Um escândalo de corrupção abalou a política da Maláisa em julho deste nao. Vários jornais, de todo o mundo, noticiaram que um fundo de desenvolvimento pertencente ao Estado, o 1Malaysia Development Berhad (1MDB), foi utilizado para transferir fundos estaduais para as contas do primeiro-ministro Najib Razak. Ao todo, segundo relataram os órgãos de comunicação social na altura, foram 700 milhões de dólares (cerca de 620 milhões de euros). Abriram-se investigações em Singapura, na Suíça, em Hong Kong e nos EUA. E a pressão para Razak dar uma boa explicação tornou-se quase insuportável. Mas aguentou. E manteve-se no poder.

Agora, os líderes reais da Malásia vieram a público fazer uma exigência sem precedentes de uma rápida e transparente investigação sobre o caso do 1MDB.

Mas para perceber o contexto desta história há que olhar para o sistema de governo do país asiático. Isto porque a Malásia é uma monarquia constitucional federal, com um sistema parlamentar baseado em Westminster, devido às suas origens coloniais britânicas. O chefe de Estado é conhecido como o Yang di-Pertuan Agong (líder supremo). E como estamos a falar de uma monarquia, é correto afirmar que se trata do rei . Mas o rei tem algumas singularidades neste país do sudoeste asiático. É que este é eleito por entre os nove governantes reais dos estados malaios, para mandatos de cinco anos. Ou seja, o cargo é alternado a cada cinco anos e entre os nove governantes.

O rei, teve sempre aqui um papel pouco ativo em relação à política da nação. E, neste caso, o seu papel tornou-se ainda mais passivo depois da publicação da constituição de 1994. A partir daí o rei passou apenas a ser um protagonista cerimonial. Mas isso pode ter terminado esta semana. É que os líderes reais do Estado bateram com o pé e exigiram que se tire a limpo a controvérsia sobre o Primeiro-Ministro.

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Normalmente a realeza fica de fora da política. Mas agora a coisa parece ser diferente. (Reuters/Bazuki Muhammad)

Como conta o Quartz, na Conferência de Líderes do país, os governantes reais defenderam que as notícias de corrupção que envolvem Najib Razak geraram uma “crise de confiança”. Reforçando que “as conclusões da investigação devem ser comunicadas de forma abrangente e de uma forma transparente para convencer as pessoas da sinceridade do Governo que não deve ocultar todos os fatos e a verdade.”

Najib foi ainda acusado de alimentar as tensões raciais. Isto porque, na sequência das grandes manifestações contra a sua permanência no poder, em agosto, Razak alegou que estas foram conduzidas pela comunidade chinesa, que representa uma minoria étnica no país mas com grande influência económica.

Agora, o desafio dos líderes reais pode ser um problema para o primeiro-ministro. É que, apesar de não possuírem poderes formais e das suas declarações não serem vinculativas, as famílias reais são autênticos símbolos da herança malaia e são vistos como os guardiões da fé islâmica da nação. E, mais importante, eles não podem ser demitidos.