, defendeu Platini, ciente de que, para tal acontecer, terá de haver mais votos a caírem do lado do príncipe.

Da parte da UEFA, o presidente revelou que “a grande maioria” das federações votará a favor do príncipe jordano. Platini espera que pelo menos 45 associações — entre as 54 que integram a entidade — apoiem o único candidato que sobrou para competir com Joseph Blatter, após Luís Figo e o holandês Michael Van Praag se retirarem da corrida. Platini até disse que nada teve a ver com estas decisões: “Nunca coloquei Luís e o Sr. Van Praag na corrida. Também nunca lhes pedi que se retirassem. Fizeram o que queria e ambos já emitiram declarações. São livres de decidirem o que quiserem.”

Sinto que ele tem um problema que não é bom para a FIFA. É o meu dever dizer-lhe isso. Muitas vezes, quando ainda estava em França, tive de dizer a muitas pessoas que era altura de pararem. E espero que os meus amigos me digam um dia: ‘Michel, tens de parar’. Nesse dia espero seguir o conselho. A FIFA não pode continuar assim. A FIFA manda no futebol, é o organismo onde tudo se decide. Como querem que os adeptos e os jogadores de todo o mundo respeitem a FIFA, quando quem a dirige não é respeitável?

O congresso da FIFA arranca esta quinta-feira, as eleições realizam-se no dia seguinte e Platini sabe o que Blatter tenciona fazer. “A sua estratégia é discursar, convencer o máximo de pessoas a votarem nele e, se ganhar, acabar a falar em democracia e dizer que, por isso mesmo, tem de ficar”, explicou, já depois de lamentar que “já são muitos escândalos a abanarem a FIFA” e defender que a entidade “não merece ser tratada assim”.

Mas e se as eleições forem mesmo como Luís Figo as tem descrito — um “plebiscito de entrega de poder” — e suíço, de 79 anos, as voltar a ganhar? Aí a UEFA poderá tomar medidas, embora Platini não tenha desvendado quais é que poderão ser. “Se o Sepp ganhar nas votações, podemos tomar decisões. Vamos reunir em Berlim depois da final da Liga dos Campeões”, disse o francês, indicando até que existem nações que pretendem boicotar o próximo Mundial (em 2018, na Rússia), caso Blatter seja reeleito. Algo que o presidente da UEFA não deseja que aconteça.