“Este jogo está melhor que os outros três jogos juntos.” A frase de Luís Avelãs, jornalista do Record e comentador dos jogos da NBA [liga de basquetebol norte-americana] emitidos na SportTV, resume o embate de sexta-feira entre os Golden State Warriors (GSW) e os Cleveland Cavaliers (CLE). Este foi o quarto jogo das Finais desta temporada — jogadas à melhor de sete — que repete o confronto entre os dois finalistas do ano passado.

Em 2015, a vitória foi para equipa da Califórnia. Este ano, se a história estiver certa, irão repetir o feito, já que nenhum finalista recuperou de uma desvantagem 1-3 (uma vitória para a equipa de LeBron James, 3 vitórias para os GSW). Mas esta foi uma época estranha, em que a história tem sido reescrita.

Foi a temporada de despedida de Kobe Bryant, um dos maiores atletas da modalidade. E também aquela em que foi batido o recorde de vitórias na época regular dos Chicago Bulls, uma marca de 72 vitórias e 10 derrotas (em 82 jogos), que se mantinha há duas décadas. O novo recordista? Os GSW com 73-9, registados no 82.º jogo, frente aos Memphis Grizzlies.

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Esta foi também a época com maiores diferenças pontuais (ou blow outs) na reta final do campeonato: play-offs, meias-finais e finais de conferência, e a própria série que agora se disputa. Para Luís Avelãs, “tratando-se das melhores equipas é perfeitamente ilógico ver tantos jogos decididos por 25 ou mais pontos e, pior, desequilibrados desde cedo. É verdade que perder por um ou por 30 vale a mesma coisa, mas isto tem sido demais. E não agrada a ninguém”. Já Márcio Martins, redator publicitário e ex-treinador de basquetebol, que edita com Ricardo Brito Reis o podcast semanal MVP, considera esta disparidade “um acaso”: “Se repetíssemos os play-offs, provavelmente não voltaria a acontecer”.

Como refere Luís Avelãs, “uma das belezas do basquetebol, em geral, e da NBA, em particular, são os jogos disputados até aos derradeiros instantes, as bolas que entram em cima da buzina”. Um bom exemplo é recuperado por Ricardo Brito Reis, jornalista e também comentador dos jogos transmitidos na TV: “O melhor jogo do ano foi o confronto da temporada regular entre Oklahoma City Thunder [OKC] e GSW, decidido no último segundo do prolongamento graças a um lançamento do meio campo de Steph Curry. Foi uma espécie de aperitivo para a final da Conferência Oeste, a melhor série dos play-offs”.

Apesar do equilíbrio ao longo do último jogo contra CLE, e tal como na série contra OKC, a vitória foi para os GSW (108-97). Na madrugada de 2ª para 3ª feira, a partir das 02h00 (hora portuguesa), a equipa liderada por Stephen Curry poderá coroar em casa uma temporada histórica.

Jogar contra a história

They won, but would they beat the ‘96 Bulls? [eles ganharam, mas será que conseguiam derrotar a equipa dos Chicago Bulls de 1996?]” Depois de um arranque de temporada notável (ganharam 24 jogos consecutivos e bateram o recorde dos principais desportos dos EUA) e com o número de vitórias a acumular, esta foi uma das frases mais replicadas nas caixas de comentários de páginas dedicadas à NBA. Começava o paralelismo com a equipa de Michael Jordan, Scottie Pippen e Dennis Rodman, os históricos Chicago Bulls dos anos 1990, considerada por muitos “a melhor equipa de sempre”. Curiosamente, Steve Kerr, treinador dos GSW, fez parte desse grupo de jogadores que, pela primeira vez na história da liga, alcançou mais de 70 vitórias em 82 jogos.

Durante meses, nunca assumiram a conquista do recorde dos Bulls. Steve Kerr, operado às costas durante o verão e em longa convalescença, não se sentou no banco de suplentes até 22 de janeiro. O treinador interino, Luke Walton, assumiu as rédeas nesses tempos e os bons resultados continuaram a aparecer. Ricardo Brito Reis lembra que “as expectativas eram altas, não só por serem os campeões em título, mas também por todo o mediatismo à volta de Steph Curry”. Em dezembro, frente aos Milwaukee Bucks, chegava a primeira derrota dos GSW. Só voltariam a perder oito vezes até ao fim da época regular.

Em março, Draymond Green, um dos jogadores mais importantes e polarizadores da equipa, tornava a questão oficial: “Vamos atrás do recorde dos Bulls“. Conseguiram.

Luís Avelãs lembra que este recorde “era virtualmente impossível de bater”. Muitos históricos da NBA fizeram questão de desacreditar as pretensões da equipa, como Charles Barkley e o próprio Scotie Pippen. Entre haters (aqueles que odeiam) e bandwagoners (aqueles que só agora se tornaram fãs da equipa), o mediatismo continuou a ser alimentado.

Mas Golden State conseguiu 73-9. E fê-lo dentro do seu modelo normal que, por sinal, só é normal para eles. Nunca se tinha visto nenhum conjunto apostar tanto nos lançamentos rápidos e longos e, mais importante, com uma eficiência notável”, diz o jornalista do Record.

O efeito Curry

Uma das chaves foi o most valious player (MVP [jogador mais valioso] da liga. Segundo Márcio Martins, foi uma época “sensacional de Stephen Curry, que, depois da melhor temporada da carreira na época passada e de ter sido o melhor jogador da liga em 2014-15, fez ainda melhor este ano e bateu todos os recordes de triplos”.

No final da época regular, Curry tinha marcado 402 lançamentos da linha de 3 pontos (em 2015 foram 286, a melhor marca de sempre até então), teve a melhor média de pontos por jogo (30,1) e foi eleito MVP de forma unânime, algo nunca alcançado na NBA. Alguns dos melhores jogos da temporada também estiveram nas suas mãos: “É difícil destacar um jogo entre tantos, mas diria que qualquer um em que Curry marcou triplos em doses industriais e das maneiras mais improváveis, dando a sensação de estar a jogar sem adversários, merece especial referência”, diz o jornalista.

Apesar dos recordes individuais, o segredo está no coletivo: “Os Warriors começam por ter uma equipa técnica excelente, possuem em Klay Thompson o parceiro ideal para Curry e têm um Draymond Green que faz de tudo um pouco. De resto, até os suplentes contribuem quase sempre de forma muito satisfatória”, explica Luís Avelãs.

Entre os play-offs e as Finais, a força da equipa foi posta à prova. O embate com os Houston Rockets não foi muito complicado – venceram por 4-1 –, mas no quarto jogo ficaram sem o MVP. Steph Curry lesionou-se no joelho e só voltaria na segunda ronda dos play-offs, frente aos Portland Trail Blazers. A paragem de Curry foi apenas mais uma, numa época em que o número de lesões de jogadores importantes continua a ser “assustador” e, segundo Luís Avelãs, “faz voltar à ordem do dia a discussão de um calendário mais pequeno ou um período de competição maior, de forma a existir mais descanso entre as partidas”.

Depois da época regular

Os adversários que os GSW enfrentaram no play-off e meias-finais de conferência foram, para Márcio Martins, a maior surpresa e desilusão da temporada. Se os Blazers foram louvados pelo “grande trabalho de Terry Stotts”, depois de terem perdido quatro titulares (excetuando Damien Lillard), os Rockets não mereceram contemplações: “Fizeram uma temporada miserável e, depois do segundo lugar no Oeste no ano passado, este ano quase não se qualificavam para os play-offs”.

Chegados às finais da Conferência Oeste, a época de sonho esteve em perigo. Perante os OKC, a equipa de Curry perdeu, pela primeira vez este ano, dois jogos consecutivos e viu-se numa desvantagem de 1-3. Como resume Luís Avelãs: “O representante do Oeste podia ter sido Oklahoma. Teve três jogos para passar à final, mas falhou nos derradeiros instantes”.

Com mais alguns recordes no bolso – número de triplos em jogos de play-off por Klay Thompson e sendo apenas a 10ª equipa na história da liga a dar a volta a uma desvantagem de 3 jogos –, os GSW chegaram ao rematch das Finais do ano passado.

A equipa de LeBron James teve o caminho mais facilitado, sem qualquer derrota após a época regular até enfrentarem os Toronto Raptors, nas finais de Conferência. Sempre com blow outs, os CLE bateram a equipa canadiana por 4-2. Segundo Márcio Martins, “os Cavs eram os grandes candidatos, não tinham concorrência à altura e não se esperava outra coisa que não uma ida às Finais”.

Já Luís Avelãs considera que “Cleveland beneficiou da péssima temporada de Chicago”: “A ausência dos Bulls do play-off, então para quem torce por eles, foi outro dado bastante negativo. Inesperado (face à valia dos seus atletas) e incompreensível”.

Para Ricardo Brito Reis, a repetição das Finais não foi uma surpresa, mesmo com os CLE menos dependentes do seu principal jogador, LeBron James: “A época dos Cavs fica marcada pela troca de treinador e a metamorfose da equipa, sobretudo a nível mental, após a contratação de Tyronn Lue”. Os efeitos das mudanças e as consequências de qualquer resultado frente aos GSW prometem animar os próximos meses.

Triplos e “small ball”: o jogo a mudar

Entre os efeitos do sucesso dos GSW estão as mudanças no modelo de jogo replicadas nas outras equipas. Segundo Ricardo Brito Reis, “o jogo já mudou. É uma questão matemática. Converter 40% de lançamentos de três pontos é melhor do que converter 50% de lançamentos de dois pontos. As equipas procuram, cada vez mais, jogadores com capacidade para lançar de longe, independentemente da altura e posição que ocupa”.

É aqui que se destacam jogadores “mais baixos, mas mais ágeis e rápidos”, ou a prática do small ball, como Curry ou Klay Thompson. Os GSW têm mesmo uma equipa-base com estas características, conhecida como death lineup (ou equipa mortífera), em que a rapidez dos ataques e a eficiência dos lançamentos longos compensa a falta de jogadores mais altos – uma das imagens de marca da modalidade.

Luís Avelãs ainda não está convencido que o jogo tenha mudado em definitivo ou se é apenas uma moda: “Cada treinador deve (ou deveria) adequar a tática às características dos jogadores e não pretender encaixar os atletas no seu modelo preferencial”.

Já Márcio Martins acha que “estamos num ponto em que os jogadores estão mais capazes do que nunca de executar esse estilo de jogo, (…) mas uma coisa é querer fazer isso, outra é ter jogadores para o fazer”.

Daí que a polivalência seja, para Ricardo Brito Reis, a característica mais desejada no basquetebol atual – alguém que defenda todas as posições, que jogue dentro e fora. “É por isso que os scouts [olheiros} das equipas da NBA não procuram o próximo Kobe ou LeBron, mas sim o próximo Draymond Green”, diz.

Acompanhar a liga nas redes sociais – também em português

Mas quando falamos de uma liga disputada do outro lado do Atlântico, como é vivenciá-la em Portugal? “Penso que a NBA sempre teve muitos fãs em Portugal, mas antes a experiência era mais solitária e isolada” diz Márcio Martins. E recorda os anos 1990: “Quando eu era miúdo, tínhamos um jogo por semana na televisão e uma revista espanhola – a SuperBasket – nos quiosques”. NA RTP2, era emitido semanalmente um jogo, com os comentários de Carlos Barroca – atual diretor de operações da NBA na Índia.

Há mais de uma década que Luís Avelãs relata os jogos da liga norte-americana emitidos na SportTV. Inicialmente, acompanhou Carlos Barroca. Hoje, com sete jogos semanais durante a época regular, existe um painel rotativo nos comentários: Miguel Minhava, Carlos Seixas, Miguel Barroca e Ricardo Brito Reis. Hoje, com as redes sociais, as coisas estão diferentes: “Desde há muitos anos que se procura estabelecer essa ligação com quem está em casa. Começou com os mails, quando ninguém o fazia, e já vamos nas redes sociais. O problema é que é impossível ver e transmitir tudo o que se passa. O jogo não nos permite”.

Com épocas tão competitivas, rapidez na troca de informações e uma maior interação dos próprios atletas com os fãs – os desportistas estão entre os usuários com mais seguidores nas redes sociais – têm surgido cada vez mais páginas em português dedicadas à liga. NBA Fans Portugal e NBA Portugal são bons exemplos, ambas com milhares de seguidores.

Por outro lado, há projetos que procuram dar voz – literalmente – a quem acompanha a modalidade. Os podcasts têm surgido e com sucesso. Lançado há menos de um ano, o MVP é um bom exemplo, que tem sido ouvido dentro e fora de portas. “Apesar de ser um suporte exclusivamente áudio numa era em que a imagem é particularmente valorizada, julgo que viemos preencher uma lacuna que existia no que diz respeito à análise e discussão do jogo e isso faz com que tenhamos um universo de ouvintes fiéis e que cresce a cada semana”, resume Ricardo Brito Reis.

A própria televisão oficial da NBA tem um programa diário, The Starters, onde fãs da modalidade discutem cada jogo e esmiúçam cada polémica de bastidores. A força das redes sociais e o recurso aos memes são algumas das referências de cada emissão.

Mas que impacto têm estes eventos desportivos globais – os jogos são transmitidos em dezenas de países – na prática da modalidade? Há mais basquetebolistas por causa das façanhas de Kobe Bryant, LeBron James ou Stephen Curry? Márcio Martins acha que não e que o número de praticantes “tem diminuído na última década”. Para ele, “o basquetebol nacional (e a Federação em particular) não tem aproveitado a onda da NBA e angariado os praticantes que podia”, pois só recentemente há uma maior aposta na comunicação e divulgação da modalidade. “Mas ainda há muito por fazer nessa área”, conclui.

Luís Avelãs tem uma perspetiva mais otimista: “Quem anda na rua vê muita gente com bolas de basquetebol, t-shirts, chapéus e outras coisas alusivas às equipas da NBA, e o mesmo não se passa com outras modalidades. Deve querer dizer alguma coisa”. No essencial, “aqueles rapazes que jogam durante as nossas madrugadas são verdadeiros artistas” e a época ainda não terminou.