Perante a originalidade do conceito do Rice Me — um novíssimo restaurante/cafetaria cuja oferta alimentar gira, exclusivamente, em volta do arroz –, seria expectável que na sua origem estivesse uma história, no mínimo, inspiradora. “Na verdade, o que aconteceu é bastante simples, tenho que inventar qualquer coisa melhor que a realidade”, brinca Renata Militão, a responsável pelo espaço.

Há sete anos, estava com a minha família em Nova Iorque, de férias, quando vimos um espaço dedicado apenas a rice pudding, [parente muito próximo do arroz doce] que funcionava numa lógica de gelataria, com vários sabores. Pensámos logo que aquilo podia funcionar aqui. Na altura, ainda tentámos saber como é que seria para trazer o negócio para cá, mas como não tínhamos estrutura, nem experiência, a ideia ficou a amadurecer.”

E ficou a amadurecer durante bastante tempo. Renata fez o seu percurso profissional na área da comunicação e publicidade, primeiro, e consultoria, depois. Em 2014, numa altura em que dava aulas na Faculdade de Economia do Porto, decidiu, por incentivo dos pais, recuperar a intenção de avançar com o seu próprio negócio. Voltou a pensar na loja de Nova Iorque, mas a ideia já não soava tão atrativa.

“Nessa altura, percebi que o arroz doce, por ser um complemento à refeição, seria limitativo”, conta Renata. Assim, começou a investigar e a perceber a verdadeira dimensão do mundo do arroz. “Não temos noção da versatilidade do arroz. Quando estava a testar o conceito, as pessoas diziam-me: ‘vai ser preciso gostar muito de arroz’. Mas não demoravam muito a perceber que arroz não é só arroz.”

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O Rice Me abriu dia 10 de fevereiro. Fica em São Sebastião, perto do El Corte Inglés.
(foto: © Tiago Pais / Observador)

Se arroz não é só arroz, é o quê?

Para começar, é um cereal. E por ser um cereal tem inúmeras aplicações, todas elas exploradas nas várias ementas do Rice Me. Renata enumera-as: “Usamos a farinha de arroz para os bolos, para os wraps e para o pão, fazemos receitas com massa de arroz, e com vários arrozes, temos saké e gin destilado a partir de arroz. Somos um espaço mono temático mas não somos mono produto”.

Assim, a versatilidade do chamado grão da felicidade — “porque resiste às intempéries e impediu muita gente de morrer à fome”, conta Renata — permite que o Rice Me funcione em horário alargado, com vários propósitos. Ao almoço, por exemplo, com opção de menu executivo (prato e bebida por 9,90€), é possível provar os pratos da semana, que podem ser mais ou menos clássicos: se há arroz de bacalhau (quarta) e cabidela (sexta), também há noodles de arroz com carne de porco caramelizada (terça) ou caril verde com arroz basmati (quinta).

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O arroz nero di seppia, com choco, uma das opções do menu “arroz arroz”.
(foto: © Tiago Pais / Observador)

Quem preferir uma refeição mais leve, pode combinar, por exemplo, uma das entradas de influência oriental (gyosas ou dim sum de arroz, ambas a 3,50€) com as sopas, da canja (2€) à sopa do mar com massa de arroz (2,70€).

Se a fome apertar, há outras opções mais substanciais, seja um arroz de pato (8€), que Renata considerava “obrigatório ter”, um arroz nero di seppia com choco (9,90€) ou até várias propostas vegetarianas, como o risotto de cogumelos portobello e espargos (8,60€) ou o vermicelli de arroz em crepe de vegetais com arroz vermelho (7,40€), entre outros.

As sobremesas recuperam, claro, o grande culpado de tudo isto, o arroz-doce, seja na receita clássica (2,70€) ou à moda da casa, com coulis de maçã, frutos vermelhos ou ganache de chocolate (2,95€, cada). E até os profiteroles (3,55€), cuja massa é mais leve que o habitual (culpa da farinha de arroz) são recheados com chantili de arroz doce.

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A massa dos profiteroles é feita com farinha de arroz, o que os torna mais leves que o habitual. O recheio também envolve o cereal: chantili de arroz-doce.
(foto: © Tiago Pais / Observador)

Os pequenos-almoços arrancam apenas no início de março mas já é possível, por exemplo, beber um galão (com leite de arroz) e comer um bolo de arroz (1,20€) de fabrico próprio (com direito ao embrulho clássico) a meio da tarde. E quem diz um bolo de arroz diz crepes, panquecas ou scones, servidos com geleia de — quem adivinha? — arroz.

Segundo os responsáveis, o take-away é possível em quase todos os pratos, exceto naqueles que envolvem massa de arroz. Mas o espaço, justiça lhe seja feita, convida a ficar. Apesar da aparente simplicidade, em tons claros e linhas simples, não foi um parto fácil. “Queria uma coisa leve, despretensiosa e orgânica, mas tive de mudar três vezes de arquiteto até chegar a este resultado”, recorda Renata, que conclui: “A grande dificuldade estava em fazer uma coisa diferente de tudo o resto”. Nesse aspeto, missão cumprida. Com arroz e distinção.

Nome: Rice Me
Morada: Rua Carlos Testa, 18A (São Sebastião), Lisboa
Telefone: 91 477 0741
Horário: De segunda a sábado, das 12h às 00h. A partir de março, com o início dos pequenos-almoços, o horário estende-se: das 07h30 às 00h.
Site: riceme.pt