Estava difícil, ou pelo menos, demorado. A bola foi aos lados, à frente, voltou, foi outra vez, mas só aos 82’, quando um canhoto de seu nome Iuri disse olá à bola e se despediu dela com um passe rumo à entrada da área, é que algo aconteceu. Essa bola foi parar a Gonçalo Paciência, filho de avançado que também sabe marcar, e provou-o: dominou, inclinou o corpo para a esquerda, ajeitou a bola para a direita e pumba. Remate e 1-0 para Portugal. Lá iam os sub-21 parar às meias-finais do Europeu e, como bónus, aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Mas nem precisavam de ganhar.

Um empate bastava. Todos o sabiam desde o início e, mesmo que ganhar seja bem melhor, claro está, nenhum português terá torcido o nariz quando viu Simon Tibbling a fintar, a dar um pontapé na bola e — com um ressalto pelo meio –, a marcar. A Suécia fazia o 1-1 soltava a festa como quem rebenta um balão. Porque só o empate os colocava, também, na fase seguinte do Europeu e despia de importância o 3-1 com que a Itália vencia a Inglaterra, no outro jogo do grupo. Resumindo: suecos e portugueses sorriam juntos e tramavam os italianos.

Mas calma, o jogo não acabava ali. Assim que a bola parou no meio do campo para voltar a rolar, o quarto árbitro, o que está fora do campo, levanta a placa eletrónica e mostra um “3”. Vinham aí mais três minutos de jogo. O futebol é matreiro, é sonso ao ponto de nele não se poder confiar, e já o provou éne vezes que há sempre tempo para o resultado voltar a mexer — lembra-se da final da Liga dos Campeões de 1999? Não há melhor prova do que esta. Em três minutos, portanto, muita coisa podia acontecer. Só que Portugal e Suécia não quiseram, sequer, dar uma chance à fortuna.

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Assim que o árbitro apitou para retomar o jogo, a bola só falou português. A seleção foi tocando-a entre os jogadores e, em três minutos, fez 74 passes — ou mais ainda, porque houve uns segundos em que o direto, na televisão, se focou no árbitro e não nos deixou contar mais. Ou seja, 14% dos 525 passes que a seleção somou na partida acontecerem nesses três minutos, e apenas três fizeram a bola passar da linha do meio campo. E a Suécia? Estava feliz da vida com o empate, não pressionava, não corria e nem tentava roubar a bola a Portugal. O empate servia às duas equipas. Às tantas, ainda com uns segundos à espera de serem contados pelo relógio, até João Mário e William Carvalho, abriram os braços, a perguntarem para o ar quando é que o árbitro iria soprar no apito.

Os italianos viram e não gostaram. A única maneira de os azzurrini saírem com vida da fase de grupos deste Euro Sub-21 era se alguém vencesse o jogo. Com o empate, nada feito, Stefano Sturaro, médio da seleção italiana, gostou ainda menos de ver portugueses e suecos com sorrisos na cara, a festejarem. “Cães celebram nos cadáveres de leões, pensando que ganharam, mas os leões permanece leões e os cães ficam cães”, escreveu, no Twitter, mesma rede social na qual circulava vídeos dos passes que Portugal trocou, acompanhado da palavras “biscotto” — termo que os italianos tiram da gaveta quando suspeitam que um resultado foi combinado.

Nem os jornais perdoaram.“Aqui, um empate assim chama-se arranjinho”, escreveu, por exemplo, o La Stampa, fulo, como outros jornais transalpinos, com o resultado que lhes fez lembrar o Euro 2004. Porquê? Aí, também na última jornada da fase de grupos, um empate da Suécia com a Dinamarca tornou insignificante a vitória da Itália frente à Bulgária. Na quarta-feira, nos sub-21, contudo, tudo foi normal até aos 90’, até o jogo voltar a ter um empate que tivera até aos 82’. Quanto à compensação, Sérgio Oliveira, o capitão português, não se preocupou muito com o que se passou: “Estávamos em primeiro [do grupo], eles é que tinham de lutar e não quiseram. Não é uma situação normal, mas não há motivos para falar nisso.”

Talvez, mas a verdade é que aconteceu. E como o futebol não é o andebol — onde há uma regra chamada jogo passivo que obriga quem o joga a atacar a baliza dos outros ao fim de um certo tempo –, isto, em teoria, não teve nada de mal. Mas o que se viu na prática foram duas seleções a fazerem mais do que jogar pelo seguro e a assegurarem que, durante três minutos, ninguém mexia no empate que estava no marcador.