A bicicleta que costuma estar à entrada foi pendurada na parede e o típico mosaico hidráulico onde passam 27 mil clientes por dia ocupa apenas duas ou três tiras do chão antes de dar lugar a tijoleira. A Padaria Portuguesa abriu a sua 40ª loja esta quinta-feira e por uma vez resolveu contrariar uma das fórmulas do sucesso.

“O nosso negócio vive da standardização. É uma máquina de trabalho que consiste em procurar localizações, conseguir aumentar o fornecimento da fábrica e ter uma equipa que sabe montar uma loja quer ela tenha 80 ou 300 metros quadrados”, diz Nuno Carvalho, fundador da cadeia que neste momento emprega “quase 900 pessoas” e conseguiu atrair o Presidente da República, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa e o ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social no dia da inauguração. “Luto constantemente contra as minhas próprias ideias porque a standardização é importante. É importante que o cliente saiba o que vai encontrar. Mas chegar a 40 lojas em cinco anos e meio, com investimento próprio e uma faturação de 20 milhões, é motivo para celebrar.”

Para fazer a festa, o diretor-geral desafiou a arquiteta Joana Astolfi a pensar um espaço completamente diferente. Ligou-lhe no dia 2 de março, dia 3 estavam a entrar no número 102 do Príncipe Real, anteriormente ocupado por um banco. Joana — a mesma que já trabalhou com o chef José Avillez, assinou o espaço de vários hotéis e é responsável pelas montras da Hermès em Lisboa — não esconde a surpresa que chegou com o telefonema: “Gosto de fazer coisas custom made, exclusivas, irrepetíveis, que é tudo o que a Padaria Portuguesa não é. Mas o Nuno queria uma coisa disruptiva e deu-me carta branca para brincar e sonhar alto.”

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Nuno Carvalho, diretor-geral da Padaria Portuguesa, convidou a arquiteta Joana Astolfi a fazer “uma loja completamente diferente”. Foto: Hugo Amaral/Observador.

Das únicas referências que tinham de permanecer representadas — o mosaico hidráulico em tons de laranja e a bicicleta que estão em todas as lojas — Joana partiu para um espaço pensado completamente do zero, uma “carcaça vazia”, para usar linguagem apropriada à missão. “Comecei a pensar onde é que me levava o pão e vinha-me sempre a imagem do sul de Itália, daquele rústico muito verdadeiro mas bem trabalhado”, conta a arquiteta ao Observador. A inspiração vê-se desde logo nos tons terra e nos materiais que escolheu para a loja: tijolo-burro, madeira, cobre ou ainda pedra lioz, “que é muito padaria”.

“Nesta loja o pão também é um material”, diz Joana Astolfi, que criou um nicho e até uma estrutura de paredes feitas só com madeira e pães de massa não fermentada, como se fossem tijolos. “Chamo-lhe a casinha do pão. Só tem duas mesas mas acho que vai ser uma loucura, sobretudo para as crianças.”

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Um ponto de passagem foi transformado num recanto em que as paredes são feitas de pão. Foto: Hugo Amaral/Observador

“Quando entramos aqui somos constantemente levados para um mundo antigo e de conforto”, diz a arquiteta, que espalhou vários objetos vintage pela padaria, desde uma carroça a uma mó de cereais que funciona à manivela, passando pelas latas enferrujadas onde se lê “assucar de 2ª”. E se a carta não sofreu alterações, o mesmo não se pode dizer das caixas para tirar senhas que estão logo à entrada e dos tabuleiros, ambos em madeira, ou da apresentação dos menus, desenhados pelo artista Francisco Venâncio e onde ficamos a saber que uma das propostas de almoço inclui uma salada e um sumo natural mas não inclui um carro nem uma girafa.

Com cinco áreas distintas — uma zona de entrada com balcões, duas salas com mesas, a tal casinha do pão e uma esplanada — esta é a loja mais recente, mas não por muito tempo. Dia 18 de maio abre a 41ª Padaria Portuguesa, no Cacém. E aí voltamos à máquina oleada — até à loja número 60, quem sabe.

Nome: Padaria Portuguesa
Morada: Rua D. Pedro V, 102 (Príncipe Real), Lisboa