Em vésperas do início dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, o Observador leva-o numa viagem pela história onde vai encontrar a origem e os significados dos emblemas que dão rosto ao maior evento desportivo do mundo. Neste percurso vamos cruzar-nos com deuses, com o latim, com filosofias de vida, com manifestações políticas e até com significados obscuros que tiveram de ser deixados pelo caminho. Conheça tudo isto aqui em baixo.

O lema

Em 1881, ainda quinze anos antes do regresso dos Jogos Olímpicos em pleno após a pausa provocada pelo domínio romano, o padre dominicano Henri Didon foi convidado a discursar na cerimónia de abertura de um evento desportivo numa escola francesa. Como inspiração para os jovens estudantes atletas, pediu-lhes que mantivessem três palavras na mente durante toda a competição: Citius, Altius, Fortius – uma expressão latina que significa “mais rápido, mais alto, mais forte”. A ouvir o discurso do padre estava Pierre de Coubertin, um pedagogo e historiador que viria a refundar os Jogos Olímpicos Modernos, inaugurados em 1896 em Atenas. Nesse ano, Pierre de Coubertin adotou as palavras de Henri Didon como um lema que viria a inspirar os atletas olímpicos desde então, não apenas de uma perspetiva técnica, mas acima de tudo do ponto de vista moral.

Henri Didon

A crença

Pierre de Coubertin inspirou mais um lema olímpico que, na verdade, viria a ser citado até no recreio da escola: “O que importa não é vencer, é participar”. Esta é a versão curta da frase que o fundador dos Jogos Olímpicos modernos adaptou das palavras de Ethelbert Talbot, bispo da Pensilvânia: “O que é importante na vida não é o triunfo, mas a luta; o essencial não é ter ganho, mas ter lutado bem”. Coubertin proferiu esta frase a 24 de julho de 1908, durante uma receção preparada pelo governo britânico, e ela tornou-se na crença oficial dos Jogos Olímpicos.

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Ethelbert Talbot

Créditos: Wikimedia Commons

O juramento

O juramento dos Jogos Olímpicos foi proferido pela primeira vez pelo esgrimista belga Victor Boin, na edição de 1920 em Antuérpia. Desde esse ano que um atleta natural do país organizador dos Jogos jura, em nome de todos os outros atletas em competição, honrar o passado e as regras daquele evento desportivo. É uma formalidade que Pierre de Coubertin fez renascer dos tempos da Grécia Antiga, embora com algumas diferenças: antes, o atleta escolhido tinha de sacrificar um animal durante o juramento. Hoje, o atleta tem apenas de segurar a bandeira olímpica. O texto redigido por Coubertin foi alterado ao longo do tempo para se adaptar à nova realidade dos atletas modernos (nomeadamente a problemática do doping): em 1999 foi escrito um juramento renovado, tornado público pela primeira vez nos Jogos Olímpicos de 2000 em Sidney. Diz o seguinte:

Em nome de todos os atletas, prometo que faremos parte dos Jogos Olímpicos, respeitando e perpetuando as regras que os governam, comprometendo-nos com um desporto sem doping e sem drogas, em nome do verdadeiro espírito de desportista, pela glória do desporto e pela honra das nossas equipas.

Desde 1972 que não só um atleta, mas também um jurado nacional é chamado para proferir o mesmo juramento. Nos últimos Jogos Olímpicos, realizados em 2012 em Londres, um treinador proferiu pela primeira vez estas palavras.

Victor Boin

Créditos: Wikimedia Commons

Os anéis

Também foi Pierre de Coubertin o criador do símbolos de cinco anéis que simbolizam os Jogos Olímpicos, quando os desenhou e pintou à mão numa carta que enviou em 1913. Em agosto desse mesmo ano explicou o significado do símbolo: “Estes cinco anéis representam as cinco partes do mundo agora conquistados pelo olimpismo e prontos para aceitar a sua saudável rivalidade. Além disso, as cores assim combinadas reproduzem todas as nações participantes sem exceção“. Ora, todos os anéis têm a mesma dimensão e expressam a atividade do Movimento Olímpico: a união dos cinco continentes e o encontro de todos os atletas do mundo inteiro num só evento desportivo. Mas repare-se: embora cada anel corresponda a um continente, nenhuma cor representa um continente em particular. Só que, quando combinadas, podem formar as bandeiras de qualquer país. Isto mesmo explicou Pierre de Coubertin em 1913: “O azul e o amarelo da Suécia, o azul e o branco da Grécia, as três cores de França, Inglaterra, América, Alemanha, Bélgica, Itália e Hungria, o amarelo e vermelho de Espanha, são postas ao lado das inovações do Brasil ou da Austrália, do antigo Japão e da jovem China. É verdadeiramente um símbolo internacional”.

rings

Créditos: The Department for Culture, Media and Sport

Em 1922, o historiador norte-americano Robert Barney publicou um artigo na “Olympic Revue” onde explica como é que a ideia deste símbolo chegou a Coubertin. Diz ele que o criador dos Jogos Olímpicos Modernos estava à frente da União das Sociedades Francesas de Desportos Atléticos, uma organização que até 1925 era responsável pelo Comité Olímpico Internacional do país, quando se lembrou de utilizar os círculos por serem “símbolos da continuidade e do ser humano”, tal como a vesica piscis com que normalmente se representam as alianças de casamento. Mas o símbolo não foi imediatamente adotado: a I Guerra Mundial fez adiar os planos até 1920, quando os anéis sob fundo branco se mostrou ao mundo a partir da Bélgica. A partir de 1936, com os Jogos Olímpicos de Berlim, os anéis ganharam notoriedade máxima.

A bandeira

A bandeira olímpica é composta pelos mesmos elementos que o símbolo oficial: cinco círculos de cores diferentes num fundo branco. Mas as cidades organizadoras dos Jogos Olímpicos em cada edição podem desenhar uma nova bandeira que simbolize aquele evento em particular. A primeira bandeira olímpica foi hasteada em 1920 na cidade de Antuérpia, na Bélgica. Só que essa bandeira desapareceu, já no final do evento, e por isso uma nova teve de ser feita para os Jogos Olímpicos de 1924 em Paris. A partir daí, a mesma bandeira – a Bandeira de Antuérpia – foi utilizada em todas as edições de verão dos Jogos Olímpicos até 1988, ano em que o evento se realizou em Seul.

Mas onde estaria a bandeira original? Só em 1997 é que se descobriu a verdade, quando um jornalista entrevistou Hal Haig Prieste, que havia ganho a medalha de bronze em saltos ornamentais na edição de 1920, num banquete organizado pelo Comité Olímpico Internacional. O repórter referiu o facto de essa organização ainda não ter descoberto o que acontecera à bandeira original dos Jogos Olímpicos, mas Prieste interrompeu-o: “Eu posso dar uma mãozinha. Está na minha mala”, revelou. E estava: Prieste subiu ao poste, desafiado pelo colega de equipa Duke Kahanamoku, e roubou a bandeira. Guardou-a durante 77 anos. Em 2000, numa cerimónia especial em Sidney, a bandeira foi devolvida ao Comité. E foi exposta no Museu Olímpico de Lausana, na Suíça.

Hal Haig Prieste

Créditos: Reddit

Quando a segunda bandeira de Antuérpia foi retirada de circulação, uma nova surgiu em 1988 durante os Jogos Olímpicos de Seul. Essa é a bandeira que ainda hoje é enviada para o país organizador do evento na sua edição de verão. Mas, em 1952, uma outra foi criada: era a Bandeira de Oslo, símbolo das edições de inverno deste evento desportivo. A bandeira original está guardada numa caixa especial, mas foi criada uma réplica que é hasteada em todos os Jogos Olímpicos de Inverno.

O hino

O Hino Olímpico é entoado sempre que a bandeira é hasteada. Foi Demetrius Vikelas, o primeiro presidente do Comité Olímpico Internacional, que decidiu qual seria a canção oficial do evento desportivo. E escolher a melodia composta por Spyridon Samaras associado a um poema do grego Kostis Palamas. A primeira vez que o público teve acesso à canção foi na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de 1896, em Atenas, mas só sessenta e um anos mais tarde é que foi oficialmente apresentado como hino do evento pelo Comité Olímpico Internacional. Até 1960, os países organizadores criavam um hino próprio para cada edição, um hábito que terminou em Roma, tornando mais reconhecida a melodia de Spyridon Samaras.

https://www.youtube.com/watch?v=Evdc_XZecDQ

A tocha

A primeira tocha olímpica foi acesa durante os Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim como forma de reavivar um costume da Grécia Antiga que havia sido esquecido. A ideia foi de Carl Diem, Secretário Geral do Comité de Organização dos Jogos na capital alemã: uma tocha devia ser acesa em Olímpia, berço dos Jogos Olímpicos, e depois enviada a pé da cidade grega até Berlim. E foi mesmo assim: mais de 3 mil atletas de sete países assistiram à chegada da tocha nesse ano. O costume continuou: a tocha é acesa alguns meses antes no início da competição em Olímpia e depois viaja nas mãos de atletas de corrida até à cidade hospedeira, espalhando uma mensagem de paz e amizade entre povos. Na cerimónia de abertura dos Jogos, o último atleta do percurso entra no estádio e ilumina o caldeirão com a chama. Dá-se o início dos Jogos Olímpicos: ficam oficialmente abertos (normalmente acontece como ponto alto da cerimónia).

The Olympic torch is carried into the stadium during the opening ceremonies of the XI Olympic Games at the Olympic Stadium in Berlin, Germany, on August 1, 1936. (Photo by Getty Images)

A primeira tocha olímpica chega a Berlim a 1 de agosto de 1936. Créditos: Getty Images.

É assim que se mantém o vínculo histórico entre os Jogos Olímpicos Modernos e os Jogos Olímpicos da Grécia Antiga. Nesses tempos, era mantida uma chama acesa no santuário à deusa Hestia e outra no santuário à deusa Hera, mulher de Zeus. Hoje, o caldeirão onde a chama é colocada está na zona onde, de acordo com as crenças ancestrais, se sentaria a deusa Hestia.

O olimpismo

É uma “filosofia de vida” que procura o total equilíbrio entre o corpo, a mente e a força de vontade, como explica o site dos Jogos Olímpicos. O objetivo de quem segue o olimpismo é unir o desporto, a educação e a cultura de modo a “criar um estilo de vida baseado na alegria do esforço, dos bons exemplos e no respeito pelos princípios fundamentais da ética mundial”. Tudo isto é estimulado pelo Movimento Olímpico (já lá vamos), que pretende contribuir para a paz no mundo, para o fim da discriminação e fomentar o espírito desportivo nos mais jovens. O olimpismo rege-se por três palavras chave: excelência, amizade e respeito. São elas que pautam as seis atividades delineadas pelo Movimento Olímpico: desporto para todos, paz através do desporto, desenvolvimento através do desporto, as mulheres e o desporto, educação através do desporto e o desporto e o ambiente.

O Movimento Olímpico

O Movimento Olímpico é composto por três entidades: o Comité Olímpico Internacional (COI), as Federações de Desporto Internacionais (IF) e os Comités Olímpicos Nacionais (NOC). Em parceria com estas organizações trabalham também os Comités de Organização dos Jogos Olímpicos, os atletas, o júri e árbitros, as associações e clubes, bem como quaisquer outras instituições que se queiram associar aos princípios do Movimento Olímpico. Para esclarecer sobre a verdadeira motivação destas organizações foi escrita uma carta onde todas elas assumem a responsabilidade de “contribuir para construir um mundo pacífico e melhor, educando a juventude através da prática desportiva com o olimpismo e os seus valores”.

A carta

A Carta Olímpica é o documento onde estão discriminados os princípios fundamentais do olimpismo, “as regras e as leis adotadas pelo Comité Olímpico Internacional. Ela governa a organização, os atos e o funcionamento do Movimento Olímpico e estabelece as condições para a celebração dos Jogos Olímpicos”. Este documento foi redigido por Pierre de Coubertin em 1896, mas foi publicado pela primeira vez apenas em 1908 com o título de “Anuário do Comité Olímpico Internacional”. O nome mudou por várias vezes até 1978. Hoje, o documento é internacionalmente conhecido por “Olympic Charter”.

Os kotinos

Antigamente, nos tempos da Grécia Antiga, as medalhas de ouro, prata e bronze não existiam. De modo a premiar o melhor atleta dos Jogos Olímpicos, os gregos acreditavam que Héracles – um semideus filho de Zeus e de Alcmena – lhe entregava um ramo de oliveira selvagem com a forma de um círculo ou de uma ferradura para ser posto na cabeça do vencedor. Esse ramo era tirado de uma suposta oliveira abençoada que existia junto ao templo de Zeus.

Num dos documentos deixados por Heródoto, geógrafo e historiador grego, fala-se de um episódio em que Xerxes, imperador persa, e Mardónio, general persa, interrogava alguns gregos naturais da Arcádia depois da Batalha das Termópilas. Xerxes perguntou-lhes onde estavam todos os gregos que deviam estar a proteger o local. Eles explicaram-lhes que estavam todos nos Jogos Olímpicos a tentar ganhar um ramo de oliveira. Xerxes achou o prémio insignificante, até que Tigrano, um general persa, entrou na sala e disse “Meu Deus, Mardónio, que homens são estes com que nos puseste a lutar? Estes homens não competem pela posse, mas pela honra”.

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Créditos: Wikimedia Commons

A saudação

Muito há a dizer sobre a saudação típica dos Jogos Olímpicos, que passou de homenagem aos criadores originais do evento nos tempos da Grécia Antiga até um sinal de mau estar histórico. Basta olhar para o gesto para entender o motivo. Ora, a saudação olímpica é semelhante à saudação romana: a mão e o braço direitos levantados acima do nível do ombro e a apontar para cima, com a palma da mão virada para baixo e todos os dedos juntos. Foi utilizada nos cartazes oficiais dos Jogos Olímpicos de Paris em 1924 e nos Jogos Olímpicos de Berlim em 1936. E é aqui, neste último evento, que reside o problema: a saudação nazi é extremamente semelhante à saudação olímpica, embora a primeira mantenha o braço quase perpendicular ao corpo. Quando a II Guerra Mundial terminou, a saudação deixou de ser utilizada pelos atletas com receio de ser confundida com a versão fascista.

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“Olympic Salute”, uma estátua de Gra Rueb em Amesterdão (Holanda). Créditos: Wikimedia Commons

Foi assim até 1968, nos Jogos Olímpicos na Cidade do México. Os velocistas Tommie Smith e John Carlos (medalhas de ouro e bronze, respetivamente) levantaram os braços como manda a saudação olímpica enquanto se entoava o hino norte-americano. Os seus conterrâneos ficaram chocados e, de facto, a saudação dos dois atletas não foi inocente: era uma demonstração política. Tanto Tommie Smith como John Carlos subiram ao pódio sem sapatilhas e apenas com meias pretas a representar a pobreza no seio das comunidades negras dos Estados Unidos. Tommie Smith pôs um lenço preto à volta do pescoço para representar o orgulho negro, enquanto John Carlos abriu o casaco em solidariedade “com todos aqueles que foram linchados, que foram mortos sem direito a uma oração”. O público vaiou os atletas, mas Tommy Smith voltou a explicar o motivo daquela manifestação: “Se eu ganhar, sou um americano e não um americano negro. Se perder, chamam-me preto. Nós somos negros e termos orgulho em sermos negros. A América Negra vai entender o que fizemos esta noite”. Os dois foram expulsos dos Jogos Olímpicos.

Mas a história não se fica pelos dois negros na imagem: o “branco” da fotografia também a escreveu. Ativamente. Tommie Smith e John Carlos contaram a Peter Norman, o australiano que havia conquistado a medalha de prata e um recorde ainda em vigor no país, sobre as suas intenções de participar naquela demonstração política. Peter Norman não só compreendeu os motivos, como quis participar. “Eu pensei que ia ver medo nos olhos dele, mas vi amor”, disse Smith aos jornalistas quando lhes contou a história completa daquele momento. A caminho do pódio, e a segundos deste marco histórico, Peter Norman passou por um norte-americano que levava consigo uma medalha do Projeto Olímpico Pelos Direitos Humanos e pediu-lha para subir ao segundo degrau no pódio. Mais tarde, John Carlos apercebeu-se que se tinha esquecido da sua luva negra na vila olímpica. Foi Peter Norman quem sugeriu que Smith desse uma das luvas a Carlos para poderem participar na demonstração à mesma. É por isso é que um levantou o braço esquerdo e outro o braço direito.

TO GO WITH AFP STORY BY JIM SLATER : "Forty years after Tommie Smith and John Carlos raised their fists in a civil rights gesture on the Olympic medal stand in Mexico City, protests on the podium could make a comeback in Beijing.". (FILES) US athletes Tommie Smith (C) and John Carlos (R) raise their gloved fists in the Black Power salute to express their opposition to racism in the USA during the US national anthem, after receiving their medals 17 October 1968 for first and third place in the men's 200m event at the Mexico Olympic Games. At left is Peter Norman of Australia who took second place. / AFP / EPU / - (Photo credit should read -/AFP/Getty Images)

Tommie Smith e John Carlos numa manifestação política em 1968. Créditos: AFP/Getty Images.

As medalhas

As medalhas foram introduzidas como prémio durante a primeira edição dos Jogos Olímpicos Modernos, em 1896, mas não como são entregues hoje. Naquela altura, o primeiro lugar (que agora recebe uma medalha de ouro) era galardoado como uma medalha de prata e um ramo de oliveira (lembra-se dos kotinos?), enquanto os segundo e terceiro lugares recebiam uma medalha de bronze e um ramo de oliveira. Só em 1904, nos Jogos Olímpicos em St. Louis nos Estados Unidos, é que o Comité Olímpico Internacional introduziu a regra que ainda hoje está em vigor: uma medalha de ouro para o primeiro lugar, uma de prata para o segundo lugar e outra de bronze para o terceiro lugar. A produção das medalhas tem de obedecer a algumas regras bem especificadas pelo Comité na Carta.