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Luís Portela, presidente não executivo da farmacêutica Bial, Manuel Vilarinho, empresário e ex-presidente do Benfica, e Ilídio Pinho, industrial do Norte, estão entre os nomes portugueses mais sonantes envolvidos no caso Panama Papers, segundo revelam o Expresso e a TVI, os media portugueses que fazem parte do consórcio internacional que investiga o escândalo. No total, serão 240 as figuras nacionais que surgem nos documentos como clientes da empresa de advogados do Panamá especializada em offshores.

O Expresso diz ainda, na sua primeira página, que o ‘saco azul’ do GES, as contas paralelas do grupo gerido na altura por Ricardo Salgado, surge também nos documentos agora revelados pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ). Este ‘saco azul’ do GES assentaria em 300 offshores, e, diz o semanário, pela Espírito Santo (ES) Enterprises terão passado mais de 300 milhões de euros em 21 anos.

A ES Enterprises está identificada como o ‘saco azul’ do GES desde 2014 e está no radar do Ministério Público desde o início das investigação ao universo Espírito Santo. Trata-se de uma sociedade-veículo que alegadamente terá servido para pagar comissões não documentadas pela concretização de determinados negócios. A ES Enterprises terá sido financiada pela sociedade suíça Eurofin, igualmente controlada pelo GES e sob investigação judicial. Ricardo Salgado, ex-presidente executivo do BES, sempre negou qualquer atividade ilegal na ES Enterprises. [Veja aqui todas as informações sobre a ES Enterprises]

O que são os Panama Papers

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– Mais de 11 milhões de documentos
– Mossack Fonseca, uma empresa de advocacia sediada no Panamá, está no centro da trama
– Trabalho do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação
– 370 jornalistas e mais de 70 países envolvidos na investigação
– seriam precisos 25 anos para uma pessoa ler todos os documentos
– Maior leak da história:
Panama Papers (2,6 terabytes de informação), segredos de offshores (4.4 GB — 2013), ficheiros fiscais do Luxemburgo (4.4 GB — 2014), ficheiros do banco HSBC (3.3 GB — 2015), WikiLeaks (1.7 GB — 2010)

O semanário e a estação de televisão falam ainda no nome de Isabel de Santos. A empresária, filha do presidente angolano, terá tentado criar uma conta no Banco Internacional do Luxemburgo (BIL) através do gestor de fortunas português Jorge Humberto Cunha Ferreira, responsável pelo private banking. Mas o BIL recusou tal solicitação, conta o português ao Expresso e à TVI.

O Expresso e a TVI já tinham noticiado que o gestor de fortunas português tinha contactado a Mossak Fonseca dizendo que tinha como clientes vários ex-ministros e outros políticos portugueses, todos eles PEP (Pessoas Politicamente Expostas) no processo de DD (Devida Diligência).

Vilarinho confirma: “Eu sei que estou lá”

Segundo já avançou a TVI, Manuel Vilarinho surge nos Panama Papers como beneficiário de uma empresa com sede no Nevada, EUA, a Soyland Limited Liability Company. O ex-presidente do Benfica assume a verdade destas informações, em declarações ao Expresso:

“Pois é claro que o meu nome aparece nos papéis do Panamá. Eu sei que estou lá, sabe o Ministério Público e sabe o país todo. (…) Isso não é crime (…) Cometi um pecado que está no DCIAP [Departamento Central de Investigação Penal] por causa de um problema grave com o Banco Espírito Santo.”

Vilarinho diz que não cometeu qualquer crime:

“Não tenho rabos de palha e sou um cidadão cumpridor. Já paguei tudo o que devia.”

Ilídio Pinho e Luís Portela negam

O empresário Ilídio Pinho surge nos Panama Papers como tendo, em conjunto com oito outras pessoas, autorização para movimentar contas da empresa IPC Management Inc, e uma empresa ligada a uma offshore com sede no Panamá, a Stardec Investments SA. Segundo os documentos da Mossack Fonseca, Ilídio Pinho obteve esta “autorização” em 2006. À TVI, o empresário nortenho desmente tal ligação:

“Durante toda a minha vida efetuei milhares de negócios e não tenho nem nunca tive contas no Panamá.”

Pelo mesmo caminho segue o presidente não-executivo da Bial. Segundo a TVI, o médico Luís Portela “controlava indiretamente” uma empresa no Panamá, que terá sido encerrada. Segundo os documentos da Mossack Fonseca, o médico controlava de forma indireta a Grandison International Group Corp, e que desde 2004 podia movimentar dinheiro e ativos da conta bancária associada à empresa.

Luís Portela, confrontado com estas informações, afirmou que sempre cumpriu as regras fiscais e o mesmo acontecerá com a Bial:

“É público que a Bial tem uma filial no Panamá que coordena toda a atividade do grupo na América latina. Nego qualquer relação com offshores. Nem eu nem a Bial temos qualquer offshore.”

Quem é quem

Luís Portela é presidente não executivo da Bial, a única farmacêutica portuguesa com um produto patenteado à venda nas farmácias europeias e norte-americanas, o Zebinix, indicado para o tratamento da epilepsia.

Neto do fundador, foi ele quem liderou o processo de internacionalização da farmacêutica. Em 2011, passou a pasta da presidência executiva ao filho, e em dezembro de 2015 foi distinguido com o prémio Lifetime Achievement, atribuído pelo Lide Portugal (Grupo de Líderes Empresariais).

Foi durante o tempo em que liderou a Bial que o grupo lançou dois centros de investigação, um na Trofa e outro em Bilbau. Foi ele quem lançou a Fundação Bial, juntamente com os Laboratórios Bial e o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas. A fundação é responsável por atribuir um dos maiores prémios europeus de saúde, mas está envolvido em várias polémicas.

Leia aqui um perfil alargado de Luís Portela.

Manuel Vilarinho, ex-presidente do Benfica (2000-2003), que sucedeu a Vale e Azevedo e antecedeu Luís Filipe Vieira, é atualmente presidente do Conselho de Administração da Edigest, uma empresa de investimentos imobiliários, desde 1990. Esteve no Ministério Público (1973-1974), tornando-se a seguir adjunto para assuntos jurídicos do secretário de Estado da Informação, até dezembro de 1975. Foi ainda presidente do Conselho de Disciplina da Associação de Futebol de Lisboa e vogal do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol.

A Edigest, empresa de que é presidente do Conselho de Administração desde 1990, é uma sociedade imobiliária especializada na compra, venda, arrendamento e gestão de activos imobiliários de rendimento — edifícios de escritórios, armazéns industriais, imóveis residenciais, imóveis de retalho e lugares de estacionamento.

O nome de Vilarinho já tinha aparecido associado ao processo Monte Branco.

Leia aqui um perfil alargado de Manuel Vilarinho.

Já Ilídio Pinho é um dos mais relevantes industriais do Norte depois de, em 1964, ter lançado a Colep. Foi precisamente em 1964 que começou a produzir as primeiras embalagens para bolachas, biscoitos e chocolates, contra a vontade do pai, também ele um self-made man ligado à indústria metalúrgica.

As jogadas certeiras fizeram com que se tornasse líder de mercado. Em 1995, acabaria por ser condecorado com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito e Comendador da Ordem de Mérito Industrial pelo então Presidente da República Mário Soares. O fundador do PS fez mesmo questão de marcar presença no lançamento da biografia do empresário. “É sobretudo um homem com uma visão para Portugal, com uma ideia de Portugal, o que é extremamente importante e raro mesmo nos empresários”, disse na altura Soares.

Leia aqui um perfil alargado de Ilídio Pinho.