O vice-primeiro-ministro e líder do CDS garantiu esta noite que o Governo não está com pressa em vender o Novo Banco, ao contrário do que as negociações da última semana têm feito parecer. Em entrevista à TVI, Paulo Portas sublinhou que o método da negociação, acelerado ou não, foi definido pelo Banco de Portugal e que, por isso, “não devemos intervir, devemos aguardar”. Questionado sobre a “pressa” das negociações, Portas retorquiu: “Mas quem é que disse que havia pressa?”.

Para Portas, o importante sublinhar no caso do Novo Banco é que, se o sistema de resgate escolhido tivesse sido a nacionalização, como aconteceu com o BPN, “já estávamos todos a pagar, como ainda estamos a pagar o BPN”.”Sendo um sistema de resolução, são os accionistas que pagam e o diferencial que possa existir é pago pelo sistema financeiro”, defendeu, acrescentando que, se houver imputação ao défice, será ao défice de 2014 e será “meramente contabilístico”. Ou seja, “não tem influência na vida das pessoas em 2015 e não é relevante para as metas estabelecidas no programa de estabilidade”.

Ainda sobre o Novo Banco, especificamente sobre a questão de os lesados do BES serem ou não indemnizados, Portas deixou críticas ao Banco de Portugal e à CMVM pela forma como têm gerido o caso. “Não gostei do comportamento das duas entidades a passarem as culpas uns para os outros”, disse, sugerindo que as duas entidades deviam era “estar sentadas à mesa a conversar e a separar o trigo do joio”, que é como quem diz, a separar aqueles que fizeram investimentos de risco e aqueles que foram enganados ou manipulados.

Confrontado com o facto de a Caixa Geral de Depósitos se preparar para pagar 25% do diferencial da venda do Novo Banco e de isso, indiretamente, se traduzir em dinheiro dos contribuintes, Portas retorquiu que o “indiretamente tem uma longa explicação” e que “a CGD tem várias formas de poder resolver a questão e de cumprir com o fundo de resolução”, não sendo “imune” ao que aconteceu ao sistema financeiro com o colapso do BES. Apesar de admitir que o sistema não é perfeito, Portas sublinhou que “não se pode querer o melhor de dois mundos”, ou seja, um banco público que seja, ao mesmo tempo, blindado do mal que acontece no sistema bancário.

Reforma da Segurança Social só depois das eleições, com partidos à mesa

O tema da sustentabilidade do sistema da Segurança Social foi um dos mais debatidos ao longo das duas parte da entrevista ao vice-primeiro-ministro, com Portas a escusar-se a avançar “linhas vermelhas” ou limites a partir dos quais a contribuição deixaria de ser obrigatória. De resto, só uma certeza, a reforma da Segurança Social vai fazer-se depois das eleições, em acordo com os partidos da oposição e com os parceiros sociais, vai respeitar as diretrizes do Tribunal Constitucional e “não será feita às custas das pensões a pagamento”.

Admitindo que “os 600 milhões é um problema que temos de resolver”, Portas recusou a ideia de a coligação ter virado as costas a esse problema ao omitir o buraco no programa eleitoral: “Não há aqui nenhum esconder dos 600 milhões, que continuam a ser um problema que tem que se resolver”, disse.

Então como? Portas defendeu o modelo da coligação, que disse ser “o mais moderado de todos”, e que passa por “descontos obrigatórios para a Segurança social até um valor limite, podendo os contribuintes depois descontar, se assim o entenderem, para o privado ou associações mutualistas. Em contrapartida, o Estado paga pensões até um limite”. Não disse foi que limite é esse. Primeiro recordou o “livro branco sobre a Segurança Social”, de António Guterres, onde era definido que esse tecto rondaria os 5/6 salários mínimos, e, depois, remeteu os números para a eventual negociação que ocorra quando partidos e parceiros sociais se sentarem à mesa. 

Novo apelo à classe média e aos indecisos

Numa entrevista conduzida sob o formato “Tenho uma pergunta para si”, onde respondeu a questões deixadas nas redes sociais pelos espectadores e a perguntas feitas por personalidades presentes no estúdio, Portas voltou a pedir maioria aos eleitores indecisos e à classe média por acreditar que são eles que, na hora H, “preferem jogar pelo seguro” do que “ir em aventuras”.

Retomando o discurso que já tinha feito na quarta-feira à noite na sessão de apresentação dos candidatos da coligação por Lisboa, Portas voltou a apelar ao voto das fatias do eleitorado consideradas mais difíceis, acreditando que é neles que reside a chave que pode dar à coligação uma maioria no dia 4 de outubro. “Eu apelo à classe média e aos indecisos porque são as pessoas que, quando há alguma coisa a ganhar ou a perder, optam pela hipótese que é segura e não pela que é aventureira”, disse, reforçando que a sua “ideia de estabilidade” passa necessariamente por um governo de maioria.

“A única proposta nítida de governo maioritário é a que é apresentada pela coligação. As pessoas sabem com o que contam, tudo o mais são cenários de instabilidade”, reforçou.

Mas espicaçado pela comentadora da TVI Constança Cunha e Sá sobre o que o faria pensar que a classe média levava a sério esse apelo, “depois de ter sido enganada na última campanha e esmifrada nos últimos quatro anos”, Portas respondeu com “humildade”. “Não tem razão. A classe média tem os pés assentes na terra. Foi a mais prejudicada, mas quem é o responsável? Portugal teve um resgate em 2011”, atirou, sublinhando que em período de pré-bancarrota e consequente recessão “obviamente que ninguém no seu são juízo podia imaginar que o país estava nessas condições feliz e contente a criar emprego”.

Demite-se em caso de derrota? Nim

Mas e se a coligação perder? Questionado por um espectador nas redes sociais sobre se admitia demitir-se da liderança do CDS em caso de derrota da coligação, Portas recusou admiti-lo “para depois não ter de revogar isso”. E garantiu que, ao contrário do que se diz, o CDS “não é o partido de um homem só”.

Numa das poucas entrevistas que deu nos últimos quatro anos de governação, Portas lembrou o nome de várias personalidades dentro do CDS, afirmando que “nunca teve medo de concorrer com o mérito e a qualidade”.

A meio da entrevista ainda houve tempo para comentar as declarações do eurodeputado Paulo Rangel na universidade de verão do PSD, onde questionou que com um governo PS um ex-primeiro-ministro e o maior banqueiro do país não estariam a ser investigados pela justiça, Portas foi perentório e deixou uma resposta curta: “Respeito inteiramente a liberdade de opinião de toda a agente, sou amigo do Paulo Rangel, mas não penso o que ele pensa e não diria o que ele disse”. “Não poderia ter resposta mais simples”, atirou ao jornalista.

Numa entrevista conduzida pelo jornalista José Alberto Carvalho, Portas afirmou ainda que “é necessário, desejável e possível” reduzir a carga fiscal sobre os portugueses, desde que as “contas públicas se mantenham controladas”, mas não se comprometeu com mais nada para lá da eliminação progressiva da sobretaxa de IRS e da redução do IRC.