Já lhe tínhamos falado de três grandes amigos que queriam mudar o mundo dos hambúrgueres. Estão a consegui-lo. Aqui, além e, quiçá, em todo o lado. O segredo do negócio não é só a melhor carne do mundo, o melhor serviço, a melhor gestão, a maior faturação. O segredo é, acima de tudo e por tudo, a equipa.

A principal razão do sucesso “foi a complementaridade entre os três sócios” revela Albano Homem de Melo, um dos três pais da marca H3, perante uma audiência ávida de informação e curiosidade. Vêm os três de áreas distintas, – Albano era publicitário, António Araújo advogado e Miguel Van Uden trabalhava na área do imobiliário – e cada um trouxe o seu conhecimento, que faz do H3 um negócio também diferente. No caso dos “hambúrgueres azuis” a amizade impõe-se ao dinheiro e o sonho conjunto lidera o plano de negócios e de expansão. Olham juntos para o mesmo futuro e trabalham, em conjunto, para lá chegarem.

Acreditar numa boa ideia, achar que se vai mudar o mundo às vezes é o “trigger” necessário para uma mudança disruptiva no mundo dos negócios. Teve o “privilégio de há 15 anos de ter tido oportunidade de criar de raiz um grupo hospitalar”, quando naquele grupo não existia nada de saúde. “O Dr Ricardo Salgado pões-me o desafio e questionou-me se fazia sentido entrar neste negócio e como se poderia fazer?” conta Isabel Vaz, engenheira, gestora, pioneira, visionária, enfim a empreendedora por detrás do ramo saúde de então grupo Espírito Santo Saúde, agora Luz Saúde.

“Estudámos o setor, a oportunidade estava lá”, e “decidimos avançar. Aí, recorda a gestora, “foi a primeira grande decisão”. A segunda, e não menos importante que a primeira, foi “construir uma equipa que nunca esteve neste setor”, que pudesse olhar para a área “de forma livre”. Isabel Vaz achava que um hospital deve ser “gerido como uma fábrica”.

Aqui começava a grande disrupção no paradigma de oferecer saúde em Portugal. “Toda a gente diz que os cuidados de saúde devem ser todos à volta dos doentes e nós – engenheiros e gestores – começámos a olhar de forma crítica para a forma como os hospitais estão organizados por especialidades.” Isabel e a sua equipa achavam que, pelo contrário, os hospitais não deviam ser organizados por serviços, mas antes por “equipas multidisciplinares”. “Iam-nos matando”, recordou a rir.

Começou a viagem de Isabel Vaz e da sua equipa pelo mundo da saúde. “Éramos muito jovens, tínhamos uma grande ambição para fazer diferente e marcar a diferença e estávamos apaixonados pela ideia”. Mas além de revolucionarem a forma de gerir internamente uma unidade de saúde, a equipa de Isabel Vaz achou ainda que os “os hospitais tinham que ser lindíssimos” e não “brancos, nem feios” e podiam ser ainda grandes obras de engenharia, como o Hospital da Luz, que assenta “num colchão de molas que absorve as movimentações sísmicas e o ruído do metro”. É “um dos sítios mais seguros em caso de sismo”, brinca Isabel Vaz. Perante uma plateia de empreendedores ou curiosos, a gestora recorda o que foi o seu trajeto feito há 15 anos e partilha com a plateia: “Deu-me muito gozo”.

Gigantes no Portugal dos Pequeninos

Albano Homem de Melo e Isabel Vaz são nomes conhecidos na praça e os seus negócios casos de estudo a nível mundial. Em áreas tão distintas, conseguiram ser grandes. Mas se lhe dissermos que este Portugal está cheio de pequenos grandes gigantes, que lutam diariamente para romper barreiras e arriscar. Sem medo. E porque não ousar sonhar que é possível em Portugal ter empresas que, tal como a Google ou o Facebook, valem biliões?

Por exemplo, a Uniplaces é uma plataforma de alojamento dedicado ao mercado dos estudantes, nasceu numa incubadora de startups em 2012 e já dá trabalho a mais de 100 pessoas. Para que se tenha noção, este projeto já está em mais de 20 países e até já atraiu a atenção do ex-vice-presidente da Airbnb, Martin Reiter. E se lhe dissesse que um dos fundadores do projeto chama-se Miguel Santo Amaro e tem 26 anos. “Nunca tive empregador. Criei a empresa aos 23 anos”, desvenda o jovem empreendedor.

“Hoje em dia sou eu e mais 119 pessoas, no Bairro Alto, e a nossa missão: criar, a partir de Portugal, um desses colossos digitais”. Quando começou, confessa, “não percebia nada de computadores, mas percebia que aqui tínhamos grandes empresas tecnológicas”. Mas hoje o panorama mudou. Somos pequenos, diz, e “isso obriga-nos a pensar global”.

Miguel Santo Amaro e os seus sócios acreditam que é possível conquistar o mundo dos estudantes, “temos de querer ser os melhores do mundo”. Tudo é uma questão de mentalidade: ter uma equipa multidisciplinar, com diferentes know-how, motivada, investidores e, claro, uma boa dose de loucura. Para se ser empreendedor, diz Miguel Santo Amaro, “é preciso paixão e acreditar, porque as dores de cabeça vão ser muitas e não pensem que vão ficar ricos”.

Outro exemplo é a empresa Chic by Choice, um site de aluguer de vestidos de marca. A ideia nasceu na cabeça de duas jovens universitárias e hoje já têm mais de 230 mil clientes registados no site. Filipa Neto tem hoje 24 anos e confessa que, há quatro anos quando expôs a sua ideia de negócio, toda a gente “achava que éramos loucas”. Mas se aqui as chamaram de loucas, lá fora agradecem a sua existência: “95% da nossa faturação vem de fora, mas tudo o resto é cá em Portugal”.

Filipa Neto partilhou a evolução do seu negócio e chama a atenção para questões que considera essenciais na hora de se lançar num negócio: é preciso encontrar os parceiros certos, especialistas em várias áreas, e ter um negócio que consiga “aprender com os clientes” de forma rápida e “adaptar-nos”. E mais uma vez a equipa. Para vingar é preciso uma “uma equipa preparada para sofrer até chegar ao final”.

Também Alexandre Barbosa fundou várias empresas ligadas à tecnologia, como a Innovagency, mudou o MEO Arena e hoje está no outro lado da barricada: ajuda startups a darem o salto através da Faber Ventures, uma venture capital focada nas empresas tecnológicas. Outra disrupção na forma como se investe. “É preciso mais do que capital para fazer os projetos acontecer”.

Neste momento a Faber Ventures já apoia 18 projetos, “metade aqui e metade lá fora. A ambição é criar uma operação com escala global. Daqui a 20 anos queremos pensar que na Europa vai haver um operador top no mercado que apoia empresas nos primeiros anos de vida”. E esse operador será português.

Tanto a Uniplaces, como a Chic by Choice ou a Faber Ventures são exemplos mais que perfeitos do novo empreendedorismo em Portugal. São jovens, para quem a Europa é mais uma região do mundo, jovens que “dormem e sonham em inglês”, diz João Vasconcelos, diretor da Startup Lisboa, associação que já viu nascer mais de 200 empresas inovadoras.

E diz João Vasconcelos que no mundo dos negócios nem sempre as boas ideias vendem. “Há boas ideias que não fazem dinheiro e outras sem grande interesse que faturam. Tudo depende. Não há fórmulas.” Mas uma coisa é certa: a ideia pode falhar, o conceito de negócio pode mudar, mas o que não muda “é o espírito empreendedor”.