Um exercício para caçar o estereótipo requentado da mulher independente em ficções de pouca qualidade: a personagem entra em casa (onde vive sozinha) já tarde, cansada do seu trabalho de responsabilidade e sucesso, abre o frigorífico vazio. Veem-se apenas uma jarro de pickles, ketchup e vernizes. Depois pega no telefone e liga para o número das pizas que está num íman estrategicamente pegado à porta do mesmo frigorífico.

Dando de barato a fraqueza do quadro, foquemo-nos nos vernizes. E já agora no resto da maquilhagem: a moda de guardar cosméticos no frigorífico é real. Um estudo da Samsung e da loja online de eletrodomésticos ao.com revela que cerca de três milhões de britânicas guardam maquilhagem no frigorífico, e no centro de Londres há empreendimentos de luxo a serem vendidos por estrear já com mini-frigoríficos para cosméticos.

No mesmo país, as camadas mais abastadas estão a instalar mini-frigoríficos pensados para produtos de beleza nas suas casas de banho, e na Coreia do Sul são coisas de lana-caprina que se vendem em todo o lado. O site asiático GMarket vende-os a partir dos 60 euros, embora não os envie para fora do país; a Odacité desenhou um frigorífico para os seus produtos por 150 dólares (132 euros), e os mini-frigoríficos da Coca-Cola compram-se na Amazon por cerca de 60 euros.

frigorífico Odacite

O frigorífico que a marca Odacité desenhou de propósito para os seus produtos. DR

A maquilhagem fresquinha é boa para acordar, literalmente. “No caso dos cremes de olhos não é apenas a sensação de frescura: o frio é um vasoconstritor — diminui o volume dos vasos sanguíneos e portanto diminui a vermelhidão e o inchaço matinais”, explica a dermatologista da Simple Skincare, Philippa Lowe, ao DailyMail, que revela alguns produtos cuja própria marca aconselha o armazenamento no frio. Por exemplo, o Copper Amino Isolate Serum 1% da NIOD precisa de frigorifico para manter os seus ingredientes estáveis, e a Body Shop diz que a sua Vitamin E Face Mist trabalha melhor se fria.

O que guardar e não guardar no frigorífico?

Nem toda a cosmética se dá bem com o frio. Aliás, esse é o caso da maioria, e nem poderia ser de outra maneira, se por tradição guardamos cremes e afins à temperatura ambiente. “A maioria dos produtos disponível para o grande público contém conservantes e foi testada para manter as suas propriedades quando guardada e usada à temperatura ambiente. Por exemplo, produtos como os óleos podem tornar-se mais espessos no frigorífico, e um pouco antes de se usarem têm de se retirar”, continua Lowe. Se o produto for completamente natural, guardá-lo no frio pode retardar o seu envelhecimento, mas em geral o habitat natural de um creme não é nem o muito frio, nem o muito quente. É à temperatura do ar que eles penetram melhor na pele. E o frio pode afetar os compostos do produto. “Se a vitamina C e o retinol arrefecerem, podem deixar de ser eficazes.”

O perfume é dos produtos mais sensíveis. “É verdade que a luz e o calor são os grandes inimigos do perfume”, diz ao mesmo jornal Lawrence White, da perfumaria de luxo Roullier White. “O ideal é guardá-los alguns graus abaixo da temperatura ambiente, se possível num lugar permanentemente escuro. Mas o perfume é tão frágil que as moléculas dos seus óleos essenciais se perturbam tanto no frio extremo como no calor.”

Alguns produtos podem mesmo tornar-se difíceis de aplicar, como as bases, que ficam menos fluídas, e os batons, que deixam de deslizar. No entanto, para um lápis de contorno bem firme, esta pode ser uma boa solução.

Quanto aos vernizes do início, se por um lado talvez não sequem tão rapidamente, por outro começam a deteriora-se mais rapidamente até ficarem em duas camadas, como uma mousse deslaçada: no fundo fica a cor, numa camada mais espessa, e por cima, menos densa, uma água de cor desmaiada, transparente e melosa. Citando um escriturário da literatura, “preferia não o fazer”.