O primeiro-ministro britânico, David Cameron, está em Bruxelas em contactos com as autoridades europeias para preparar a cimeira de chefes de Estado que vai avaliar o reforço das decisões tomadas em Londres, de forma a evitar uma saída da União Europeia (UE).

O encontro ao mais alto nível realiza-se quinta e sexta-feira e os seus resultados estão a ser vistos como decisivos para o sentido de voto no referendo que vai decidir se o Reino Unido fica na UE. Referendo que deverá acontecer em junho e cujos resultados são incertos.

O presidente da Comissão Europeia já deixou a garantia de que a instituição não está a trabalhar num plano B, porque não há um plano B para evitar o chamado Brexit (a saída do Reino Unido da UE).

“Não vou entrar em detalhes sobre um Plano B porque não temos um Plano B, temos um plano A — o Reino Unido vai ficar na União Europeia como um membro ativo e construtivo”, sublinhou Jean-Claude Juncker.

A mesma tese foi repetida pelos responsáveis europeus quando estava em cima da mesa a saída da Grécia da zona euro.

Do presidente do Parlamento Europeu, Cameron recebeu o compromisso de que a assembleia fará o possível para apoiar um acordo justo para as reformas da União Europeia, pretendidas pelas autoridades inglesas. Martin Shulz procurou acalmar os alertas de que os legisladores europeus podem vetar o pacote de reformas, já depois do referendo britânico, caso este venha a exigir a mudança dos tratados da União Europeia. No entanto, o presidente do Parlamento não se comprometeu com reformas que vão além do que está previsto nos tratados.

“O Parlamento Europeu fará o maior esforço para suportar um compromisso e um acordo justo, mas não posso antecipar o resultado” das discussões dos legisladores, adiantou Shulz depois de se ter encontrado com David Cameron. “Para ser claro, nenhum governo pode ir a um Parlamento e dizer: esta é a nossa proposta, podem-nos dar uma garantia quanto ao resultado?“, afirmou Martin Shulz.

Entre as medidas exigidas por Londres está a limitação das prestações da Segurança Social aos trabalhadores da União Europeia que chegam ao Reino Unido. O país é um dos mais procurados por migrantes da UE para trabalhar, sendo neste momento o primeiro destino para os emigrantes portugueses. E este será um tema sensível sobretudo nos países europeus do Leste, admitiu o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk.

As reservas francesas

Donald Tusk reconhece que as negociações ainda são frágeis. Há vários obstáculos no caminho em particular na área da segurança social e nas relações entre os países do euro e o coração do sistema financeiro britânico, a City de Londres. E aqui há que contar com as reservas do lado francês. Cameron já se encontrou com François Hollande na segunda-feira, mas a conversa não permitiu ultrapassar as principais divergências.

Convencer os franceses a permitir a atribuição de mais isenções ao setor financeiro do Reino Unido no quadro do reforço da União Europeia tem-se revelado um dos maiores obstáculos nas negociações conduzidas pelo primeiro-ministro britânico. Em declarações à rádio francesa RMC, o ministro das Finanças francês, Michel Sapin, deu voz às reservas gaulesas, ao defender que a zona euro deve ficar livre para avançar na integração financeira, independentemente das negociações com o Reino Unido.

“Com 28 membros, temos um mercado único onde os produtos (incluindo os financeiros) podem circular livremente, sem que existam regras para uns e regras para outros. (…) “Estou muito ligado a este mercado único, mesmo quando estamos a falar de serviços financeiros”.

O Brexit colocaria em risco 466 mil milhões de libras (600 mil milhões de euros) em comércio e operações financeiras entre o Reino Unido e a União Europeia, segundo um relatório publicado esta terça-feira pelo Centre for Economic and Business Research.