O Banco Central Europeu (BCE) admite que “pode ser necessário reconsiderar” em março a política monetária que está a ser seguida, deixando implícito que poderá haver um reforço dos estímulos monetários. Mario Draghi diz que o início de 2016 está a ser marcado por instabilidade nos mercados financeiros e uma incerteza quanto às economias globais, o que contribui para que se preveja uma taxa de inflação “muito baixa, mesmo negativa” na zona euro nos próximos meses.

“Os riscos negativos voltaram a aumentar, num contexto de crescimento da incerteza face ao crescimento das economias emergentes”, afirmou Mario Draghi esta quinta-feira, e as expectativas de inflação – que o BCE quer estimular – estão “cada vez mais correlacionadas com [a queda dos] preços do petróleo”. Depois da deceção com que a última reunião do BCE foi recebida nos mercados, em dezembro, desta feita o BCE reconhece que pode ser necessário fazer mais para evitar um período de deflação na zona euro.

A taxa de juro da dívida portuguesa aliviou para os 3,03% a 10 anos e o euro está a derrapar para os mínimos do dia, com as palavras de Mario Draghi na conferência de imprensa que decorre após a reunião dos governadores do BCE. Tipicamente, uma perspetiva de reforço dos estímulos monetários provoca uma redução do valor da divisa em causa. E, por outro lado, os juros da dívida tendem a baixar se se acreditar que o BCE irá estar mais ativo no mercado a comprar esses mesmos títulos.

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A declaração surpreende porque ainda há poucos dias vários membros do Conselho de Governadores do BCE tinham dito que não estavam na calha novas medidas de estímulo no horizonte próximo. Draghi indicou que a mensagem transmitida esta quinta-feira foi “unânime”.

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“O BCE tem muitos instrumentos ao dispor. Não deve haver quaisquer dúvidas sobre isso”, afirmou Mario Draghi, que afirmou que não foram discutidos na reunião de política monetária desta quinta-feira instrumentos “específicos”. Algumas das possibilidades admitidas pelos analistas incluem o reforço do montante gasto mensalmente em compras de dívida, atualmente em 60 mil milhões de euros.

Mario Draghi garante que “o BCE não irá render-se” e está “comprometido com o seu mandato, em circunstâncias difíceis”, afirmou o italiano, numa referência às forças que estão a pressionar em baixa a inflação na zona euro – nomeadamente a queda dos preços do petróleo.

O BCE incluiu há cerca de um ano títulos de dívida pública no programa de estímulos monetários, que injeta 60 mil milhões de euros por mês no sistema financeiro. O programa foi, entretanto, prolongado até março de 2017, mas o BCE reconhece que as medidas atuais podem não ser suficientes para elevar a taxa de inflação para perto de 2%, como prevê o objetivo do banco central.

Mario Draghi não deixou, contudo, de sublinhar a importância de os líderes políticos reforçarem as “reformas estruturais promotoras de crescimento económico” a prazo e de forma sustentável.

BCE recusa responsabilidades no Novo Banco

Mario Draghi e Vítor Constâncio, os protagonistas da conferência de imprensa, estavam à espera de uma pergunta sobre o Novo Banco e a decisão de passar algumas obrigações senior do banco de novo para o BES. Não tiveram de esperar muito, porque foi a primeira pergunta que lhe foi feita pelos jornalistas.

Na resposta, Draghi asseverou que “o BCE não é a autoridade de resolução no caso do Novo Banco”, mas passou a palavra a Vítor Constâncio, vice-presidente do BCE. Constâncio afirmou: “Já dissemos que o BCE não teve qualquer interferência nas decisões sobre o Novo Banco. Daqui para a frente, há uma autoridade de resolução única e futuros acontecimentos serão geridos por esta autoridade e, no caso de bancos mais pequenos, pelos bancos centrais nacionais”.

“Não cabe ao BCE e ao SSM [Mecanismo Único de Supervisão, sob a alçada do BCE] implementar as regras do bail-in“, acrescentou Vítor Constâncio.