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Abdelhamid Abaaoud está morto. O alegado cérebro dos atentados em Paris foi abatido durante a madrugada de quarta-feira na sequência da operação da polícia francesa em Saint-Denis. Apesar de, aparentemente, não ter participado fisicamente nos ataques, Abaaoud foi desde o início apontado como o mentor dos atentados, o estratega responsável por planear a barbárie. Inicialmente não se sabia se o tinha feito a partir da Síria ou da Bélgica. Mas a polícia francesa recebeu informações de que ele estaria no apartamento dos arredores parisienses a planear lançar mais ataques. Estava certa. O corpo do terrorista foi identificado: estava no meio dos escombros, o corpo cravejado de muitas das 5 mil balas disparadas pelas autoridades.

Tinha 28 anos e nasceu na Bélgica. Vivia em Molenbeek, um bairro que fica próximo do centro histórico de Bruxelas, apontado como uma incubadora de terroristas. Os seus pais ainda lá estão. Foi a este bairro, aliás, que a polícia belga fez uma rusga na passada segunda-feira já no rasto destes radicais. 

Abaaoud era amigo de infância dos irmãos Abdeslam, que também participaram nos massacres de Paris. Salah, o terrorista que ainda está a monte, era dos seus amigos mais próximos. Ibrahim fez-se explodir nos atentados. Esteve também envolvido, juntamente com os irmãos Salah e Ibrahim, noutros crimes de menor importância, na Bélgica, em 2010 e em 2011. Viveram todos em Molenbeek, onde o pai de Abaaoud terá uma loja de roupa na rua principal, algo só possível a famílias mais abastadas. Os pais partiram para a Bélgica há 40 anos: “Sinto vergonha do meu filho. Por que, em nome de Deus, quer matar belgas inocentes? A nossa família deve tudo a este país”, desabafou Omar Abaaoud, o pai, em janeiro deste ano, ao jornal belga La Dernière Heure. A irmã, Yasmina, demonstrou o desespero de outra forma: “Rezamos para que ele esteja mesmo morto”.

Abaaoud era conhecido por Abu Omar Susi, um nome comum em Marrocos, de onde a sua família é natural. A mãe terá abandonado Molenbeek, destroçada, para regressar às origens. Havia também quem o tratasse por Abu Omar al Baljiki, que é o mesmo que Abu Omar ‘o belga’: “Era um menino estúpido, assediava colegas e professores e roubava carteiras”, atirou um ex-colega do terrorista, ao jornal. Terá estudado num colégio, o Saint-Pierre d’Uccle, no sul de Bruxelas, considerado um dos melhores da zona e onde o pai fez questão que fosse educado: “Tínhamos uma vida muito boa, uma vida fantástica. Abdelhamid não era uma criança difícil e era um bom comerciante. Mas, de repente, ele foi para a Síria. Nunca recebi qualquer resposta”, disse o vendedor de roupa.

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Abdelhamid Abaaoud juntou-se ao Estado Islâmico depois de viajar para a Síria, entre 2013 e 2014. Consigo, levou o irmão de 13 anos. Yunis ficou conhecido como o jihadista mais jovem (vindo da Europa) a integrar uma brigada do grupo terrorista. O pai nunca o perdoou. Era o recrutador de milhares de jovens jihadistas. Em julho do ano passado, o Tribunal belga condenou-o a 20 anos de prisão, acusado disso mesmo: recrutar jovens belgas para o EI. Mais uma vez, Abaaoud virou as costas à justiça e não compareceu em tribunal.

De acordo com o The Telegraph, tentou recrutar também várias pessoas em Espanha, sobretudo mulheres. As revelações foram proferidas pelo ministro do Interior espanhol Jorge Fernandez Diaz, que sublinhou que o principal objetivo não era o de planear ataques em solo espanhol, mas sim “repovoar o Califado”. Em 2015, a polícia espanhola deteve mesmo várias mulheres, sob suspeita de estarem a recrutar adolescentes para integrarem o grupo terrorista orientadas por Abaaoud.

A partir de um vídeo partilhado pelo Estado Islâmico nas redes sociais, em março de 2014, pode traçar-se-lhe um perfil psicológico perturbador: Abaaoud arrasta dezenas de corpos de vítimas sírias amarradas a uma carrinha. Vai ao volante visivelmente contente, assim como quem o filma. Há um homem sentado na caixa aberta da carrinha, olhando os corpos. No final do vídeo, aparece outro com um lenço a tapar a face por causa do cheiro nauseabundo dos corpos sem vida. Todos riem e parecem dizer piadas. As imagens são chocantes.

O terrorista não terá participado fisicamente nos ataques da última sexta-feira em Paris, mas será o autor do plano sanguinário. O cabecilha tinha subido na hierarquia do Estado Islâmico e seria próximo de Abu Bakr al-Baghdadi, o líder do ISIS. Estava na mira das secretas europeias há mais de um ano: suspeitava-se que, estando na Síria, organizava várias ações terroristas na Europa. As autoridades acreditam que desempenhava um cargo essencial nos serviços de espionagem do EI. Conseguia sempre escapar. O The Wall Street Journal conta que estaria a ser vigiado por forças de segurança francesas que planeavam exterminá-lo através de um ataque aéreo em Raqqa, na Síria. Perderam-lhe o rasto poucas semanas antes do atentado de Paris. Este ano, foi identificado como comandante de um grupo que, desconfiam os investigadores, se preparava para atacar a polícia belga em janeiro.

As autoridades belgas identificaram-no, inicialmente, como o canal que ligava os radicais islâmicos na Bélgica à célula terrorista do Estado Islâmico na Síria e no Iraque, na sequência de uma intervenção que deixou dois homens, alegados terroristas, mortos em Verviers, na Bélgica, a 15 de janeiro deste ano. O atentado à redação do Charlie Hebdo tinha acontecido dias antes. Nessa operação, os comandos belgas lançaram raides sobre algumas casas em Verviers: morreram aqueles dois homens e 13 pessoas foram detidas. As forças de segurança encontraram, nessas residências, armas automáticas e químicos – como o TATP, um explosivo utilizado pelos bombistas suicidas nos ataques em Paris. Mas o jihadista Abaaoud tinha conseguido escapar novamente. A imprensa belga escreveu que chegou a ser localizado na Grécia, de onde se comunicaria com os dois alegados terroristas mortos em Verviers, mas a polícia não conseguiu agarrar o homem na operação que desencadeou em Atenas: “Consegui sair e voltar a El Sham [que em árabe significa Grande Síria, ou a sua capital Damasco], apesar de estar a ser perseguido por tantas agências europeias. O meu nome e fotografia estão em todas as notícias e mesmo assim consegui ficar nas suas terras, planeando operações contra eles”, disse à época, de acordo com a revista do ISIS.

As autoridades francesas e belgas suspeitam que Abaadoud estará ligado a outros ataques ocorridos em território europeu. Como o do TGV, na rota entre Amesterdão e Paris, em agosto. A ação terrorista ao comboio de alta velocidade terá sido comandada pelo marroquino Ayoub El Khazzani, que acabou por ser detido. O terrorista estava armado com uma kalashnikov, com uma pistola automática e com uma faca. Dois passageiros (entre eles um marine americano da base das Lajes) conseguiram neutralizar o atacante.

Abaadoud também teve ligações com Mehdi Nemmouche, com quem falou ao telefone em janeiro do ano passado. Nemmouche é o terrorista que atacou o Museu Judaico em Bruxelas a 24 de maio de 2014, onde quatro pessoas morreram.

No final da tarde desta quarta-feira, o The Washington Post avançou a notícia da sua morte, de acordo com duas fontes dos Serviços Secretos Europeus. A informação foi confirmada oficialmente, esta quinta-feira, pelo procurador de Paris, François Molins. O responsável pelas investigações do atentado de sexta-feira confirmou a morte do radical islâmico com base nas impressões digitais recolhidas.