Onze horas antes de este artigo começar a ser escrito, o New York Times escrevia que Hillary Clinton tinha 85% de hipóteses de ganhar a Casa Branca e que as probabilidades de Donald Trump ser o próximo Presidente dos Estados Unidos se reduziam a uns humilhantes 15%. As previsões do mesmo jornal norte-americano para as votações davam 45,9% a Hillary Clinton e 42,8% a Donald Trump. Os valores estavam dentro da margem de erro, mas o que as notícias destacavam era a liderança da democrata. Trump não ia ganhar — tudo indicava que não — Trump não podia ganhar. Mas Trump ganhou.

Vinte e uma horas antes de este artigo começar a ser escrito, a CNN também tinha publicado um artigo a dizer que a mais recente revelação de que o FBI estava a investigar um segundo conjunto de emails de Hillary Clinton, tinha prejudicado a candidata nas sondagens. Ainda assim, a ex-secretária de Estado aparecia com cinco pontos de vantagem na última sondagem CNN/ORC.

Nos últimos dois meses, segundo o jornal britânico Daily Telegraph, pelo menos dez sondagens publicadas no site Real Clear Politics colocavam Hillary na liderança. Nove desses estudos eram do LA Times e apenas um era da Fox, de um total de 93 sondagens ao longo de setembro até ao início de novembro. As sondagens agregadas do Telegraph punham Clinton e Trump no mesmo patamar antes da votação. Mas, por exemplo, na Flórida, Trump teve mais 1,4% do que o jornal inglês tinha estimado. Estados como Ohio e Carolina do Norte — que segundo as previsões davam Hillary a ganhar — acabaram dominados por Trump.

“É óbvio que alguma coisa aconteceu”, disse à AFP Larry Sabato, especialista em sondagens e professor na University of Virginia, por tantas centenas de sondagens terem falhado.

A bola de cristal fez um grande crack, meu amigo”, afirmou Sabato à AFP.

O problema pode ter a ver com a composição da amostra. Segundo Sabato, muitas empresas de sondagens constroem as suas amostras com base na composição do eleitorado que votou na eleição anterior. Assim, as sondagens simplesmente subestimaram o número de apoiantes silenciosos de Donald Trump, que evitam os inquéritos. A participação eleitoral subiu nas zonas rurais e isso escapou aos especialistas. Segundo a AFP, até as tracking polls internas da campanha de Clinton interpretaram mal o sentido de voto das classes trabalhadoras brancas. “Eles estavam completamente errados e gastaram uma fortuna”, disse à AFP, sob anonimato, um especialista da campanha democrata.

O português Rui Oliveira e Costa, da Eurosondagem, diz ao Observador que as sondagens dos jornais norte-americanos “tinham amostras muito pequenas para o universo do eleitorado”. Segundo o especialista as duas campanhas deviam ter estudos mais precisos do que os próprios media, com amostras grandes por estado. Só assim se explica, no seu entender, que os candidatos não tivessem apostado em estados como o Ohio na ponta final, porque deviam ter sondagens a dizer que já estava resolvido para um dos lados, neste caso para Trump.

Trump e Brexit, o mesmo fenómeno?

O fenómeno Trump poderia ser semelhante ao do Brexit? Enquanto na reta final da corrida para a Casa Branca, Trump e os seus apoiantes lançavam todo o tipo de desconfiança sobre as sondagens, Nigel Farage, ex-líder do UKIP e principal rosto a favor do Brexit no referendo britânico de 23 de junho, afirmou numa entrevista à CNN: “No dia do voto, houve um estudo de opinião que nos colocou dez pontos atrás, mas ganhámos”. Farage argumentava que as sondagens erraram por causa da participação eleitoral das pessoas que não costumavam votar.

Na mesma entrevista, Nigel Farage, acrescentava: “As modernas empresas de sondagens não conseguem chegar às pessoas que não votam e que estão a reentrar no sistema.” E perguntava, antes de imaginar a materialização da vitória do multimilionário republicano: “Será que Trump está a chegar aos não votantes? Dizem-me que as novas inscrições de votantes é muito alta. Pode ser que Hillary esteja à frente, mas talvez nem tanto”. O homem que conduziu os britânicos à saída da União Europeia tinha razão.

Ainda assim (antes de saber o resultado) a CNN escrevia o contrário. Citava John Curtice — um veterano das sondagens no Reino Unido –, a dizer que os inquéritos de opinião britânicos sobre o Brexit tinham sido muito precisos. “No final, a média das sondagens era de 51-52% para o Remain e algumas colocavam o Leave à frente e na internet as sondagens diziam que era uma questão de 50-50 desde o início”. Os britânicos acabaram por dar 51,9% à saída da UE. Curtice, no entanto, admitia que, “se Trump conseguir o voto das pessoas que normalmente não votam, e que normalmente não são apanhadas nas sondagens, então as sondagens podem estar erradas”.

Podiam estar e estavam. Mona Chalabi, colunista do Guardian, escreveu o seguinte poucas horas depois de se confirmar a vitória de Donald Trump: “As sondagens estavam erradas. Como estávamos obcecados em prever opiniões em vez de as ouvirmos, não percebemos o que estava para vir”. Às 15h45 de Lisboa, esta quarta-feira, afinal Hillary liderava mesmo o voto popular: tinha 47,7% dos votos a nível nacional contra 47,5% de Trump. Mas Donald tinha 289 grandes eleitores e Clinton apenas 218. Nos últimos dias, o site FiveThirtyEight dava apenas 33% de hipóteses a Trump.

As estatísticas, pelo menos segundo Mona Chalabi, podem nem sempre ser frias e objetivas. A jornalista conta, na sua coluna, que passou dois anos a trabalhar para o FiveThirtyEight, o site especializado em data journalism e saiu desiludida: “Às vezes parecia que a interpretação que eles faziam da matemática não estava livre de tendências subjetivas.”

Mas não foi apenas o site FiveThirtyEight a enganar-se: “O New York Times errou, tal como a Reuters, a NBC News e muitos outros. Quase toda a gente errou, porque não puderam resistir à tentação de tentar adivinhar o comportamento humano”, escreveu Chalabi.

As últimas semanas podem ter sido decisivas. A diferença estava a encurtar-se entre os dois candidatos rivais, mas todos os inquéritos continuavam a manter Hillary na frente. Trump tinha-se afundado nos estudos de opinião depois do escândalo “grab them by the pussy, mas havia de recuperar com a segunda investigação aos emails de Clinton. Por sua vez, Hillary melhorou as perceções junto do público quando o FBI disse que não havia indícios de crime. Mas não chegou.

Na terça-feira de manhã, dia da eleição, as últimas sondagens mostravam que a disputa ia ser apertada, e que Hillary era a mais provável vencedora. Uma semana antes, o Daily Telegraph escrevia que Clinton já tinha 247 delegados garantidos e Trump apenas 164: só os restantes estavam em disputa. O resultado seria mais ao contrário.

Kellyanne Conway, diretora de campanha de Trump, já em agosto tinha dito que os estudos estavam errados, mas porque as cadeias de media estavam apostadas na destruição do candidato republicano. No dia da sondagem decisiva, o inesperado aconteceu.