Cada vez mais me convenço que sim!

Durante décadas, a grande questão da indústria do vinho parecia simples: como vender mais?

Hoje, a pergunta que importa é outra: a quem estamos realmente a tentar vender?

É uma questão desconfortável, mas necessária. A meu ver, uma questão que não tem sido debatida nem discutida o suficiente, para que se encontrem respostas ou linhas orientadoras de atuação perante mudanças drásticas que o setor enfrenta a todos os níveis. Grande parte do setor continua a desenvolver produtos, campanhas e estratégias comerciais, conforme a capacidade de investimento de cada um, para um consumidor que, em muitos casos, já não existe. Um consumidor que bebia vinho diariamente à refeição, que era fiel à mesma marca durante décadas e para quem a compra de uma garrafa era um gesto quase automático.

Esse contexto mudou.

As novas gerações cresceram rodeadas por uma oferta praticamente ilimitada de escolhas. O vinho já não compete apenas com a cerveja ou os destilados. Compete pelo tempo, pela atenção e pelo interesse de consumidores que dividem o seu quotidiano entre viagens, bem-estar, gastronomia, experiências culturais, plataformas digitais e novas formas de socialização.

Ao mesmo tempo, assistimos a uma mudança profunda nos hábitos de consumo. A preocupação com a saúde, o equilíbrio e a moderação faz com que beber menos seja, para muitos, uma opção consciente. Isso não significa que o vinho tenha perdido espaço. Significa que passou a ter de justificar a sua relevância.

É aqui que reside o verdadeiro desafio.

Durante demasiado tempo acreditámos que bastava produzir melhor. Mas a qualidade, sendo indispensável, deixou de ser suficiente. Portugal produz hoje vinhos extraordinários de norte a sul do país. Felizmente, a excelência deixou de ser uma exceção para se tornar uma expectativa e que, por isso, sabendo eu que me repito até à exaustão, tem que ser valorizado e pago de modo a compensar toda a cadeia de produção que leva um vinho da vinha à mesa…

A diferença já não está apenas na garrafa ou no investimento maior que se possa fazer para lançamentos e campanhas…

Está na capacidade de construir marcas, contar histórias e criar ligações emocionais com quem compra.

O consumidor contemporâneo quer conhecer o produtor, compreender o território, descobrir as pessoas por detrás do vinho e sentir que aquela escolha representa mais do que um produto. Procura autenticidade, identidade e experiências memoráveis.

Nós temos tudo para responder a essa procura: diversidade rica de castas, paisagens, património, gastronomia e hospitalidade.  Há poucos países que conseguem oferecer uma ligação tão autêntica entre vinho, cultura e estilo de vida.

O paradoxo é que continuamos, muitas vezes, a comunicar como se estivéssemos apenas a vender um produto agrícola.

Não estamos.

Estamos a vender território, cultura, conhecimento, tradição e inovação. Estamos a vender a história de comunidades inteiras e a forma como um país se apresenta ao mundo.

Outros setores compreenderam esta transformação há muito tempo. O turismo deixou de vender camas para vender experiências. A indústria automóvel deixou de vender apenas automóveis para vender inovação, design e estilo de vida. As marcas de luxo nunca venderam apenas objetos; vendem pertença, identidade e emoção.

O vinho português precisa de assumir essa mesma ambição.

Isso implica investir menos numa lógica de volume e mais na construção de valor. Significa comunicar melhor, conhecer mais profundamente os mercados, aproximar-se das novas gerações e compreender que o consumidor atual procura relação antes de transação.

Esta mudança não é apenas um desafio para o setor vitivinícola. É uma reflexão que diz respeito à economia portuguesa.

Num mercado global, já não basta fazer bem. É preciso ser relevante. Já não basta produzir com qualidade. É necessário criar valor, diferenciação e desejo.

O futuro do vinho português não dependerá apenas da próxima vindima. Dependerá da capacidade de compreender quem serão os consumidores da próxima década e da coragem para adaptar estratégias, linguagens e modelos de negócio a essa realidade.

Porque talvez o maior risco que enfrentamos não seja produzir vinho a mais.

É continuarmos a produzi-lo para consumidores que já não existem.