Não, não existem relações perfeitas. Afirmá-lo seria confirmar os clichés das comédias românticas de Hollywood, onde habitualmente um casal apaixonado beija-se fogosamente mesmo antes de os créditos finais invadirem o pequeno (ou grande) ecrã, tentando convencer meio mundo de que aqueles dois “viveram felizes para sempre”. De certeza que não. De certeza que pelo caminho da relação conjugal uma Julia Roberts fartou-se das expressões britânicas e desatualizadas de um Hugh Grant — a vida é muito mais do que os cerca de 120 minutos do filme Nothing Hill, mas nem por isso deixa de ser tão ou mais interessante.

Voltando aos casais, há uns mais e menos felizes do que outros. E os que conseguem perdurar no tempo apresentam características facilmente identificáveis: desde o hábito de elogiar a cara-metade em público ao facto de perguntar, num registo diário, “como correu o dia?”. Quem nos conta isto e mais é a psicóloga Cláudia Morais, autora de um novo livro que chegou há dias às livrarias — 25 Hábitos dos Casais Felizes (Manuscrito).

Muito a propósito, a também terapeuta familiar partilha com os leitores do Observador 10 segredos que ajudam a explicar uma união duradoura, ao jeito do romance protagonizado por uma Anna Scott e um William Thacker. 

1. Apoiam-se mutuamente na concretização dos sonhos

Sem tirar nem pôr, esta é a base de qualquer relação bem-sucedida. Ao longo do tempo os sonhos vão evoluindo, tal como as pessoas, e é preciso estar a par do que ela ou ele ambiciona — se ontem o seu namorado queria passar dois anos além-fronteiras a fazer o currículo crescer, amanhã poderá desejar ter as aulas de viola que nunca conseguiu encaixar na agenda. A missão é, em última análise, fazer a cara-metade feliz e manter uma postura de incentivo face aos desejos que estão por concretizar, mesmo que alguns sonhos levem um dos membros para fora da sua zona de conforto ou colidam com as aspirações do outro — nada que um jogo de equilíbrio não resolva.

2. Elogiam-se em público

“As pessoas são diferentes e há, efetivamente, quem seja mais envergonhado”, começa por dizer Cláudia Morais, não sem antes esclarecer que, de um modo geral, os casais felizes tendem a falar bem um do outro a amigos e familiares — e a desconhecidos, quiçá. Falamos de um elogio franco, que não surge na forma de bajulação e é antes uma espécie de caça ao tesouro (às mais-valias dele ou dela): “Os casais que estão em crise fazem a caça à crítica, isto é, entram no meu gabinete com uma lista de queixas e de críticas. Os casais felizes, apesar de conhecerem os defeitos um do outro, estão gratos pelas pessoas que têm a seu lado.” É, pois, uma questão de orgulho e de admiração pelo outro, uma prática que oferece uma enorme sensação de segurança, em particular, a quem está a ser elogiado e, em geral, ao casal. E desengane-se quem pensa que o elogio é só coisa de namoro, uma vez que a psicóloga jura a pés juntos que também acontece nas relações mais duradouras.

A young couple kissing in a London room, May 1964. (Photo by Bert Hardy Advertising Archive/Getty Images)

© Bert Hardy Advertising Archive/Getty Images

3. Reconhecem a importância do toque

O toque é a linguagem universal dos afetos. E se é impensável relacionarmo-nos com uma criança pequena sem “as festinhas e os abraços”, o mesmo se pode dizer em relação às relações conjugais. A somar à causa, Cláudia Morais faz ainda questão de referir que há estudos que dão conta da importância do toque ao nível da dor (tendo em conta tratamentos oncológicos) e até em relação ao desenvolvimento cognitivo dos mais pequenos. A conclusão, adivinhe-se, é de que o toque faz bem à saúde, bem como à união de um casal. “O toque faz-nos sentir mais seguros na relação e mais ligados à pessoa. Refiro-me a coisas tão simples como passar no corredor e tocar um no outro. O que importa é que o outro não seja, por exemplo, indiferente ao meu toque.” A terapeuta conjugal salienta que mais importante do que a frequência (ou não) de sexo, é a existência (ou não) do toque. 

4. Têm uma vida sexual ativa

Antes de avançarmos, desmistifiquemos uma ideia feita: “Algumas pessoas, sobretudo quando há dificuldades nesta área, procuram convencer-se de que podem ser felizes na relação sem o sexo.” Dito isto, os casais mais felizes tendem a ter uma vida sexual ativa e a sentirem-se satisfeitos. É que uma maior intimidade sexual está, também, relacionada com uma maior intimidade emocional — quanto mais segura uma pessoa se sente numa relação, maior é a probabilidade de se entregar sem amarras. A isto a psicóloga acrescenta que, entre casais que possam ser considerados felizes, tende a existir abertura para falar sobre a falta de vontade sexual, até porque há a consciência de que existem períodos de maior afastamento sexual (costumam estar associados a cansaço e/ou outras preocupações). E não, voltamos a insistir, não existe um número estanque de relações sexuais por semana. Cada caso continua a ser um caso.

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5. Perguntam: “como foi o teu dia?”

Preto no branco, a comunicação elimina a distância que facilmente se pode instalar entre duas pessoas, como uma barreira invisível que vai ganhando força com o passar do tempo. Ao cenário pouco feliz acrescenta-se a solidão ou a sensação de desamparo que uma das partes de um casal pode sentir mesmo sem o admitir. “Não nos podemos distrair assim tanto ao ponto de a pessoa que está ao nosso se sentir só. A maior parte das pessoas que conheço queixa-se da falta de tempo e do facto de assumir vários papéis. A verdade é que temos de fazer escolhas e a relação conjugal é uma prioridade”, salienta a psicóloga, que se apressa a defender que o casal devia centrar-se nele mesmo 15 a 20 minutos por dia — porque, como diz Cláudia Morais, “aquilo que todos precisamos é, de um modo geral, alguém que nos oiça ao final do dia e nos dê colo nos momentos de maior vulnerabilidade”.

6. Lembram-se de que são um casal mesmo quando não estão juntos

“Há efetivamente um espaço que o outro ocupa em termos cerebrais. No princípio do namoro isso é visível, até porque a outra pessoa não nos sai do pensamento. Depois, as coisas atenuam. É uma questão hormonal, visto que na fase inicial estamos muito vigilantes. A isso segue-se a tranquilidade e a serenidade”, diz Cláudia Morais. Nesta última etapa — se assim a pudermos chamar — é natural que as pessoas numa relação amorosa se conheçam bem e, quando as coisas funcionam favoravelmente, elas têm tendência a lembrarem-se uma da outra ao longo do dia. É o que a psicóloga chama de “agenda mental”: “Se o meu marido tem uma reunião importante, eu vou querer mandar-lhe uma mensagem ou ligar-lhe para o apoiar e ajudar a descontrair. Aquilo que acontece na vida da outra pessoa é um bocadinho meu.” Importa, no entanto, referir que nada é perfeito e até mesmo nos casos mais funcionais existem falhas e lapsos.

7. Zangam-se

“Tenho dito, muito frequentemente, que os casais que mais me preocupam são os que nunca discutem”, atira, desde logo, Morais. Passamos a explicar: numa relação íntima o que é esperado (e desejável) é que as pessoas sejam capazes de se expor com algum conforto. As discussões são, por isso, um mal necessário que resulta da partilha de opiniões, ou exposições, diferentes. Não que isto seja motivo de grande preocupação dado que, como diz a psicóloga, os casais felizes não resolvem todos os seus problemas. Existem, até, dois tipos de problemas: aqueles para os quais há solução e aqueles para os quais apenas é possível encontrar uma gestão. “Nos casais felizes há problemas que são eternos, isto é, eles tendem a discutir uma vida inteira pelos mesmos assuntos. Nesses casos não precisam de uma solução, mas sim de um compromisso.”

UNITED STATES - CIRCA 1950s: Couple in heated argument. (Photo by George Marks/Retrofile/Getty Images)

© George Marks/Retrofile/Getty Images

8. Têm cuidado com “os venenos da comunicação” 

Imaginemos uma mulher zangada com um homem porque ele, mais uma vez, deixou o tampo da sanita levantado — o problema pretende, apenas, ser exemplificativo. No decorrer de uma conversa cada vez mais acesa é possível que ela assuma uma postura crítica, o que aumenta a probabilidade de o marido sentir-se atacado e, consequentemente, optar por um estado defensivo. E o que acontece a seguir? “Se me sentir atacada e desrespeitada, a mensagem que passo para a pessoa de quem gosto é ‘não quero saber’ . Assim, a outra pessoa vai sentir-se mais frustrada e ataca ainda mais”, explica Cláudia Morais. Um círculo vicioso.

Os venenos da comunicação podem ainda traduzir-se no corriqueiro revirar de olhos perante uma queixa ou nos clássicos amuos, que tendem a ser mecanismos de defesa. Acontece que os casais felizes preferem, em vez disto, tentativas céleres de reaproximação logo após uma zanga. “Os dois membros do casal tendem a assumir uma postura proativa nessas situações, como se cada um fizesse a sua parte.”

A couple flirting beside a Christmas tree, December 1955. The female model is Susan Abraham. Original Publication: Housewife Magazine - pub. 1955 (Photo by John French/Getty Images)

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9. Valorizam os rituais

Cada um de nós têm referências. Desde os rituais mais significativos, como o local onde se passa o natal, a coisas mais simples, como o facto de toda a família comer à mesma hora sentada à mesa. “Quando formamos a nossa própria família trazemos esses hábitos connosco, pelo que é natural que alguns deles colidam. Mas, ao fim de algum tempo, os casais felizes criam as suas próprias tradições e rituais.” É neste momento, e neste contexto, que se forma um “nós”, isto é, a construção de uma identidade assente no amor e respeito mútuos.

10. Não tomam a relação por garantida

Aqui chegados, é uma repetição escrever que, no dia a dia, é muito fácil cair no erro da distração e negligenciar a cara-metade. Prova disso são alguns hábitos que se vão instalando numa relação e que mostram como deixamos de estar empenhados em fazer a outra pessoa feliz. É exemplo quando os membros de um casal escolhem ficar, repetida e diariamente, em divisões distintas depois de um dia de trabalho ou, então, quando deixam de celebrar datas importantes. “Pode parecer normal, mas a verdade é que uma relação faz-se todos os dias. Os momentos a dois têm [mesmo] de existir.”