Garoto, marca de chocolates da América Latina. Garoto, café com leite. Garoto, filme de Charlie Chaplin. Garoto, expressão de Marinho Peres por tudo e por nada. É garoto para aqui, garoto para ali, garoto para acolá. Está-lhe no sangue. Tal como o futebol. Marinho é uma lenda viva. Capitão da seleção brasileira no Mundial-74, joga com Pelé no Santos mais Cruijff no Barcelona e é campeão brasileiro pelo Internacional. Isto são quatro unicórnios. Junte-se-lhe a curiosidade de ter sido terceiro classificado do campeonato português por três clubes: Vitória SC (1987), Belenenses (1988) e Sporting (1991). A passagem do treinador só lhe rende um título. Em futebol, claro. Se fôssemos pelo lado pessoal, teríamos de incluir carisma, espontaneidade e tranquilidade. O telefonema de 34 minutos-e-tal evidencia isso mesmo.

‘Tou, Marinho?
Fala, garoto [nós bem avisámos].

‘Tou?
Ouço-te muito mal, garoto. Onde é que você ‘tá?

Em casa.
Eu também. [faço uma finta à cadeira da sala, vou pelo corredor central e entro no quarto como se fosse um extremo, encostado à janela da esquerda]

E agora?
Qui susto, garoto. Até parece que você ‘tá aqui do meu lado. Fala aí. É de onde mesmo?

Portugal, Lisboa.
Sério mesmo? Qui bom. Qui bom ouvir vocês de Portugal. Tenho muitas saudades vossas. A ver se vou aí no próximo Verão. Garoto, fala aí. Que quer de mim?

Este fim-de-semana é o Vitória-Belenenses, dois clubes do Marinho.
Olha só que bonito, ligarem-me por isso. Qual é o seu nome?

Rui Miguel Tov…
Ó Rui, obrigado pela chamada.

Já não é a primeira. Falei consigo há uns anos, no Restelo. Depois, entrevistei-o para o i.
Sério? Isso já é abuso de confiança. Vou bloquear o seu número [gargalhadas] [pausa] [mais gargalhadas, é a galhofa pegada]. Fala aí garoto.

Fala você Marinho, o que lhe ocorre quando falo de Guimarães e Belenenses?
[gargalhada abafada] Tanta, tanta, tanta coisa. Naquela altura, o jogador brasileiro era apreciado em Portugal e o treinador nem tanto. Basta ver que metade da seleção brasileira jogava em Portugal: Mozer, Ricardo e Valdo no Benfica, Silas no Sporting e Branco no Porto. De treinadores, poucos, muito poucos. Então quando alguém recebia uma proposta da Europa, de Portugal, era uma façanha daquelas, sabe? Quando o Pimenta Machado chamou-me, foi como um tremor de terra. A minha vida abanou. Favoravelmente, claro.

Isso é 1986-87?
Que época, essa, garoto. Ficámos em terceiro e fomos aos quartos-de-final da Taça UEFA. Do que mais me lembro é da primeira jornada, em Braga. Mal o sorteio definiu o dérbi do Minho, não me paravam de falar daquilo. Ia almoçar a um restaurante no centro e os empregados metiam-se comigo sobre Braga, Braga, Braga e mais Braga. A minha mulher entrava numa loja, eu ia junto e lá vinha a mesma conversa. Na rua, a mesma coisa. Eles viviam aquilo de uma forma bem intensa.

E como foi? O quê?
O dérbi em Braga? [gargalhadas] Percebi a pergunta, ‘tava a meter-me contigo. [mais gargalhadas] Ganhámos 1-0. Na semana seguinte, empatámos 2-2 com o Porto. Só perdermos à 7.ª jornada, na Luz. A partir daí, estabelecemo-nos no terceiro lugar, à frente do Sporting. O nosso plantel era fantástico, garoto. Jesus na baliza. Tenho uma história engraçada com ele.

Conta aí.
Num jogo em Madrid, com o Atlético. Tínhamos ganho 2-0 em casa e defendíamos a vantagem no Calderón. Aos 60 minutos, expulsaram-nos o Carvalho. Aos 67’, penálti contra nós. Eu gritava ‘ai meu Deus, ai meu Deus’ e o resto do pessoal do banco ‘ai Jesus, ai Jesus’. O Da Silva parte para a bola e o Jesus defende. Saltos, gritos, murros no tejadilho do banco. ‘Ai Jesus’ gritei eu para o campo e o pessoal partiu-se a rir. Era uma equipa fantástica. Os portugueses eram de seleção, os brasileiros de eleição, como Paulinho Cascavel, Ademir e Roldão, e depois os africanos N’Dinga, N’Kama e Basaúla. Aqueles três eram mais duros que pedra e jogavam prà caramba.

O que fiz então para a final? Proibi os meus jogadores de falar com os do Benfica. Eu é que fiquei meio entalado. O Ricardo e o Mozer vieram falar-me, abraçar-me e eu a afastá-los. Eles só me diziam ‘Olha esse aí metido a besta, vamos enchê-los de golos’. Os meus jogadores ouviram e foram para o balneário com o orgulho ferido. Quando entrámos em campo, foi para ganhar.

Paulinho Cascavel, melhor marcador do campeonato 86-87.
Esse cara é fera. Ele resolvia todos os problemas. Incrível. Nessa campanha da Taça UEFA, marcou um golo histórico, o 3-0 ao Groningen. Apurámo-nos para os quartos-de-final. Foi um cruzamento e ele meteu a cabeça. E a mão [lá vêm mais gargalhadas]. Ele meteu a mão. Os holandeses estavam loucos, atrás do árbitro. O treinador deles até entrou em campo. Eu só me ria daquilo. Topa o contexto, garoto: o Maradona tinha marcado um golo parecido seis meses antes, no Mundial do México. E, agora, era o Paulinho a fazer aquela manha. Que golo, que noite. O pessoal do Vitória cantava sem parar. Uma festança das grandes.

Do Vitória para o Belenenses.
Dois grandes anos no Belenenses. No primeiro, fomos terceiros no campeonato. No segundo, ganhámos a Taça. E não foi uma Taça qualquer. Eliminámos Porto e Sporting antes de bater o Benfica, lá no Jamor. Que época. Essa rapaziada do Belenenses ficou-me no coração. Para sempre. Começámos tão mal, com 7-1 nas Antas. E fomos subindo, aos poucos. Ganhámos ao Barcelona na Taça UEFA e garantimos o terceiro lugar a uma jornada do fim, naquele campeonato louco de 20 equipas. Portugal não tinha condições para passar de 16 para 20. Foi uma loucura.

E a Taça, outra loucura?
Nem me fala, garoto. Aquilo foi divinal. Dava-me bem com o Ricardo e o Mozer, éramos vizinhos no Restelo. Às vezes, jantávamos juntos. O que fiz então para a final? Proibi os meus jogadores de falar com os do Benfica. E eu também fiquei calado e mudo. Quando os dois autocarros chegaram ao Jamor, eles cumpriram o meu plano. Eu é que fiquei meio entalado, como vocês dizem aí. O Ricardo e o Mozer vieram falar-me, abraçar-me e eu a afastá-los. Eles, apanhados de surpresa, só me diziam ‘Olha esse aí metido a besta, vamos enchê-los de golos’. Os meus jogadores ouviram e foram para o balneário com o orgulho ferido, cheios de raiva. Quando entrámos em campo, foi para ganhar. Dois-um, a vitória é nossa.

Sem dúvida, o Cintra ligava-me volta e meia para casa e era chato, hein?! Às vezes, os telefonemas eram muito tarde, já noite alta.

Do Belenenses para o Sporting.
Foi o Sousa Cintra quem me contratou. Ele ainda é o homem das águas?

Agora até tem a cerveja Cintra e tudo.
Avisa ele que vou tomar todas quando for aí em Portugal.

Como era ele?
Queria ganhar muito o campeonato. Muito mesmo. Então, não gostava de perder nem de empatar. Às vezes, distanciava-se de mim. E depois aproximava-se de novo, quando passava o amuo [gargalhadas].

A sorte do Marinho era que não havia telemóveis, senão…
Sem dúvida, o Cintra ligava-me volta e meia para casa e era chato, hein?! Às vezes, os telefonemas eram muito tarde, já noite alta. Lembro-me agora de uma dessas chamadas, sobre o Careca. Ele estava a dar uma festa ou festança, sei lá. Eu dizia ao presidente ‘E você, quer que faça o quê? Amanhã, a gente resolve. Agora não tem como fazer alguma coisa.’ Ele era assim, muito impulsivo. Eu compreendia-o mas, naquele assunto ou noutros parecidos, ia fazer o quê? Acabar com a festa? Não tem isso não.

Fiiiigo. Sabe uma coisa, garoto? Quando cheguei lá, ele até era meio gordinho. Não gordo nem goooordo. Só um pouco acima da média.

No Sporting, o Marinho convive com uma série de estrelas.
Nem me fala, garoto. Aquilo era uma constelação.

O Figo, por exemplo.
Fiiiigo. Sabe uma coisa, garoto? Quando cheguei lá, ele até era meio gordinho. Não gordo nem goooordo. Só um pouco acima da média. Super talentoso, claro. Mas gordinho. Numa reunião com o departamento médico, resolvemos desenvolver a sua parte muscular para ficar mais forte e imune aos choques dos adversários. Também havia o Peixe, lembra?

Claro, Bola de Ouro do Mundial-91.
É isso aí, o Sporting de então tinha jogadores sub-21 mais consagrados que os mais veteranos. Falo só de títulos, ‘tá bom? O Figo e o Peixe eram campeões do Mundo sub-20 e da Europa sub-16. Os outros tinham experiência, peso no balneário e poucos títulos. Uns mais que outros. O Luisinho era dos que tinha mais peso. Era especial, um back sen-sa-cio-nal [Marinho faz questão de dividir silabaticamente]. Agora, não havia como o Figo nem o Peixe. Quer saber uma coisa do Figo, ó garoto?

Chuta.
Uma vez, o Cruijff foi a Lisboa com o Barcelona. Ia jogar com o Benfica, acho. Taça Ibérica ou o que era. Mil-novecentos-e-noventa-e-dois ou assim. Jantámos juntos e ele, às tantas, pergunta-me pelo Figo. E eu digo ‘é craque da cabeça aos pés, vai ser campeão em todo o lado’. No segundo seguinte, arrependi-me e avisei-o ‘ó, não compra nada hein?!, deixa-o comigo mais uns anos, por favor’. Não consegui demovê-lo e o Cruijff foi mesmo buscar o Figo.

O Marinho e o Cruijff jogaram juntos no Barça, certo?
Dupla fantástica. Você tinha de ver, garoto.

Quem me dera. Lembra-se da estreia oficial pelo Barcelona, a 3 dezembro 1974 (4-0 ao Celta Vigo, em Camp Nou, para a Liga)?
Sinceramente, não! Foram tantos jogos que não dá para distinguir esse jogo com o Celta de outros. Lembro-me bem, isso sim, da minha estreia oficiosa, à noite, num particular com o Duisburgo. Mas as memórias dessa passagem por Barcelona são preciosas de mais, como no dia em que cheguei ao aeroporto de Barcelona e vi lá o Neeskens [avançado holandês do Barça] à minha espera. Isso é que foi uma receção.

Mas é natural um jogador esperar um reforço, assim sem mais nem menos?
Aí é que está. Não foi assim sem mais nem menos. No Mundial-74, o Brasil foi eliminado pela Holanda, que nos baralhou por completo com aquele futebol inovador em que, de repente, dois ou três adversários estavam perto da bola vindos sei lá de onde! Ainda aguentámos o 0-0 até ao intervalo, mas depois Neeskens e Cruijff marcaram e tiraram-nos da final. Durante a primeira parte, o Rivelino disse-me que o Neeskens estava a marcá-lo tão bem que ele nem conseguia dar dois toques seguidos na bola. Aí eu quis anular o Neeskens numa determinada jogada e dei-lhe uma brutal cotovelada, mas sem o árbitro ver. Acabei por lhe abrir o sobrolho. Seis meses depois, quando ele soube que eu ia aterrar em Barcelona, ofereceu-se para me receber, ao lado do presidente do clube. Qual não é o meu espanto quando estou a descer as escadas do aeroporto e vejo o cara [Neeskens] lá ao fundo. Fechei os olhos, respirei fundo, e quando os abri vi novamente o cara a apontar para o sobrolho e a rir-se. Aí fiquei mais descansado e também me ri. Que sorte, né?

E depois?
Ah, isso virou motivo de brincadeira diária entre nós. Cada vez que eu entrava no balneário antes ou depois de um treino ou de um jogo, todos os jogadores tapavam a cara, enquanto o Neeskens estava sempre a apontar para o sobrolho, às vezes durante os jogos! Dá p’ra acreditar?! Ele e o Cruijff eram divertidos de mais. Costumava almoçar todos os dias com o Neeskens. Tive de aprender holandês para falar com ele, porque o espanhol dele era tão fraquinho [gargalhada sonora]. E olha lá que ele estava em Barcelona há um ano e tanto, hein.

Quando foi a última vez que o viu?
Chiii… Já lá vai um tempo. Foi em 1999, no centenário do Barcelona. Todos os jogadores de todas as modalidades foram convidados. No jantar de comemoração, um integrante de cada uma das mesas devia falar à plateia e o Cruijff, malandro como sempre, escolheu o Hugo Sotil. Na nossa época de jogador, ele era um avançado peruano e, coitado, era um pouco ignorante. Então, ele foi ao palco, começou nervoso mas as palavras começaram a sair-lhe bem, até de mais, ao ponto de se empolgar consigo mesmo, e despedir-se assim: “Espero rever-vos no próximo centenário.” Agora imagina, todos os ex-jogadores do Barcelona de todas as modalidades, mais presidentes da UEFA, FIFA, federação espanhola, catalão, etc. Quando o Sotil voltou a sentar-se na nossa mesa, o Cruijff pegou no pé dele e não parou mais. Bom, agora só faltam uns quê? Oitenta-e-tal anos para o Sotil nos rever [gargalhas, again].

Numa ocasião, depois da Austrália, parámos em Cabul, no Afeganistão. Havia uma peregrinação de muçulmanos que pararam imediatamente quando se aperceberam da presença do Pelé. Até paravam as guerras só para ver Pelé jogar!

Cruijff como companheiro. Antes tinha jogado com Pelé, no Santos. Como era a convivência com o rei do futebol?
Fácil, porque ele foi o máximo. Cuidava-se como ninguém, dentro e fora do campo, e dava o exemplo, ao contrário de outros talentos mundiais. Costumava dizer-nos: “Não tomem golos que a gente os faz”, como quem diz, vocês aí da defesa cuidem da baliza que nós do ataque vamos fazer a nossa parte. E havia coisas inexplicáveis, sobretudo nas digressões mundiais. Numa ocasião, depois da Austrália, parámos em Cabul, no Afeganistão. Havia uma peregrinação de muçulmanos que pararam imediatamente quando se aperceberam da presença do Pelé. Até paravam as guerras só para ver Pelé jogar! No Senegal e no Egito, por exemplo, aconteceu isso.

Nesses dois anos em Barcelona, quem lhe marcou mais?
Rinus Michels. Esse treinador era um espetáculo. Sabia que fui o único brasileiro a ser treinado por ele? Na estreia oficiosa pelo Barcelona, ele não parava de me fazer sinais para subir no terreno. Pôxa, nunca tinha jogado assim e disse-lhes isso mesmo no balneário, ao intervalo. Mas o Rinus queria uma defesa ofensiva e eu tive de aprender essa marcação à zona com pressão. Mais tarde, quando saí do Barça para voltar ao Brasil, difundi esse esquema entre os brasileiros. O Scolari, por exemplo. Ele jogava no Caxias, eu no Internacional de Porto Alegre, e ficávamos horas a falar sobre táticas do presente e do futuro. Mas porquê o regresso ao Brasil? Na segunda época, o Barça trocou de treinador. Saiu o Rinus Michels e entrou o alemão Hennes Weisweiler, que era de uma escola diferente que privilegiava a marcação individual, o que entrava em choque com a cultura dos nossos jogadores, como Cruijff e Neeskens, e até a do próprio clube. Mas os problemas não se ficaram por aí. Em plena ditadura de Franco, eles [espanhóis] chamaram-me para a tropa. Naquele tempo, a lei da FIFA dizia que um clube só podia ter três estrangeiros no plantel, dois deles em campo. Ora, como eu sou filho de pais espanhóis, fui contratado como espanhol, com passaporte e tudo, o que deixava espaço para Cruijff, Neeskens e Sotil. Mas o Franco chamou-me à tropa e não houve como dar a volta à situação. Argumentei que já tinha feito a tropa no Brasil, o que era verdade. Para quê? Eles tiraram-me os documentos. Tive de voltar ao Brasil. Mas já tenho novamente o passaporte espanhol.

Nesse período em Espanha, deu para sentir a rivalidade Barcelona-Madrid?
No campo, não. Os jogadores conheciam-se e assumiam as suas responsabilidades. Lembro-me do fortão do Camacho [antigo treinador do Benfica], do bigodão do Del Bosque [ex-selecionador de Espanha], da cabeleira afro do alemão Breitner. Mas a rivalidade é intensa fora do campo, entre adeptos, jornalistas e políticos, porque há uma grande diferença cultural. Quando cheguei a Barcelona, uns jornalistas fizeram-me perguntas em catalão e respondi que esse dialeto era difícil. Ficaram ofendidos e disseram-me que o catalão era um idioma mais antigo até que o castelhano.

Última pergunta.
Tranquilo, você pára quando quiser. É a sua última entrevista comigo mêmo [e ri-se a bandeiras despregadas].

Como é que o Marinho chega a capitão do Brasil, ainda por cima num Mundial?
É curioso, isso. No Brasil, a cultura do capitão não é como aí na Europa. Aqui, é o cara mais recuado do campo, fora o guarda-redes. O número 3, vá. O selecionador Mário Zagallo chegou ao pé de mim e perguntou-me ‘você fala português, inglês e espanhol?’. Um pouquinho, respondi eu. ‘Então a braçadeira é sua. Parabéns.’

Parabéns, digo eu. Obrigado pelo tempo Marinho. Abraço e tudo de bom.
Tudo de bom para você e toda a turma aí.