A ida de Espanha a novas eleições é apenas uma questão de tempo. É assim, segundo os jornais El Mundo e El País, que os barões do PSOE pensam perante o impasse político que Espanha vive. Os socialistas, liderados por Pedro Sánchez, serão sempre necessários para qualquer solução de governo depois das eleições de 20 de dezembro terem resultado numa vitória por maioria simples ao PP, de Mariano Rajoy.

O PSOE tem duas maneiras de desbloquear a situação política. A primeira é virar-se para a direita, viabilizando um novo executivo de Rajoy, abstendo-se, juntamente com o Ciudadanos, na altura de votar o programa de governo. A segunda é entrar em negociações com o Podemos, que logo colocou como “linha vermelha” a realização de um referendo à independência da Catalunha, e outros partidos separatistas, como a Esquerda Republicana Catalã.

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O Podemos é indispensável ao PSOE, se este quiser governar à esquerda. Mas, em troca, exige um referendo na Catalunha (JUAN CARLOS CARDENAS/EPA)

O partido está, então, dividido. Como escreve o El Mundo, é o “PSOE histórico confrontado com o PSOE de um novo molde”. Isto é, respetivamente, o PSOE dos barões, entre eles líderes de governos regionais e vozes sonantes dentro do aparelho socialista espanhol; e o PSOE de Pedro Sánchez e da sua direção, que viram nos resultados de 20 de dezembro a possibilidade de formar uma “alternativa de esquerda e de progresso”.

Nos jornais de sábado, todos sob anonimato, os barões do PSOE continuam a demonstrar o mesmo ceticismo em relação a Sánchez que demonstraram logo após as eleições de 20 de dezembro — onde os socialistas conseguiram apenas 22% dos votos, chegando assim ao pior resultado da história do partido. Diz uma fonte entre os barões ao El Mundo que Sánchez está “enclausurado na sua vontade de se manter perto de seja o que for, mesmo correndo o risco de que o partido se desfaça”.

A perspetiva de um acordo com o Podemos e outros partidos pelo referendo da Catalunha, entre estes alguns separatistas, é também uma fonte de preocupação dentro de algumas esferas do PSOE. Na segunda-feira, após o Comité Federal do partido, ficou acordado, e sublinhado por Sánchez, que os socialistas não aceitarão negociar com quem insista na realização de um referendo. Mas, mesmo assim, há quem mantenha as mesmas dúvidas em relação às decisões de Sánchez. “Não podemos aceitar o apoio de partidos que te podem deixar formar governo mas que depois não te deixam governar”, disse ao El País outra fonte do partido, também sob anonimato.

Parlamento tem até 13 de março para evitar novas eleições

Será, então, tudo uma questão de tempo. O novo Congresso dos Deputados tomará posse a 13 de janeiro, dando início a uma nova realidade política — a que muitos têm chamado de “o fim do bipartidarismo”. Ditam as regras que o Rei proporá um nome para liderar o Governo. Embora não seja obrigatório, a tradição manda que seja o líder do partido mais votado, Mariano Rajoy, e o seu programa de governo, a submeter-se a votos naquela câmara.

A votação pode ter duas fases. Na primeira, só é formado governo se uma maioria absoluta do deputados votar favoravelmente — algo que certamente não acontecerá. Na segunda, basta uma maioria simples para haver Governo — o que, para já, também parece muito pouco provável.

Este processo pode repetir-se, com o mesmo líder político a ser proposto ao parlamento ou, se o Rei preferir, com um outro candidato a Presidente do Governo — neste caso, seria provavelmente Sánchez o escolhido, enquanto líder do segundo partido mais votado. Aí, voltam-se a aplicar as regras da votação anterior.

Não é um processo ad eternum. Ao todo, os parlamentares têm dois meses para chegarem a uma solução de governo. Assim, 13 de março é a data limite para o bloqueio político espanhol. E há quem no PSOE já só olhe para esta data — mesmo que Sánchez já tenha dito que novas eleições “são a última opção”.

Até porque, a confirmar-se este cenário de impasse nos próximos meses, a ala dos barões do PSOE parece já ter escolhido um nome para ascender à liderança dos socialistas: Susana Díaz.

JULIO MUNOZ/EPA

Susana Díaz é presidente do governo regional da Andaluzía. Teve de pactar com os Ciudadanos (depois de fechar a porta ao Podemos) para conseguir governar. (JULIO MUNOZ/EPA)

O nome da presidente do governo regional da Andaluzía já tem sido avançado como uma possibilidade para chegar ao lugar de secretário-geral do PSOE (ou, mais correto, secretária-geral, a primeira de sempre na história do partido), mas é agora, depois do pior resultado de sempre do partido, que esse cenário parece estar mais próximo.

Com um congresso previsto para março, ainda sem data definida, Díaz pode vir a assumir uma candidatura à liderança. “Este já é o seu momento”, disseram vários socialistas ao El Mundo.

No currículo, Díaz tem uma vitória por maioria simples nas eleições regionais da Andaluzía, em março. Também aí se formou uma situação de impasse político, que se arrastou ao longo de 79 dias depois de ter sido chumbado três vezes no parlamento. Nestes, Díaz entrou em conversações com todos os partidos que a poderiam ajudar a governar, entre estes o Podemos e o Ciudadanos. Por fim, escolheu o último.