“Eu já não sei fazer discursos. Já não faço discursos há muito tempo”, admitia no domingo Almeida Santos, um homem que levou a vida a parar congressos inteiros para o ouvirem. “Não diga isso”, incentivava Maria de Belém, sorriso de admiração e de respeito estampado no rosto. O histórico socialista e ex-Presidente da Assembleia da República começava assim aquela que viria a ser a sua última intervenção em público, perante algumas dezenas de apoiantes de Maria de Belém. Morreu esta madrugada, aos 89 anos, depois de se ter sentido indisposto no final do jantar.

Visivelmente engripado e até algo cansado, Almeida Santos falou das memórias que estava a escrever sobre Moçambique, ele que teve um papel determinante na descolonização desse território. Memórias que até já deviam ter sido publicadas, lamentava. Mas a vida tem isto de adiar o inadiável. E de pregar partidas.

Mas falou sobretudo de Maria de Belém, da “querida amiga” Maria de Belém. Almeida Santos estava ali – ali, no almoço-comício da candidata na Figueira da Foz – para prestar uma “homenagem muito sincera” à figura que “revolucionou as candidaturas das mulheres portuguesas à Presidência da República”. E para demonstrar o seu apoio inequívoco. “Não hesitei um minuto em apoiar Maria de Belém”.

“A política”, dizia Almeida Santos, “ainda não tomou consciência do que deve à mulher portuguesa”. Mas, depois do ato de “coragem” de Maria de Belém,  o “número de candidatas femininas à Presidência da República será pelo menos tão grande quando os candidatos masculinos”, vaticinou.

A terminar, deixava uma garantia: “Não será a última vez que me ouvireis. A próxima vez que a Maria de Belém se candidatar eu cá estarei com ela, porque nessa altura já vai ser muito difícil derrotá-la, lembrem-se do que eu vou digo hoje: se não ganhar desta vez, não sei se ganha ou não, da próxima vez ganha ela”.

Mas já não vai estar. A voz calou-se para sempre. O discurso terminava com um abraço sentido e prolongado entre Almeida Santos e Maria de Belém, acompanhado por uma longa salva de palmas. A última que o histórico socialista viria a ouvir.