De entre os quatro dias e os mais de 50 momentos musicais que formam a 24.ª edição do Vodafone Paredes de Coura, há um nome que se destaca acima de todos os outros: LCD Soundsystem. Porque regressaram ao ativo após um adeus épico e, teoricamente, definitivo, em Nova Iorque, em 2011, mas não só. Mesmo que nunca tivesse acabado, o projeto de James Murphy é um dos mais importantes deste século. A digressão europeia fez-se de uma dúzia de concertos e o festival minhoto foi um dos medalhados nesta corrida olímpica — resta-nos imaginar quanto é que a Ritmos pagou para ter os norte-americanos a atuar esta quinta-feira, porque os números não vão ser divulgados. Foi a mais cara da história do evento, confirmou João Carvalho ao DN. Uma hora e quarenta minutos de concerto depois, pode dizer-se que valeu cada euro.

Ainda faltava quase meio dia para as 00h20, hora a que os LCD Soundsystem iriam subir ao palco principal do evento, e já era deles que se falava. Fosse porque, após a hora do almoço, mandaram esvaziar o recinto para poderem fazer o soundcheck tranquilamente; fosse porque tinham trazido com eles 60 convidados — número que o Observador confirmou junto da organização –, e todos deveriam poder estar com eles nos bastidores; e, claro, discutia-se se o fim anunciado em 2011 não teria sido um enorme golpe de marketing cujos frutos em forma de cifrões se colhiam agora.

paredes de coura 2016, lcd soundsystem,

Nada disto interessa a partir do momento em que os oito músicos entraram em palco e começaram a tocar “Us V Them“, com James Murphy a quebrar o silêncio com os versos “The time has come/ The time has come/ The time has come today“. Poético para um regresso, não tivesse sido também com esta música que abriram o último concerto que tinham dado em Portugal, em 2010, ainda o Alive se chamava Optimus. Na altura, coube à banda de Brooklyn subir ao palco após os cabeças de cartaz, Pearl Jam, o que os deixou com pouco destaque e tempo reduzido para tocar.

Esta noite foi bem diferente. O palco era deles e estava cheio da parafernália necessária para matar as saudades de canções como “Daft Punk Is Playing at My House”, “I Can Change” e “Get Innoscuous”, que fizeram felizes os fãs de uma banda que mostrou, no início do século, que a eletrónica, o rock e o funk podiam conviver em harmonia.

As muitas canções que, em 2015, Murphy disse ter na manga, e que levaram à reunião da banda, ainda não viram a luz do dia. O novo disco vai sair este ano e é tudo o que se sabe. Esta noite não houve canções novas, mas quem é que se importa com isso quando temos em cena a sequência viciante dos sintetizadores que abrem “You Wanted a Hit“? Quem é que tem cabeça para pensar em novidades quando “Someone Great” nos dá uma das melhores oportunidades da noite para ouvir com clareza a voz de Murphy, “Movement” um feedback de guitarra perfeito para o crowdsurfing e “Losing My Edge” toda a fragilidade do homem que fundou os LCD Soundsystem?

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HUGO AMARAL/OBSERVADOR

James Murphy esteve bem-disposto e até recordou a noite em que os LCD tocaram naquele mesmo festival, depois de Motörhead, para dedicar “Home” a Lemmy, falecido no final de 2015. Não soube precisar o ano em que as duas bandas por ali passaram — foi em 2004 –, e, provavelmente, também não se lembra que só algumas centenas de pessoas aguentaram em frente ao palco, tal era a chuva torrencial que caía nesse momento.

“Vocês foram ótimos, muito obrigado”, disse Murphy, depois das obrigatórias “New York, I Love You But You’re Bringing Me Down” e “Dance Yrself Clean“, e antes de fechar com o hino “All My Friends“. “Ótimos” é palavra que lhes assenta na perfeição. Cinco anos de pausa depois, a luz deste LCD parece que nunca foi apagada.

Alinhamento do concerto de LCD Soundsystem no 24.º Vodafone Paredes de Coura:

Us v Them

Daft Punk Is Playing at My House

I Can Change

Get Innocuous!

You Wanted a Hit

Tribulations

Movement

Yeah

Someone Great

Losing My Edge

Home

New York, I Love You But You’re Bringing Me Down

Dance Yrself Clean

All My Friends