A Serra da Archeira está lá ao longe e a do Socorro também. Alenquer de um lado, Berlengas do outro: na varanda panorâmica da AdegaMãe, o diretor-geral Bernardo Alves desenha uma rosa-dos-ventos no ar para explicar que do alto da moderna adega, aberta há pouco mais de cinco anos, vê-se de (quase) tudo um pouco, além de vinhas a perder de vista. As inúmeras videiras não estão plantadas em socalcos durienses nem em montados alentejanos. Ocupam, isso sim, as colinas verdejantes de uma Lisboa vitivinícola que, se em tempos perdeu fama para a produção em quantidade, hoje dá cartadas dignas de vencer um all in numa mesa de póquer, onde o que está em jogo é nada mais, nada menos, do que vinhos de qualidade.

“Lisboa tem um potencial elevadíssimo”, atira Anselmo Mendes, também ele virado para uma paisagem que goza de um dia de outono soalheiro. O nome do enólogo é mais facilmente associado à região verde por excelência — de acordo com a edição de dezembro de 2012 da Wine Enthusiast, Mendes é uma referência a nível mundial na produção de Vinho Verde –, mas a promessa lisboeta também lhe enche as medidas e a AdegaMãe é, nesse sentido, uma espécie de casa onde é sempre bem-vindo. Anselmo Mendes foi o consultor do projeto que diz com gosto ter levado mais tempo a ser pensado do que construído. “Fazer uma adega é uma questão de pormenores”, diz enquanto vai mostrando, vaidoso, os cantos do ainda novo edifício.

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A AdegaMãe, com pouco mais de cinco anos, é dotada de uma varanda panorâmica virada para uma imensidão de vinhas. (Foto: DR)

Se as orientações de Anselmo ajudaram na construção de um edifício de linhas direitas plantando à beira das vinhas, os vinhos devem-se sobretudo à participação de Diogo Lopes, considerado o enólogo residente — não esquecer, porém, que Anselmo e Diogo trabalham juntos desde 2004. Da química entre ambos nasceram vinhos de Lisboa (e não só) que vão ganhando nome e fama, uma tarefa à partida não muito fácil de concretizar: “O desafio era imenso. Não tínhamos nada nem ninguém para nos balizar — tínhamos de ser efetivamente nós próprios a construir o nosso presente e o nosso futuro, tínhamos de ser nós próprios a plantar castas e estudá-las”, conta Diogo Lopes.

Todo o bom profissional que se preze acata com gosto um desafio e, ao todo, hoje contam-se cerca de 16 referências de vinho, das quais Dory é a marca principal (há ainda a gama Pinta Negra e os monocastas). E porquê esse o nome de batismo? O projeto assinado pela empresa apostada no rei dos mares gelados, a Riberalves, que curiosamente está a poucos minutos de distância, é uma homenagem constante. Expliquemo-nos: Dory vem de dóris, pequenas embarcações em tempos usadas na pesca do bacalhau e transporte para vidas difíceis, marcadas pelo mar e sua disposição — não é por acaso que à entrada da divisão que é preenchida por cubas de inox e restante equipamento vinícola está um desses barcos esculpidos na madeira. Outra homenagem, agora mais evidente, é o próprio nome AdegaMãe, que honra a matriarca da família Alves, Manuela Alves, que tanto contribuiu para dar ao bacalhau uma companhia vínica à mesa.

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Ei-los, os novos topos de gama, AdegaMãe Terroir Tinto 2012 e Branco 2013, e as novas colheitas Dory Reserva Tinto e Reserva Branco. (foto: DR)

“A região de Lisboa como um todo contribui muito para a diferenciação dos vinhos de Portugal”, diz Diogo Lopes para, depois, explicar o perfil de vinhos que são produzidos na AdegaMãe. Uma coisa é falar de brancos, outra é falar de tintos. Isto porque as castas brancas estão plantadas diante da adega e beneficiam de uma influência atlântica dada a proximidade com o mar, o que confere mineralidade, frescura e acidez firme aos vinhos. Já nos tintos, as videiras que lhes dão vida encontram-se do lado de lá das serras que se avistam a olho nu, para os lados de Alenquer, para aí gozarem de um clima mais quente.

E enquanto os vinhos da vindima de 2016 — que acabou na semana passada — não chegam à mesa, há os primeiríssimos topos de gama aptos a serem provados. Falamos dos novos AdegaMãe Terroir Tinto 2012 (touriga nacional e merlot) e Terroir Branco 2013 (viosinho, alvarinho e arinto) que são produzidos a partir de colheitas excecionais — e só em anos excecionais são reeditados. São vinhos exclusivos e limitados: existem apenas 3006 garrafas para a versão tinta e 2765 para a branca, sendo que todas elas são numeradas. A par e passo com a estreia da marca Terroir, a AdegaMãe lança ainda no mercado as novas colheitas Dory Reserva Tinto e Reserva Branco.

O projeto apostado no vinho e no enoturismo — visitas com prova incluída a partir de 6€, sujeitas a marcação — quer ajudar a projetar a região vitivinícola de Lisboa no mapa nacional e, quiçá, internacional. E se à partida pode ser curioso passar do bacalhau do Grupo Riberalves para o vinho da AdegaMãe, convém não esquecer que a base das duas empresas é a mesma: comer e beber em família.

Nome: AdegaMãe
Morada: Estrada Municipal 554 – Fernandinho, Ventosa, Torres Vedras
Telefone: 261 950 100
Site: www.adegamae.pt

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