Maurizio Avola entrou na máfia siciliana em 1983 e terá morto 79 pessoas durante 11 anos, até ser preso. Maurizio passou de mafioso a informador, já que decidiu quebrar o código de silêncio da máfia quando percebeu que os seus antigos companheiros estavam a tentar delinear um plano para o matar.

A sua sentença foi prisão perpétua por 43 assassínios (os provados) e 40 assaltos à mão armada. Está numa prisão para informadores, mas será libertado daqui a 5 anos face à sua cooperação com as autoridades, conta a Time, que revela ainda que a cooperação de Avola com a polícia resultou em mais de 100 condenações.

Maurizio deu a sua primeira entrevista à imprensa internacional, que a Time divulgou.

A iniciação na máfia

Sobre o envolvimento na máfia Maurizio conta que começou muito jovem e que a ambição por mais dinheiro o fez procurar outras alternativas que não o restaurante do seu pai, onde trabalhou inicialmente.

“Eu fiz alguns assaltos à mão armada e com apenas 21 anos chamei à atenção de Marcello D’Agata, um mafioso que vivia a 100 metros de distância da minha casa. Ele sabia que eu era bom com armas, que era rápido e ágil. Então disse que me poderia ajudar. Algumas semanas mais tarde disse-me que eu precisava de fazer alguma coisa pela minha família e então comecei a fazer assaltos para a máfia”.

Maurizio revela a reação que teve na noite em que puxou o gatilho pela primeira vez para matar alguém, acrescentando que todos os assassinatos cometidos pela máfia serviam para enviar uma mensagem muito para além do círculo imediato da vítima.

“Naquela noite, fomos a um bar para comemorar. Então fui à casa de banho e vomitei. Um amigo da máfia disse-me que a consciência de um assassino é como uma besta escura, mas que era preciso aprender a mantê-la sob controlo”.

A vida na máfia

Maurizio revela que depois de se tornar um membro da máfia teve de ser submetido a um ritual de iniciação, numa zona rural, onde também lhe foram apresentadas as regras da organização.

“Durante a cerimónia o meu dedo foi picado com uma agulha na presença do meu padrinho, Aldo Ercolano. As gotas do meu sangue foram derramadas sobre a imagem de um santo enquanto eu fazia um juramento. Fiquei impressionado com a declaração formal das regras: nunca se apresentar como um membro da máfia a outro associado, não desejar a mulher de outro membro, não matar outro membro a menos que se esteja autorizado a fazê-lo, nunca recorrer a prostitutas e nunca falar com a polícia”.

Avola explicou que não podia discutir pormenores dos assassinatos com outros membros e que só podia falar com o chefe que os encomendava. Esclareceu que a máfia tinha de estar sempre à frente da família, que as questões pessoais nunca poderiam influenciar o trabalho e que era um dos assassinos mais bem pagos e com as melhores regalias.

“Eu era um dos mais jovens membros da máfia siciliana, apesar de vir de uma família que não tinha nada a ver com isso. Era um dos assassinos mais confiáveis e era muito bem pago. Possuía carros desportivos e comprei duas grandes casas (…) não tinha de estar em filas de bares, de lojas, restaurantes e não tinha de pagar a menos que quisesse (…) estávamos protegidos pela ‘família da máfia’ ”

Sempre no fio da navalha e a matar

Maurizio Avola disse que era na verdade um soldado e que deixava sempre a casa e a família como se fosse a última vez, já que ser morto ou ir para a prisão eram as duas possibilidades mais prováveis.

“Eu era enviado para matar pessoas. Eu tinha de o fazer, a recusa estava fora de questão. Eu era apenas um mafioso que executava ordens dadas a partir de cima, assim como os soldados na guerra. Mas a memória das vítimas consome a minha mente. Eu matei pessoas com quem eu partilhei refeições e homens que confiaram em mim”.

Como se tornou informador

Avola foi preso a 26 de fevereiro de 1993 e conta que a prisão aconteceu um dia depois de matar um dos seus melhores amigos, Pinuccio Di Leo, por “saber de mais”. Nesse dia a polícia foi alertada por um telefonema anónimo, que a informou do local onde ele poderia ser encontrado.

“Quando a polícia veio à minha casa para me prender eu estava quase aliviado. Apenas alguns minutos antes, notei um carro estacionado em frente à minha casa. Era um Peugeot 205 e dentro dele, vi dois homens. Eu não os reconheci, mas eles tinham armas. Naquele momento percebi que iria sofrer o mesmo que Pinuccio Di Leo. A polícia salvou a minha vida. Foi por isso que, um ano depois, em 1994, decidi tornar-me informador”

Maurizio Avola disse na entrevista ter sido traído pelo chefe, que estava a tentar regenerar as fileiras da máfia. Avola acrescenta que nessa altura havia muita pressão para que os mafiosos começassem a falar e que, como os principais chefes o queriam ver morto, ele decidiu colaborar com as autoridades.