Quando José Sócrates e Carlos Santos Silva foram colocados sob escuta no verão de 2013, não havia suspeitas de que existisse transporte de numerário diretamente para o ex-primeiro-ministro. Existiam indícios de que Santos Silva era um alegado testa-de-ferro de Sócrates, que tinha comprado dois imóveis a Maria Adelaide Monteiro (mãe do ex-primeiro-ministro) no valor de 775 mil euros (sendo que Sócrates recebeu da mãe 520 mil euros) e que tinha adquirido o já famoso apartamento parisiense do ex-líder do PS por cerca valor de 3 milhões de euros.

O único indício que apontava para uma circulação de dinheiro vivo baseava-se na análise das contas bancárias de Carlos Santos Silva no BES que indicava claramente o levantamento de 401 mil euros em numerário entre dezembro de 2010 e maio de 2013. Tais levantamentos de dinheiro vivo só se iniciaram após Santos Silva ter repatriado cerca de 23 milhões de euros depositados na Union de Banques Suisses (UBS), em Genebra, ao abrigo da Regime Excecional de Regularização Tributária. Foi com base nesse facto que os investigadores da Operação Marquês começaram a suspeitar que José Sócrates recebia, alegadamente, envelopes com dinheiro que tinham origem nas contas bancárias de Carlos Santos Silva no BES.

Quando avançou para a detenção de Sócrates, de Santos Silva e de outros arguidos em novembro de 2014, o procurador Rosário Teixeira não tinha dúvidas de que o valor levantado das contas do empresário amigo de Sócrates era ainda mais surpreendente: mais de 1,1 milhões de euros em dinheiro vivo entre 2011 e 2014. Isto sem contar com o dinheiro que estava contido em envelopes em diversos cofres que foram apreendidos entre 19 e 21 de novembro de 2014.

João Perna, o motorista de José Sócrates, tinha um papel essencial na distribuição do dinheiro vivo – que na linguagem que era utilizada entre os arguidos, nomeadamente entre Sócrates e Santos Silva, era apelidado de “fotocópias” ou de “documentos”. Perna, contudo, não era o único.

(Nota: cada bloco de infografias tem quatro ou cinco imagens. Clique nas setas para avançar ou recuar as imagens e recorra à legenda para interpretar corretamente a forma como o dinheiro circulava)

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O dinheiro entregue por Carlos Santos Silva ao motorista de José Sócrates tanto servia para gastar mais de três mil euros em telemóveis nas vésperas do Natal para o ex-primeiro-ministro oferecer a amigos, como poderia servir para pagar o salário à secretária ou entregar envelopes com dinheiro a amigas de Sócrates.

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Inês do Rosário, mulher de Carlos Santos Silva, e Gonçalo Ferreira, advogado que trabalhava para o amigo de José Sócrates, também faziam, segundo o Ministério Público, entregas de dinheiro vivo ao principal arguido da Operação Marquês. Durante as férias, como aquelas passadas em Formentera (Espanha), Santos Silva e a mulher não só fizeram companhia a Sócrates como pagaram todas as despesas.

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As quantidades de dinheiro que, de acordo com a investigação, eram pedidas por José Sócrates, atingiam montantes significativos em cada entrega. Os montantes máximos variavam entre os cinco mil e os 10 mil euros de cada vez. O destino desses fundos não variava muito. Além de despesas pessoais de Sócrates, este também dava regularmente montantes significativos a pessoas das suas relações, de quem era próximo e que lhe pediam dinheiro.

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