No relvado, a luta pela vitória era renhida. Além de desportiva, era também uma questão política. No Campeonato do Mundo de Futebol de 1966, a já famosa seleção soviética, dirigida pelo Aranha Negra, como era conhecido o guarda-redes Lev Yashin, lutou com todas as forças para derrotar o a seleção surpresa dos “magriços” e ficar em terceiro lugar da competição. Mas a vida nos bastidores era bem mais pacífica e com gestos inesperados de amizade. Desportivos e políticos.

Na véspera do dia em que se assinala os 50 anos do jogo de futebol entre Portugal e a URSS, em que a seleção dos “magriços” acabou mesmo por arrecadar o terceiro lugar, uma das glórias do futebol soviético, o médio Georgij Sichinava, recordou alguns momentos curiosos.

Portugal's Eusebio forces his way between two Russian players, only to see his shot saved by Russian goalkeeper Lev Yashin, during the World Cup match at Wembley Stadium, 28th July 1966. Portugal beat Russia 2-1. (Photo by Keystone/Hulton Archive/Getty Images)

Inimigos no campo, amigos fora dele. Eusébio também fintava o KGB (Keystone/Hulton Archive/Getty Images)

Numa entrevista ao diário desportivo russo Sport Express, Sichinava [então jogador do Dínamo de Tbilissi] conta como a polícia política soviética do KGB (Comité de Defesa do Estado) não arredava pé de junto dos futebolistas, e como Eusébio a conseguia “fintar” e “pagar uns copos” aos colegas soviéticos.

“Na delegação da seleção da URSS, as pessoas estavam divididas em duas partes: nós, os jogadores, e depois os funcionários do KGB, que tinham como função tomar conta da equipa. Essa ‘delegação’ era chefiada pelo general do KGB Kolmykov”, recordou o futebolista, acrescentando: “Claro que nos preveniam para evitarmos antros de vícios, provocações. Diziam que não puséssemos o nariz nos bordéis, pois limpar-nos-iam até ao tutano”.

Uma das funções do KGB era também impedir que atletas soviéticos fugissem do “paraíso terrestre socialista” para o “inferno capitalista”.

Porém, os futebolistas soviéticos encontravam brechas na segurança e era aí que contavam com a habilidade de Eusébio, que então se tornou mundialmente famoso, nomeadamente na União Soviética.

A lenda do futebol português, sabendo do hotel onde os seus colegas soviéticos estavam hospedados, deixava dinheiro aos empregados do bar para lhes oferecer umas bebidas.

“Voronin [então médio do Torpedo de Moscovo] tinha boas relações com Eusébio e este, no hotel onde vivíamos, deixava ao empregado do balcão uma certa importância para que Voronin e os seus amigos pudessem beber um copo. Às vezes recorríamos a isso. Mas sabíamos a medida, o tempo e o local”, sublinha Sichinava.

Um jogo de tão grande importância para ambas as seleções não podia passar sem elementos “místicos”. A dois dias do jogo, o médio Murtaz Khrutsilava, que repartia o quarto com Sichina, contou-lhe que durante um sonho teria visto que iria provocar um penálti a favor de Portugal. Entre os futebolistas havia muitos supersticiosos e a história chegou aos ouvidos de Yashin que começou a gritar de indignação, tendo os seus colegas feito grandes esforços para o acalmar.

29th July 1966: Portugal's Eusebio (white shirt) hammers his penalty kick past Russia's Lev Yashin, to put his country in the lead during the World Cup third place play off game at Wembley Stadium. (Photo by Keystone/Getty Images)

O penálti de Eusébio a Iachin ( Keystone/Getty Images)

Aos 13 minutos da primeira parte, Khrutsilava cometeu de facto uma falta, o árbitro assinalou grande penalidade e Eusébio não perdoou. Mas Malafeev igualou a partida a dois minutos do intervalo. Na segunda parte, o jogo foi muito equilibrado e a vitória podia ter caído para qualquer lado. Todavia, a dois minutos do fim, Torres bateu Yashin e garantiu a melhor classificação de Portugal num Mundial de Futebol.