O ciclo de debates eleitorais arranca já esta terça-feira, 1 de setembro, com o frente a frente entre Jerónimo de Sousa e Catarina Martins. O debate entre o líder comunista e a bloquista é o primeiro de uma série de confrontos que podem ser determinantes para o desfecho das próximas legislativas, mesmo que os números das últimas eleições sugiram outra realidade: tanto em 2009 como em 2011, apenas um em cada oito portugueses com idade legal para votar ficou preso à televisão enquanto os líderes dos diferentes partidos esgrimiam argumentos.

Nas últimas duas eleições legislativas, os dez frente a frente realizados em cada uma das pré-campanhas tiveram uma audiência média de mais de 1 milhão de telespetadores. Mas curiosamente, em 2009, não foi o debate entre os líderes do PS e do PSD o mais visto: o duelo José Sócrates, então primeiro-ministro, e Manuela Ferreira Leite, na altura líder da oposição, foi apenas o terceiro mais visto, atrás dos confrontos entre Sócrates/Paulo Portas e Sócrates/Francisco Louçã – o ex-coordenador do BE foi sempre um garante de audiências durante o período em que orientou o partido. Em 2011, o país via com atenção o frente a frente entre José Sócrates e Pedro Passos Coelho naquele que se tornou o debate eleitoral mais visto de sempre – mais de milhão e meio de espectadores (1,585 milhões)  assistiram ao duelo entre social-democrata e socialista.

Hoje, e numa altura em que de acordo com as últimas sondagens, PS e a coligação PSD/CDS continuam tecnicamente empatados – apesar de os socialistas levarem uma ligeira vantagem -, os debates eleitorais podem ser um dos “desbloqueadores de decisão“, como explicou o Observador. Sobretudo o que vai colocar frente a frente Pedro Passos Coelho e António Costa, a 9 de setembro – entre os eleitores indecisos há mesmo quem garanta que prefere esperar pelo desempenho do primeiro-ministro e do candidato a primeiro-ministro antes de decidir em quem vai votar.

Uma ideia partilhada por Vasco Ribeiro, doutorado em Ciências da Comunicação. Os debates eleitorais, mas, e sobretudo, “os ecos que eles geram na imprensa” e que são ampliados “pelos líderes de opinião” podem convencer os eleitores indecisos a escolher em que quadrado vão depositar a cruz no dia da ida às urnas. Mas até esses efeitos são relativos, como fez questão de sublinhar o docente na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. No contexto europeu, ao contrário do que acontece, por exemplo, nos Estados Unidos, em que a campanha é “muito mais pessoalizada”, “os debates de televisão estão cada vez mais relativizados. Não param o país e são cada vez mais assistidos por uma elite”.

Ainda assim, e apesar de acreditar que os debates não são decisivos para os resultados eleitorais, qualquer deslize pode colocar em causa as aspirações dos candidatos. “Os debates são mais uma gestão de gafes” do que um duelo entre dois projetos políticos, considera o especialista. Se essa gestão falhar, aí sim, os eleitores indecisos podem decidir vestir a camisola de militante e escolher o partido em quem vão votar.

Não se pode dizer que tenha sido esse o caso de Jerónimo de Sousa quando, em 2005, no único debate realizado entre os líderes dos cinco partidos parlamentares, ficou afónico e teve de abandonar o estúdio. Não sendo uma gafe no verdadeiro sentido do termo, não deixou de ser uma situação ingrata para o líder comunista. Mais tarde, Jerónimo viria a reconhecer que fora a “tensão” do momento a roubar-lhe a voz. “Senti uma tensão enorme na medida em que não sendo um debate decisivo, era importante. Pesou a responsabilidade. Embora já sentisse algum ‘estrago’ que resultou de uma campanha intensa feita em pleno Inverno, não esperava o bloqueio total em estúdio”.

Os debates mais vistos de sempre: José Sócrates, Paulo Portas e Francisco Louçã, os recordistas de audiências

Olhando para as audiências dos últimos debates há dois detalhes que saltam à vista: em tempo de mudança de ciclo político, os debates entre o líder dos dois principais partidos acabam por ser aqueles que reúnem mais telespectadores à volta da televisão. Foi assim em 2011, no debate entre José Sócrates e Passos Coelho (1,585 milhões de pessoas), em 2005, no frente-a-frente entre Santana Lopes e Sócrates (1,518 milhões) e em 1995, no duelo entre Fernando Nogueira e António Guterres na RTP (1,492 milhões). O segundo debate entre os dois, transmitido pela SIC, é o quinto mais visto de sempre com 1,462 milhões de telespectadores.

A outra conclusão que se pode retirar é que um debate em que entre Francisco Louçã e Paulo Portas é quase um garante de sucesso de audiências. É isso que mostram os dados: na lista dos dez debates eleitorais mais assistidos de sempre estão os confrontos entre Paulo Portas e José Sócrates, em 2011 e 2009 (1,486 milhões e 1,439 milhões de telespectadores), o duelo entre Francisco Louçã e Sócrates (1,419 milhões), o frente-a-frente entre o mesmo José Sócrates e Manuela Ferreira Leite (1,337 milhões) e a troca de argumentos entre Durão Barroso e Ferro Rodrigues (1,230 milhões de telespectadores). A fechar o top 10, o debate entre Francisco Louçã, claro, e Manuela Ferreira Leite, que juntou 1,182 milhões de portugueses à volta da televisão.

Menção honrosa para o debate que colocou frente a frente Mário Soares e Álvaro Cunhal, em novembro de 1975. Numa altura em que ainda não existiam sistemas públicos de medição de audiência e que, por isso, se torna impossível perceber quantos portugueses assistiram de facto ao duelo de quase quatro horas entre o socialista e o comunista, o debate entre os dois continua a ser um dois mais recordados (e determinantes) na história da democracia portuguesa. “Olhe que não, olhe que não!”, lembra-se?