Agora sim, quem perde vai-se embora. O Mundial de râguebi chegou à altura das decisões e, terminada a fase de grupos, uma coisa se confirma — esta tem sido a edição mais equilibrada de sempre e os números não deixam a frase mentir. Já se marcaram 2.020 pontos e, mesmo parecendo muito, é o número mais baixo de sempre desde 2003, ano em que a competição passou a ter 40 equipas. Também nas penalidades há um recorde. Já se marcaram 176 e isto pode significar duas coisas: ou o jogo está mais faltoso que o costume ou os capitães das equipas têm optado mais vezes por chutarem aos postes em troca de três pontos do que jogar à mão e arriscarem-se a não conseguir nenhum. E, pela primeira vez nos últimos 20 anos, não houve alguém a vencer um jogo por mais de 80 pontos de diferença. O que parecem querer dizer estes números todos? Que o Mundial está diferente.

Ou se calhar não. Pois aos quartos-de-final chegaram as equipas mais habituadas a lá estar, esquecendo o facto de a Inglaterra se ter tornado na primeira seleção anfitriã a ficar-se pela fase de grupos. Ao menos desta vez teremos uma espécie de duelo entre hemisfério norte e sul, já que não haverá quaisquer jogos entre equipas do mesmo continente. E isto dá um quê de distinção ao Mundial — há quatro anos, por exemplo, as seleções europeias defrontaram-se e perdeu-se um pouco a piada da coisa. Agora é o contrário, sobretudo pelo facto de a França ter uma oportunidade para voltar a surpreender toda a gente se conseguir pregar outra partida à Nova Zelândia. Vamos lá olhar para os jogos dos quartos-de-final.

África do Sul-País de Gales

LONDON, ENGLAND - OCTOBER 10: Dan Biggar of Wales misses a penalty during the 2015 Rugby World Cup Pool A match between Australia and Wales at Twickenham Stadium on October 10, 2015 in London, United Kingdom. (Photo by Mike Hewitt/Getty Images)

O África do Sul-País de Gales joga-se sábado, 17 de outubro, às 16h.

Começaram a tremer. Tão titubeantes estavam que abriram o Mundial com a surpresa de perderem um jogo que, diziam as casas de apostas, tinham uma probabilidade de 349-1 de o ganharam. A África do Sul foi derrotada pelo underdog dos underdogs e isso servia para a acordar. Ao tropeção com o Japão seguiram-se vitórias contra a Escócia, os EUA e Samoa e uma das cinco melhores seleções do mundo voltou a dar nas vistas. Os ânimos foram puxados para cima com os três ensaios que Bryan Habana marcou aos EUA e o deixaram igualar o recorde de Jonah Lomu, de 15 marcados em Mundiais. Mas isso não chega.

Os sul-africanos continuam a ser capazes do oito e do 80. À eficácia que vão mostrando no jogo à mão, vão dando a companhia de uma certa displicência a defender. E o País de Gales não é pêra doce. A seleção europeia tem em Dan Biggar um dos médios de abertura com o melhor pé da competição — marcou 23 pontos à Inglaterra sem falhar um pontapé na vitória — e tem uma equipa que soube reagir bem às lesões que sofreu na semana anterior ao arranque do Mundial (o ponta Liam Williams juntou-se esta semana a Leigh Halfpenny, Jonathan Davies, Scott Williams, Cory Allen, Rhys Webb, Hallam Amos e Eli Walker). Os galeses apenas perderam com a Austrália (15-6) neste Mundial e, a par da Irlanda, parecem ser a equipa europeia mais forte. Erram pouco para o número de vezes que arriscam nas jogadas de ataque, em que têm apostado em muitos cruzamentos e variações de passe.

Nova Zelândia-França

LONDON, ENGLAND - SEPTEMBER 20: Ritchie McCaw of New Zealand leads the Haka during the 2015 Rugby World Cup Pool C match between New Zealand and Argentina at Wembley Stadium on September 20, 2015 in London, United Kingdom. (Photo by Shaun Botterill/Getty Images)

O Nova Zelândia-França joga-se sábado, 17 de outubro, às 20h.

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É possível repetir um pesadelo? Sacre bleu. Há oito anos, os matulões dos All Blacks, a equipa que tem sempre no balneário de cada jogo uma inscrição a dizer “Somos a equipa mais dominadora da história do desporto” levava com uma surpresa — perdia nos quartos-de-final do Mundial com a França (20-18). Foi uma deceção das antigas e isso criou uma espécie de trauma nas cabeças neo-zelandesas. O New Zealand Herald não o escondeu: “O pior duelo possível”, leu-se no título do texto que o jornal escreveu sobre a sina que calhou à seleção que veste sempre de negro.

Em 2003 foi o choque. Os neo-zelandeses perderam com os franceses e os candidatos a todos os títulos foram alvo do choque do Mundial. Depois, em 2011, reencontraram-se na final. A competição realizou-se na Nova Zelândia e os gauleses resolveram ser ousados: durante o Haka, a dança tribal que os All Blacks realizam antes de todos os jogos, a França formou os jogadores em forma de seta e avançou contra os neo-zelandeses. “Chegou a um ponto que estávamos tão perto que eles até os queriam beijar”, chegou a dizer Thierry Dusautoir, o capitão francês. De nada lhes serviu: perderam (7-8) e a IRB (International Rugby Board) ainda os obrigou a pagar uma multa de quase 3.400 euros por caminharem na direção dos neo-zelandeses durante o ritual (apesar de em 2007 terem feito pior). Mas a história não fica por aqui.

Logo em 1987, na primeira edição do Mundial, os homens do Pacífico ganharam aos da Europa na final. Voltariam a encontrar-se em 1999 e aí o choque foi igual, ou pior, que o de 2007. Os neo-zelandeses estavam a vencer por 14 pontos a 13 minutos do final do jogo, pareciam estar a passear à boleia das cavalgadas de Jonah Lomu e, do nada, os franceses começaram a inventar ensaios. Marcaram 26 pontos em menos de um quarto de hora e lá foram eles até à final, onde perderam com a Austrália.

(O Haka e a ousadia dos franceses na final de 2011.)

Ou seja, os All Blacks têm um duplo trauma com a França e isto dá razão a uma frase: o sorteio não podia ter sido pior para a Nova Zelândia. Sim, tudo isto é apenas psicológico, mas pode bastar para trocar as voltas ao que se tem visto as duas equipas fazerem no campo. A Nova Zelândia é e será sempre a favorita, porque isto é como Tomaz Morais, ex-selecionador nacional (2001-2011), dizia há dias ao Observador: “Individualmente, todos os jogadores neo-zelandeses são melhores que qualquer adversário direto neste Mundial”. Nenhuma equipa tem tantos jogadores com mais de 100 internacionalizações e para trintões como Daniel Carter, Richie McCaw, Kevin Mealamu ou Conrad Smith esta será a última oportunidade de levantarem outro caneco. O problema é que lhes têm apontado o dedo que sempre se estica em Mundiais — a equipa, mesmo ganhando todos os encontros, não tem jogado tão bem quanto devia e parece estar a meio gás.

Com a França a história é outra. Tem tremido muito e no fim de semana devia ter sorrido por não ter saído da derrota com a Irlanda com mais pontos encaixados (24-9). Os gauleses, e tirando a Itália, têm sido a mais fraca das equipas do Seis Nações europeu e não há vislumbre dos tempos em que a seleção francesa era uma máquina de inventar ensaios do nada — como em 1999. Mas lá está, também ninguém esperava que chegassem à final de 2011 ou que conseguissem, sequer, discutir o jogo com a Nova Zelândia em 2007. O maior trunfo gaulês será o jogo mental que este embate já terá criado nas cabeças dos All Blacks.

P.S. A derrota de 2007 aconteceu em Cardiff e o jogo do próximo sábado também será jogado lá. Demasiadas coincidências?

Irlanda-Argentina

Ireland's fly half Jonathan Sexton passes the ball during a Pool D match of the 2015 Rugby World Cup between France and Ireland at the Millennium Stadium in Cardiff, south Wales, on October 11, 2015. AFP PHOTO / GABRIEL BOUYS RESTRICTED TO EDITORIAL USE, NO USE IN LIVE MATCH TRACKING SERVICES, TO BE USED AS NON-SEQUENTIAL STILLS (Photo credit should read GABRIEL BOUYS/AFP/Getty Images)

O Irlanda-Argentina joga-se no domingo, 18 de outubro, às 13h.

Azar. Foi isto que os irlandeses retiraram da vitória contra a França, porque a virilha do médio de abertura Jonathan Sexton, a coxa do capitão Paul O’Conell e os ligamentos do joelho do segunda linha Peter O’Mahony fizeram das suas. Todos saíram lesionados, o último já se sabe que não joga mais neste Mundial e resta saber o que acontecerá aos outros dois. A coisa é grave, pois Sexton é talvez o mais fiável médio de abertura da competição e as duas conquistas seguidas do Seis Nações (2014 e 2015) construíram-se à volta dos seus pontapés certeiros aos postes e às formações alinhadas. Sem ele a Irlanda não é tão forte e bem precisará de o ser para contrariar os Pumas.

A Argentina só perdeu uma vez neste Mundial e obrigou os All Blacks a suarem muito para lhe impor a derrota. Os sul-americanos placam como poucos ainda o fazem no râguebi moderno — sempre baixinho e às pernas — e têm evoluído muito desde 2012, quando começaram a jogar anualmente no Rugby Championship com a Nova Zelândia, a Austrália e a África do Sul. Os argentinos têm dado nas vistas pelas mãos de Nicolás Sanchez e Juan Martín Fernández, o abertura e o centro que lhes comandam o jogo e são o melhor exemplo de como há qualidade para os Pumas igualarem o feito de 2007, quando chegaram às meias-finais do Mundial. Para já, são a equipa com mais pontos marcados (179) neste Mundial e a terceira com maior número de ensaios (22, atrás da África do Sul e da Nova Zelândia).

No 64-19 imposto à Namíbia, o resultado com mais pontos deste Mundial, os argentinos treinados por Daniel Hourcade, adjunto de Tomaz Morais na seleção nacional que foi à edição de 2007, abusaram do jogo à mão e insistiram em circular sempre a bola até às pontas. Marcaram nove ensaios, mas várias foram as bolas a caírem na relva ou os passes mal feitos, que permitiram aos namibianos apanhar os Pumas em contra pé. Cuidado, porque os irlandeses são bem melhores a aproveitar os erros alheios. Este poderá ser o duelo mais equilibrado dos quartos-de-final.

Austrália-Escócia

Australia's fly half Bernard Foley (C) watches a scrum during a Pool A match of the 2015 Rugby World Cup between Wales and Australia at Twickenham Stadium, south west London, on October 10, 2015. AFP PHOTO / MARTIN BUREAU RESTRICTED TO EDITORIAL USE, NO USE IN LIVE MATCH TRACKING SERVICES, TO BE USED AS NON-SEQUENTIAL STILLS (Photo credit should read MARTIN BUREAU/AFP/Getty Images)

O Austrália-Escócia joga-se no domingo, 18 de outubro, às 16h.

Aí estão os escoceses outra vez. Em 2011 falharam pela primeira vez o acesso aos quartos-de-final e agora conseguiram sair com vida de um grupo onde apenas ultrapassaram o Japão graças a dois pontos de bónus. Passaram por um mau bocado no último jogo do grupo, frente a Samoa (36-33), mas o selecionador, Sean Lamont, acha que esta é a melhor seleção escocesa dos últimos 10 anos. Será pelo menos a mais sortuda por ter Greig Laidlaw, o médio de formação que chuta aos postes e não sabe o que é falhar um pontapé — é o melhor marcador de pontos deste Mundial, com 60. A Escócia, porém, não tem sido tão forte no jogo de três quartos como é no de avançados. A equipa ainda encrava quando tem de colocar homens a correr para aproveitar os espaços na defesa contrária. O único que consegue desequilibrar é Stuart Hogg, o árriêr, e ele sozinho não chega para fazer mossa.

Sobretudo contra a Austrália, que provou frente a Gales, na derradeira partida da fase de grupos, que sabe defender forte e feio quando é preciso: jogaram sete minutos apenas com 13 homens em campo e outros 10 com 14 jogadores e não sofreram qualquer ensaio. Os australianos saíram a liderar o grupo da morte e dominaram tanto os galeses como os ingleses. Chegaram ao Mundial embalados pela conquista do Rugby Championship e parece que, finalmente, após Stephen Larkham deixar de jogar pelos wallabies, em 2007, encontraram um médio de abertura em quem podem confiar. Bernard Foley não tem tremido com a camisola 10 e os seus pontapés têm sido tão certeiros quanto as jogadas que tem montado à mão — como esta, que lhe valeu um ensaio contra a Inglaterra.