O centro histórico de Sana, considerado Património Mundial da Humanidade pela UNESCO, foi bombardeado na manhã de sexta-feira. Inicialmente o ataque foi atribuído à coligação militar liderada pela Arábia Saudita (que inclui outros oito países, EUA incluídos), mas o porta-voz recusou. “De certeza que não fizemos nenhuma operação dentro da cidade”, disse à Agence France Presse.

Do outro lado do conflito estão os hutis, os rebeldes xiitas que tomaram esta e outras cidades do Iémen depois de terem derrubado o Presidente Mansur Haidi.

Apesar de o conflito entre estas duas partes já se arrastar desde março, altura em que a Arábia Saudita começou a liderar os ataques aéreos contra os rebeldes, o centro histórico de Sana ainda não tinha sido atingido. Aconteceu esta sexta-feira com um ataque aéreo. Por sorte, o projétil que atingiu o centro histórico da capital do Iémen, mais propriamente o bairro de Al-Qasimi, não chegou a explodir – a destruição teria sido obviamente muito maior no caso contrário.

Pouco depois de as primeiras notícias deste bombardeamento terem sido divulgadas, a diretora-geral da UNESCO, Irina Bokova, reagiu da seguinte maneira:

“Estou profundamente perturbada pela perda de vidas humanas e também pelos danos causadas a uma das joias mais antigas da paisagem urbana islâmica. Estou chocada pelas imagens destas magníficas torres de vários andares e dos jardins serenos reduzidos a escombros. Esta destruição só vai exacerbar a crise humanitária e eu reitero o meu apelo a todas as partes neste conflito para respeitar e protegerem a herança cultural do Iémen. Esta herança detém a alma do povo iemenita, é um símbolo de uma história milenar de sabedoria e pertence a toda a humanidade”.

Segundo a UNESCO, o centro histórico de Sana começou a ser habitado há 2.500 anos. “Nos séculos VII e VIII a cidade tornou-se um importante centro de propagação do Islão. Esta herança religiosa e política pode ser vista nas 103 mesquitas, 14 saunas e mais de 6 mil casas, todos construídos antes do século XI”, pode ler-se no site da UNESCO, o organismo das Nações Unidas que atribuiu ao centro histórico de Sana o estatuto de Património Mundial da Humanidade em 1986.

Em comunicado, a UNESCO refere que “várias casas que fazem parte do património de Sana sofreram danos e ruíram após terem sido bombardeadas ou por causa de explosões”, citando o caso de Al-Owrdhi, próximo do centro histórico.

Já morreram 2.200 pessoas desde março

O Iémen, que já antes deste conflito era o país mais pobre de todo o Médio Oriente, está a braços com uma crise humanitária sem precedentes naquele país. Desde que o conflito entre os hutis e a coligação militar liderada pelos sauditas começou, em março, já morreram 2.500 pessoas e outras 11.000 ficaram feridas, segundo números da Organização Mundial de Saúde. E a UNICEF já disse que 80% da população, isto é, mais de 20 milhões de pessoas, necessitam de ajuda.

No domingo, ambas as partes em conflito vão sentar-se à mesma mesa em Genebra, na Suíça, para negociarem condições de paz. A resolução deste conflito a breve trecho é, porém, pouco provável. “As duas partes ainda estão barricadas atrás das duas posições e continuam a apostar na guerra em vez de num compromisso político”, disse à agência Reuters Abdel-Bari Taher, um analista iemenita.

Hutis querem devolver o poder a Presidente que governou 33 anos

Este conflito começou a entrar na sua fase mais aguda quando os hutis começaram a tomar o controlo de Sana no dia 21 de setembro de 2014. Nessa altura, o primeiro-ministro, Mohammed Basindawa, demitiu-se. Meses depois, em 22 de janeiro de 2015, os hutis conseguiram que o Parlamento fosse dissolvido e o Presidente Mansur Haidi demitiu-se.

Haidi fugiu para Aden, cidade principal do Sul, e depois para a Árabia Saudita. Neste momento, a cidade é defendida por milícias fiéis ao governo de Haidi, que resistem com armas de fogo e artilharia às investidas dos hutis. Entretanto, desde 26 de março que a Arábia Saudita lidera uma coligação militar com outros oito países (os EUA são um deles) que faz bombardeamentos aéreos contra os rebeldes xiitas.

Os hutis, que rejeitam as acusações internacionais de estarem a ser apoiados militar e financeiramente pelo Irão, pretendem que o antigo Presidente do Iémen Ali Abdula Salé volte ao poder. Salé começou por liderar o Iémen do Norte em 1978 e em 1990 passou a governar o país após uma unificação com o Sul. Esteve no poder até 2011, altura em que, em plena Primavera Árabe, abandonou o cargo e cedeu-o a Mansur Haidi. Agora, quer voltar a ser o homem mais poderoso do Iémen.