Vamos partir de dois cenários.

Cenário número um. Há um ditado dito em inglês que diz “practice makes perfect”, o treino faz a perfeição. Mas além de tal coisa não existir no futebol, não seria a treinar por treinar que lá se chegaria. Não se pode pedir a quem corre atrás de uma bola e trabalha com outros dez homens para a fazer entrar numa baliza que, durante o jogo, se lembre de tudo o que andou a treinar nos dias antes. As coisas têm que lhe ser inatas, sair automáticas, reação contra reação, e há um basco que acredita que tudo isto se consegue através de duas formas: “O jogador aprende por repetição e por descoberta espontânea”. Ao treinador cabe inventar exercícios nos treinos que os habituem a lidar e a reagir a situações que possam acontecer nos jogos, mas não pode abusar — “Tentamos automatizar movimentos, mas a linha é muito delgada e se a ultrapassas podes matar a criatividade. O jogador não é uma PlayStation”.

Cenário número dois. O sono nem sempre tem a culpa, porque o fastio ou o aborrecimento também abrem bocas. Mas quando se vê um jogador a subir as escadas, a sair do túnel e pisar o relvado a bocejar, no regresso do balneário, nenhuma destas três causas é bom sinal. O problema é que, em Alvalade, viu-se um jogador regressar assim ao campo quando a derrota dos dragões com os leões ainda ia a meio. E por muito involuntário que um bocejo seja, o abre boca aconteceu depois de o tal jogar passar os 15 minutos de intervalo a ouvir o que o treinador tinha para falar com a equipa que estava a ser pior em quase tudo que o Sporting. Não é bom sinal.

O protagonista é o mesmo em ambos os cenários. É o espanhol que, em fevereiro do ano passado, deixou um jornalista do El País espreitar um treino do FC Porto e fazer-lhe umas perguntas no final. É o treinador que, há menos de uma semana, desbobinou instruções no balneário que pouco ou nenhum efeito tiveram no que os jogadores fizeram depois, no relvado. É Julen Lopetegui. E os dois cenários ajudam a descortinar o que correu bem e mal durante o ano e meio que o técnico passou a tomar conta dos dragões.

Porque esta época a equipa deu muitos e vários sinais de que o treinador passou a tal ténue linha que existe entre o lado robô e o criativo dos jogadores. A maneira como Lopetegui queria ver o FC Porto a tomar conta das partidas — a partir da bola, passando-a com fartura e tendo-a durante muito tempo para, com ela no pé, atrair as atenções dos adversários e decidir depois como aproveitar os espaços no relvado — passou a resultar menos esta temporada. À segunda jornada já estava a empatar (1-1) com o Marítimo (a única equipa que não conseguiu vencer em Portugal) e a equipa a mostrar os sinais que se viam até quando vencia: trocas de bola lentas, inúteis para aproveitar a largura que os dois extremos davam, falta de invenções para desmontar equipas que lhe davam a bola, sim, mas que se fechavam para fazer com que o FC Porto nada fizesse com ela.

I Liga: Sporting vs FC Porto

Foto: Filipe Amorim/Global Imagens

Esta temporada já não havia o músculo misturado com pés de lã de Jackson, que garantia um abono de pelo menos 20 golos por época; o risco e genialidade não domadas de Ricardo Quaresma (com quem Lopetegui se pegou); ou as aceleradelas das motas de Danilo e Alex Sandro nas laterais, que resolviam na profundidade quando a equipa não atinava pelo centro do campo. Deixou de haver gente que inventasse algo com a bola no pé para quebrar a mecânica de uma equipa que, muitas vezes, passou a ter a bola só por ter. Não chegava ter os rodopios e fintas-serpente de Brahimi quando o argelino, a cada jogo que passava, os ia fazendo cada vez mais longe da área contrária. Os dragões pareceram ficar robotizados numa ideia de tiki-taka que, com o tempo, mostrou o defeito que mais fez Pep Guardiola odiar o termo que colaram à forma como, entre 2008 e 2013, pôs o Barcelona a jogar — ter a bola só por ter.

Mas enquanto não caiu neste marasmo, o FC Porto de Lopetegui foi capaz de coisas que deram destaque extra aos pontos altos que o treinador conseguiu atingir no clube. O 3-1 com que, na época passada, surpreendeu o Bayern de Munique de Pep nos quartos-de-final da Liga dos Campeões, mostrou como pressionar o adversário perto da sua área e aproveitar com rapidez os segundos após o roubo de bola dá frutos. Tal e qual o 2-1 com que venceu o Chelsea de José Mourinho, esta temporada, revelou que trocar a bola rápido e com intensidade baralha qualquer um. Pitadas destas qualidades viram-se ainda no 3-0 com que recebeu o Sporting no campeonato, também em 2014/15, ou no 1-0 que impôs já esta época ao Benfica de Rui Vitória.

O mal de Julen Lopetegui, e o problema para os dragões, foi que o treinador inventou quando não devia. Confiou que uma goleada ao BATE Borisov era suficiente para insistir em dois avançados (Adrián ao lado de Jackson) em vez de dois extremos e, no jogo seguinte, foi eliminado da Taça de Portugal em casa, pelo Sporting. E achou que três centrais e cinco defesas em Londres seria o método para contrariar o Chelsea, quando tinha de vencer na última jornada da fase de grupos para seguir na Champions. Nos entretantos, o basco optou sempre por experimentar muitos onzes distintos e rodar os jogadores (sobretudo a meio campo) — antes do terceiro mês da época passada já estava a ser criticado pela matutina rotatividade. Assim, a parte de se entenderem uns com os outros e de jogarem de olhos fechados, como os jogadores tanto dizem, ficava mais difícil.

Daí que hoje, entre Danilo, Rúben Neves, Imbula, André André, Evandro e Hector Herrera, seja difícil dizer quem é quem entre os que são titulares e os que se sentam no banco.

I Liga: Sporting vs FC Porto

Foto: Filipe Amorim/Global Imagens

Mas Lopetegui também fez coisas boas e a primeira foi Rúben Neves. O basco, campeão europeu a treinar os sub-21 espanhóis, apostou num miúdo que era júnior, fê-lo titular à primeira jornada do campeonato passado (até marcou um golo), tornou-o esta época no mais jovem capitão da história do FC Porto e deu-lhe degraus e minutos estáveis para ir crescendo (foi o quarto que mais jogos fez com Lopetegui). Foi dele a principal voz que convenceu Iker Casillas a escolher os dragões quando o guarda-redes assinou os papéis do divórcio com o Real Madrid. E foi capaz de aproveitar os milhões de euros portistas para contratar nomes que é bom sinal estarem, ou terem estado, a jogar à bola em Portugal: Yacine Brahimi, Óliver Torres, Christian Tello ou Casemiro.

Devido a estes e outros nomes é que o FC Porto partiu para a última temporada e para a atual com o plantel mais recheado entre os três grandes. O outro lado da medalha mostra que foi o único, porém, que neste ano e meio não tocou em troféus. Depois há o facto de Julen Lopetegui não ter conseguido ser superior no confronto com o Benfica (uma vitória, um empate e uma derrota) ou o Sporting (uma vitória, um empate e duas derrotas) e de apenas ter conseguido ser líder isolado em uma das 70 jornadas em que competiu no campeonato. “Queremos ser protagonistas”, disse o treinador, muitas e várias vezes, quando falava perante os jornalistas antes dos jogos.

A verdade é que foi raro os dragões serem-no durante a época e meia com Lopetegui. E quando os adeptos assobiam, os jogadores ficam desanimados ou quem manda no clube não gosta dos resultados, o protagonista do insucesso é sempre o mesmo. E o primeiro a sofrer com isso.