Os italianos adoram batizar tudo o que é escândalo com um nome. É mais tradição do que mania e já deviam estar com o biscottone na ponta da língua antes de o Grande Prémio de Valência arrancar. Traduzido tintim por tintim, a palavra significa “grande biscoito” e até costuma ser mais utilizada quando há homens aos chutos a uma bola e não quando vários estão a acelerar sentados em motas com 1000cc de cilindrada.

Biscottone é o termo do qual os transalpinos se recordam sempre que há suspeitas de resultados combinados no futebol. Desta vez usaram-no assim que Jorge Lorenzo, espanhol, conquistou o título mundial do MotoGP e não deixou que fosse Valentino Rossi, italiano, a fazê-lo. Aqui o biscoito saiu do pacote e isto explica-se pelas bolachas que se comeram antes do Grande Prémio de Valência.

Land down under, onde tudo começou

“Tenho de ser cauteloso. Estou bastante chateado. Não estava à espera que o Márquez fosse um obstáculo neste campeonato, pensava que estava apenas a lutar contra o Jorge, como deveria ser.”

Valentino Rossi, 36 anos, resolveu desabafar dias depois do Grande Prémio da Austrália. Há meses que andava a reparar em Marc Márquez, 22 anos, e na forma, dizia ele, como o piloto da Honda o estava a prejudicar na luta pelo título. O italiano queixava-se que nos últimos tempos o espanhol estava preocupado em colar-se a Rossi nas corridas para lhe abrandar o ritmo. “Se tivermos outra corrida como a de Phillip Island temos de falar com ele”, sugeriu o “Doutor”, como é apelidado, após uma corrida que Márquez venceu graças a uma ultrapassagem a Jorge Lorenzo na última volta.

VALENCIA, SPAIN - NOVEMBER 07: Marc Marquez of Spain and Repsol Honda Team celebrates at the end of the qualifying practice during the MotoGP of Valencia - Qualifying at Ricardo Tormo Circuit on November 7, 2015 in Valencia, Spain. (Photo by Mirco Lazzari gp/Getty Images)

Esta é Marc Márquez, o piloto espanhol a quem Valentino Rossi acusa de lhe ter feito a vida negra. Foto: Mirco Lazzari gp/Getty Images

Lorenzo é espanhol, tem 28 anos e é companheiro de equipa de Rossi na Movistar Yamaha. Acaba esse Grande Prémio na segunda posição e Márquez impede-o de colher cinco pontos na luta pelo título do MotoGP. “Se de facto o quisesse ajudar não o teria ultrapassado na última volta e ido ao limite, corrido aquele risco”, justifica Marc, algo incrédulo com o queixume de Rossi. Nesta altura, com duas corridas por realizar, o campeonato estava assim: Rossi em primeiro (299 pontos), Lorenzo em segundo (290) e Márquez em terceiro (222). Só um espanhol podia chegar ao título e impedir que Valentino Rossi conquistasse o seu décimo.

Malásia, onde o caldo entornou

O MotoGP chegou à Malásia quente, quase a escaldar como o forno que cozinha uns biscoitos. A corrida era das decisivas e outra vez se viu Marc Márquez colado a Valentino Rossi. O espanhol e o italiano aceleravam pelo terceiro lugar enquanto Jorge Lorenzo já ia longe, a liderar a corrida e com Dani Pedrosa a fazer-lhe sombra. Até que na 13.ª curva da sexta volta à pista Márquez ultrapassa Rossi por dentro. O italiano devolve a gentileza na curva seguinte e, empurrando o espanhol para uma trajetória mais larga, travando a mota e obrigado Márquez a abrandar também.

É aí que a Honda do espanhol cai e o tira da corrida. Fica a sensação que Valentino lhe dá um pontapé. “É claro nas filmagens do helicóptero que não o queria fazer cair. Apenas queria fazê-lo perder tempo, ir por fora da linha e abrandar”, argumentou, ao justificar que o espanhol estava a “fazer um jogo ainda mais sujo do que fizera na Austrália”. Quanto ao pontapé, o Doutor italiano explicou que “o guiador esquerdo da mota de Márquez tocou no apoio de pé” da mota de Rossi, que “fez escorregar a perna”.

O transalpino que sempre correu com o número 46 chega a dizer que um pontapé “não chega para derrubar uma mota do MotoGP”, mas a organização não quer saber — retira-lhe três pontos da classificação e aplica-lhe um castigo. Valentino Rossi fica a saber que partirá no último lugar da grelha no Grande Prémio de Valência, derradeira corrida da época. Com a polémica e o castigo a tabela ficou assim: Rossi com 312 pontos, Lorenzo nos 305 e Márquez com os mesmos 222. 

Valência, onde o biscottone apareceu

Jorge Lorenzo agarrou-se à pole position e dificultou a vida a Valentino Rossi, que mesmo assim bem fez pela vida. Antes da corrida não há vivalma em Espanha que não fale da polémica que embrulha a corrida. Até a avó de Marc Márquez diz o que pensa aos jornais — “Eram grandes amigos [o espanhol e o italiano], não entendo porque lhe fez aquele truque sujo. O meu neto tinha Rossi como um Deus” — e a imprensa italiana até chega a noticiar que existe um pacto entre Marc e Lorenzo para que seja um espanhol a vencer o título, que é como quem diz, para não ser Rossi a ganhá-lo.

Mesmo assim, o italiano consegue ultrapassar 10 pilotos logo na primeira volta e, quando faltam 12 para a corrida terminar, já estava no quarto lugar. O problema é que não conseguiu alcançar mais ninguém e o espanhol foi-se mantendo na liderança da corrida — o transalpino, neste caso, teria de terminar na segunda posição para ser campeão mundial. Mas nada feito e Jorge Lorenzo conquistou assim o terceiro título da carreira.

Movistar Yamaha's Spanish rider Jorge Lorenzo celebrates on the podium winning the race and the 2015 MotoGP world championship tiltle after the MotoGP motorcycling race at the Valencia Grand Prix at Ricardo Tormo racetrack in Cheste, near Valencia on November 8, 2015. AFP PHOTO / JAVIER SORIANO (Photo credit should read JAVIER SORIANO/AFP/Getty Images)

Jorge Lorenzo festejou em Valência a conquista do terceiro título do MotoGP. Foto: JAVIER SORIANO/AFP/Getty Images

A corrida acaba e Rossi nem aparece na conferência de imprensa. Está fulo e faz questão de o mostrar pouco depois. “Na Austrália, o Márquez não quis que vencesse o Mundial. O Marc fez de guarda-costas de Lorenzo, é uma vergonha para a modalidade. E surpreende-me a predisposição da Honda em ajudar um piloto da Yamaha”, critica, ao tocar no assunto que ainda não tínhamos referido: além de toda esta confusão, Jorge Lorenzo é companheiro de equipa de Valentino Rossi na Movistar Yamaha. “Estou chateado com o Jorge devido à maneira como se portou desde Sepang [circuito do Grande Prémio da Malásia]. Ganhou o título em pista, mas fora dela podia ter sido mais inteligente e lidar com esta situação sem comentários. Sempre que falou foi verdadeiramente estúpido”. 

As declarações acentuaram os dois efeitos que esta polémica já tinha causado — os jornais espanhóis a apoiarem Lorenzo e Márquez e a imprensa italiana do lado de Rossi, embora no domingo, em Valência, o público da casa o tenha assobiado várias vezes o agora campeão mundial. É o que dá bater o pé a um dos maiores ídolos do motociclismo, de quem até se diz que Marc Márquez, em criança, tinha um poste colado na parede do quarto. Verdade ou não, isso não impediu que o Corriere dello Sport imprimisse a capa da edição desta segunda-feira com um “Biscottone” bem visível.