Uma mediação de Portugal da crise político-militar em Moçambique “seria algo natural” para a Renamo, que segue com atenção a visita do Presidente português a Maputo, disse hoje a líder parlamentar do partido da oposição.

“Seria algo natural pela amizade entre dois povos e países que Portugal tivesse um papel preponderante na resolução das contendas que divergem os moçambicanos neste momento, mas é preciso ver se há condições para que esta mediação possa ocorrer”, afirmou Ivone Soares, à margem de uma visita de Marcelo Rebelo de Sousa ao parlamento moçambicano.

A chefe da bancada parlamentar da Renamo (Resistência Nacional moçambicana) considerou, porém, que a concretização desse papel de mediação “não é muito fácil”, na medida em que “alguns podem acusar Portugal de ser paternalista e imiscuir-se depois de tantos anos de colonização” em Moçambique.

“Mas acredito que, quando há fogo de um parente, de um amigo, independentemente de sermos familiares ou amigos, temos de socorrer ao fogo”, prosseguiu Ivone Soares.

A deputada da Renamo disse ainda que o maior partido de oposição está a seguir com atenção a visita do Presidente português, que termina na sexta-feira, e aguarda os resultados.

“Vamos ver o que estes dias da visita do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa vão propiciar em termos de fortificação das relações de amizade entre dois países e dois povos”, declarou a líder parlamentar da Renamo, acrescentando que, “sempre que possível”, o seu partido vai “manter a imprensa nacional e internacional informada sobre os avanços de se caminhar para a paz”.

A Renamo não reconheceu o resultado das eleições de 2014, ganhas oficialmente pela Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), e ameaça governar pela força nas seis províncias em que reclama vitória nas urnas.

A situação política e militar degradou-se acentuadamente nas últimas semanas, envolvendo confrontos entre Governo e Renamo, ataques atribuídos aos homens armados da oposição nas estradas, e acusações mútuas de raptos, assassínios e intimidação.

O líder da Renamo, Afonso Dhlakama, encontra-se alegadamente na região da Gorongosa, no centro de Moçambique, após a sua comitiva ter sofrido dois ataques na província de Manica e a sua guarda pessoal desarmada, numa ação da polícia na sua residência na Beira, em Sofala.

Apesar dos apelos para o diálogo do Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, a Renamo argumenta que os acordos de paz celebrados no passado não estão a ser cumpridos pela Frelimo e exige mediação da União Europeia, África do Sul e Igreja Católica para retomar as negociações.

Marcelo Rebelo de Sousa disse na quarta-feira registar as palavras de Filipe Nyusi sobre a paz em Moçambique e considerou ser necessário esperar para saber como e de que forma Portugal poderá ajudar a esse objetivo.

“Não é possível antecipar que tipo de ajuda. Os amigos devem estar sempre disponíveis para ajudar os seus amigos e só as circunstâncias dirão em concreto que tipo de ajuda, em que momento será necessário exercitá-la e qual é a forma de exercitação dessa ajuda”, declarou após um encontro com o homólogo moçambicano.

Filipe Nyusi disse por sua vez que é preciso dialogar com a Renamo sobre a crise política e militar que abala o país antes de se falar de mediação internacional.

“Se chegarmos a um momento em que há um litígio, um antagonismo fatal em que as pessoas não se acreditam, então fica necessário dar o passo que está à altura”, afirmou na conferência de imprensa que realizou em conjunto com Marcelo Rebelo de Sousa.