Onde há cowboys, há confusão. A pistola sempre pronta no coldre de cabedal, largos com saloons de um lado e de outro, céu aberto para se estacionar cavalos e, em certos casos, as carroças que os ditos puxam. Estamos na aridez do Oeste selvagem norte-americano, pois claro, no tempo do comboio a vapor, esse que traz a “Westworld” todos os visitantes que querem beber uísque e abrir portas bang-bang com um chuto autoritário.

Tudo seria comum se esta não fosse uma cidade-mentira. Ou, por outra, um parque de diversões do futuro, para adultos onde os escrúpulos não têm lugar e as regras são mania de pobre. Criada por Jonathan Nolan e Lisa Joy, com uma mãozinha de J.J. Abrams na produção executiva, “Westworld” é uma série baseada no filme com o mesmo nome de 1973, cortesia de Michael Crichton. Já estará a ver por onde isto vai. Embora estejamos num longínquo passado western, trata-se de um mundo artifical é por lá que vão acontecer intrigas e mistérios daqueles que costumam ter resultados notáveis nos medidores de popularidade da televisão. E, convenhamos, a HBO aposta muito nesta nva produção.

[o trailer de “Westworld”]

Westworld é um lugar enfeitado, onde os cowboys, os comerciantes, as donzelas, são quase todos robôs. Criaturas sem memórias, criadas para servir os interesses dos transeuntes e a insanidade – talvez também a conta bancária – de Dr. Ford (Antony Hopkins), patrão e diretor criativo do parque. A ficção-científica já chegou à cozinha, igual a dizer ao Texas.

Fomos à antestreia, que tomou conta do Museu da Carris, em Lisboa, e não perdemos nada do primeiro episódio, vulgo piloto, se assim preferimos. E ainda que a ordem seja para voar, calma, façamos as coisas com rigor, como a TV Séries fez para nós. Mal dobramos os portões do Museu da Carris indicam-nos o caminho, a passadeira que nos guia ao elétrico decorado a rigor. A televisão nunca viveu tão bem. O destino, a última paragem, assim o confirma: lemos “Saloon” na sala de exposições que acolhe a iniciativa, somos recebidos por cowboys menos programados e por mulheres de vestidos intermináveis, da época. Lá dentro, há mesas dispostas com cartas e copos de shot, viva o bourbon. Acrescentem-se os fardos de palha para que estejamos todos perante a mesma paisagem.

[uma rápida apresentação, da parte da própria HBO]

Lá vem o genérico – muito bem feito, por sinal – e depressa saltamos para os folhos da saia de Dolores (Evan Rachel Wood), a hóspede mais antiga de Westworld, essa que todos os dias se levanta, desce as escadas com o cesto de verga, diz bom dia ao pai – que está sempre sentado na cadeira de baloiço do alpendre – e lá vai a galope até ao centro da cidade. Como ela tantos outros, androides vestidos de humanos que a cada dia são programados, que a cada enredo podem assumir diferentes atitudes.

Sim, é sobretudo esse o segredo do parque. Tarefa que cabe a Lee Sizemore (Simon Quarterman), o autor da narrativa que aqui se impõe, é o inglês que escreve episódios distintos e que sirvam os interesses da empresa. A sua patroa é Theresa Cullen (Sidse Babett Knudsen), líder de operações, a mulher que impede o colapso, que mete tudo a andar nos carris certos. Todos sabemos, contudo, que às vezes dão-se acidentes e que a melhor máquina se quer sempre vingar do seu criador.

Neste primeiro episódio há peripécias que agitam o topo da pirâmide, coisas que no meio das máquinas não deveriam acontecer. O pai de Dolores encontra uma fotografia que não pertence a Westworld, há um mundo que não é aquele, há o Empire State Building e Piccadilly Circus, há outra vertigem que não os desfiladeiros. Uma emoção inesperada pode provocar um bug, um desfecho final em determinado enredo de Sizemore.

[o trailer do filme de 1973]

Convém sempre falar-se nos inconformados, esses não podem faltar. The Man in Black (Ed Harris) é um destemido pistoleiro que não segue ordens, que parece querer saber mais do que é supostamente permitido conhecer-se. Apostamos que não vai parar até descobrir. Para saber basta ver. A estreia, mundial, em simultâneo com a emissão da HBO nos EUA, é na madrugada de domingo para segunda, às 02h. Não nos esqueçamos de calçar as botas certas.