É sempre a mesma coisa. Nesta época do ano, o sufixo Natal está presente em todo o lado. É o almoço de Natal, é o jantar de Natal. É o lanche de Natal. É o brunch de Natal. Tudo é desculpa para acrescentar Natal ao que seja. À segunda-feira, pimba, jantar de Natal com um barreirense da CUF. À terça, vai buskar, almoço de Natal com um barreirense do Barreirense. À quarta, jantar de Natal no Fondue, com carne de Kobe. Quem está à nossa frente? Um barreirense do Barreirense. O Barreirense, onde pára o Barreirense? É o 8.º e antepenúltimo classificado da série G do CNS. Tem 105 anos de história.

Nesse século de vida, dezenas de figuras desfilaram pelo clube. O site oficial nomeia, por exemplo, 15 figuras indiscutíveis do seu passado, algumas delas ligadas ao Barreirenses apenas nas camadas jovens (Arsénio, com carreira no Benfica) e outras com passagem meritória na equipa principal (José Augusto e Bento). Há ainda o caso de Chalana: seis jogos em 1974-75 bastam-lhe para entrar no panteão dos imortais. Daí para o Benfica, Selecção AA, Bordéus e por aí fora. Com Nelinho, idem. Quem? Manoel Rezende de Mattos Cabral. Quem? O Nelinho do Barreirense 1970-71 é o Nelinho da selecção brasileira nos Mundiais 1974 e 1978.

Seis jogos em 1970-71 são suficientes para estar no 15 ideal do site do Barreirense. Daí para o Cruzeiro (uma Taça Libertadores e quatro estaduais mineiros), seleção do Brasil, Atlético Mineiro (mais quatro estaduais de Minas Gerais) e um golo histórico no Mundial-78. Pelo meio, garantem os historiadores do futebol brasileiro, Nelinho marca 210 golos em jogos oficiais, entre estaduais, Taça do Brasil, campeonato nacional e Libertadores. Duzentos-e-dez. Só no Cruzeiro, 105. É o 13.º melhor marcador de sempre do clube. E olhe lá que ele é lateral-direito. Lá, na Toca da Raposa, é o rei dos golos de livre (42) e de penálti (38). Em Portugal, no Barreirense, não tem sorte nenhuma. Dos seis jogos, zero golos. Em honra aos amigos do Barreiro do Natal (lá está, o sufixo), eis Nelinho ao vivo e a cores desde Belo Horizonte.

Boa tarde Nelinho, como vai?
Tudo jóia. E você?

Tudo impecável. Falo de Portugal e gostava de trocar bola com o Nelinho sobre o Barreirense.
Olha, por essa não esperava eu. Diz aí filho, tenho saudades desses tempos de moço imberbe.

Jogou lá em 1970-71.
Isso mesmo.

Como é que um miúdo de 20 anos atravessa o Atlântico para jogar futebol?
Foi tudo uma sucessão de acontecimentos. Naquela altura, eu era júnior do América, a terceira força do futebol mineiro depois de Cruzeiro e Atlético Mineiro. O meu treinador era o Otto Glória.

Chiiii, já entendi tudo.
Ééééé, o cara era fera. Treinou Benfica, FC Porto, Sporting, Belenenses e até a seleção portuguesa no Mundial-66. Ora, em 1970, o Barreirense falou com ele e pediu-lhe que ele sugerisse um nome para assumir o clube. O sô Otto então apontou o seu adjunto, um tal Edsel Fernandes. O Barreirense aceitou esse nome e o Edsel Fernandes acabou por ir treinar ao Barreiro. Como bónus, levou-me com ele.

E como foram os seus tempos aqui?
Mais ou menos. Joguei num outro campeonato, bem diferente do mineiro, porque em 1970 ainda não havia o Brasileiro como vocês o conhecem agora. Esse só foi criado em 1971. Aí em Portugal joguei seis vezes no campeonato e mais duas na Copa UEFA.

A sério?
Sim, foi a única vez que o Barreirense jogou na Europa, via-quinto lugar da época anterior, e eu estava lá. Foi outro motivo de orgulho na minha ainda curta carreira. Ganhámos 2-0 ao Dínamo Zagreb em casa mas depois não tivemos qualquer hipótese na Jugoslávia (1-6).

E no campeonato?
Nem me fala. Só conseguimos ganhar à 14.ª jornada, a primeira da segunda volta!

O quê?
Calma aí. Também não fomos assim tão mal, porque havíamos empatado seis vezes e perdido sete.

E o Edsel Fernandes?
Já tinha ido embora faz tempo, substituído por um [Artur] Quaresma. Lembro-me que o seu último jogo foi com o Benfica, lá no Barreiro. Perdemos 2-0 mas tive um orgulho enorme em estar no mesmo campo que o grande Eusébio. Pôxa, imagina só a minha adrenalina. Nem sei se nesse dia ele marcou algum golo [não senhor, isso está a cargo de um defesa goleador – Humberto Coelho, who else? – e Artur Jorge]. Antes desse resultado, lembro-me de outro jogo histórico, quando fomos empatar 2-2 às Antas. O ambiente que vivi nessa tarde nem dá para contar. O estádio cheio, cheio, e nós com uma calma sensacional. Estivemos a ganhar duas vezes mas eles marcavam sempre a seguir [Câmpora 2’, Abel 25’, Câmpora 46’ e Custódio Pinto 49’].

Mas então nessa 14.ª jornada o que aconteceu?
Ahhhhh, essa é melhor você se sentar. Ganhámos ao Sporting, então o líder do campeonato, e em Alvalade. Foi 1-0, golo do Serafim. Mas aí eu já não jogava.

Porquê?
Lesionei-me na virilha em Outubro/Novembro e aquilo nunca mais sarou. Sentia dores incríveis. O tempo passava, passava, passava e eu nada de treinar, nem de jogar. Que dores! Os directores não acreditavam em mim, julgavam que eu estava a fazer fita e que me queria ir embora. Lembro-me perfeitamente que só o massagista é que acreditava em mim e dizia-me sempre para confiar em mim, que eu ia superar aquele momento.

E o nome dele?
Não me lembro mas recordo-me da sua figura. Era um senhor gente boa prá caramba, de setentas e muitos anos, Já morreu. Sei disso porque há já muito tempo entrevistaram-me aí de Portugal sobre isso. Alguém que sabia da minha amizade por ele.

Lembra-se de quem então?
Do Bento [guarda-redes], aquele que jogou no Benfica e na seleção. Foi o meu primeiro guarda-redes como profissional. Em 1970-71, ele já era famoso porque tinha uma agilidade inacreditável e marcara um golo no campeonato [à Académica], de baliza a baliza. Havia mais quem? O Mira, um jogador técnico-cerebral, os goleadores Serafim e Câmpora, o capitão João Almeida, um cara com um nome bacana, Murraças.

E o Nelinho?
É, e eu.

E saiu quando do Barreiro?
Em Fevereiro. Como eu nunca mais ficava bom e os dirigentes não acreditavam em mim, pedi-lhes para voltar ao Brasil. Ainda por cima, era época de Carnaval e eu queria estar era no Rio. Eles libertaram-me mas não totalmente porque ficaram-me com o passe. Jovem e inconsciente como era, nem liguei. Só quando cheguei ao Brasil é que percebi que não podia jogar por mais nenhum clube. Estava agarrado ao Barreirense.

E agora?
A minha sorte foi o Barreirense ter acabado mal o campeonato, acho que foi antepenúltimo [na realidade foi 10.º entre 14, só com dois pontos de avanço sobre o último, Varzim]. O problema foi que um dos clubes atrás do Barreirense [entre V. Guimarães, Farense e Leixões] meteu um recurso para evitar de descer de divisão, alegando que eu estava mal inscrito, porque a minha ficha no Barreirense dava-me como luso-brasileiro. Acontece que eu sou luso-brasileiro.

Então?
Os meus pais são de Portugal. Os meus avós também. De Ovar. Por isso, quando esse clube meteu recurso, o Barreirense veio falar comigo para eu assinar um papel em como era luso-brasileiro. Acontece que só tinha 20 anos e ainda não era maior. O meu pai é que tinha de mexer com essa papelada e assinar por mim. Eu então propus um negócio ao Barreirense: eles davam-me o passe e eu entregava-lhes a carta assinada pelo meu pai a respeito da minha dupla nacionalidade. Assim foi. Fiquei livre para jogar onde quisesse e o Barreirense livrou-se da descida [na época seguinte, o campeonato nacional cresce de 14 para 16 equipas e dos últimos cinco classificado, só o “lanterna” Varzim é que efetivamente desce]

A partir daí, foi só curtir?
Que nada. Estive três meses na Venezuela, com companheiros do América, mas aquela liga era fraca demais, embora pagasse bem. Regressei ao Brasil.

E tornou-se um ícone?
Obrigado.

Então você não é o Nelinho do Mundial-78?
Sim, obrigado.

Não marcou dois golos na Argentina?
Foi muito bom. Um de livre, à Polónia. E outro à Itália, com o Zoff na baliza.

https://www.youtube.com/watch?v=OdA0I1Kd2OM

Não foi esse o golo que o celebrizou?
É verdade, um remate de longe.

Não foi uma trivela?
Quase, quase. Foi um momento feliz. O Brasil ganhou 2-1 e ficámos em terceiro lugar, num Mundial em que merecíamos ter ganho. Afinal, não perdemos qualquer jogo dos sete.

Venceu a Argentina em casa, não foi?
Sim.

É aquele Mundial em que a Argentina precisa de ganhar 4-0 ao Peru para garantir a final e, ao mesmo tempo, eliminar o Brasil e acaba por fazer 6-0. Esquisito?
Não, não. Não acredito em corrupção. Nós também jogámos com o peru e ganhámos fácil, por 3-0, e podiam ter sido seis. Na boa. O esquisito desse Mundial foi a ditadura militar que se vivia na Argentina. A gente estava sempre no hotel mas o caminho para o treino ou o jogo era dramático. As pessoas quase não se manifestavam, com medo de tudo e mais alguma coisa. Sem falar na extrema segurança nas ruas, com muitos soldados e armas.

Em 1978, já era o pé canhão. Porque não testou esse remate no Barreiro?
Era jovem, 20/21 anos. Os mais velhos não me deixavam. O Mira queria marcar sempre tudo [risos].

Depois ficou célebre aquela reportagem da TV Globo em que o Nelinho chuta a bola para fora do Mineirão, um dos maiores estádios do Mundo.
Nessa tarde, o repórter dizia que entre o relvado e a bancada eram 36 metros. Acredito mas aquilo era fácil para mim. Atirei a bola, ela subiu, passou a bancada e só saiu lá do outro lado. Foi outro momento especial. Como jogar no Barreirense, viver em Portugal, ir à seleção, ganhar um monte de títulos no Cruzeiro e no Atlético Mineiro.

Com um bocado de sorte e com esse pontapé, ainda se tornava jogador de futebol americano?
Não brinca não. Uma vez, o Cruzeiro fez uma digressão em Chicago e eles lá sabiam da potência do meu remate. Então pediram-me para fazer uns testes em meter aquela bola deles, que é também bem fácil de controlar, naquele H gigante, né?

E o que se passou?
Estava machucado e não pude fazer o teste. Mas se fizesse, era “golo” [gargalhada sonora]. De certeza. Tão certo como eu ter atirado a bola para fora do Mineirão.

Mineirão é a casa do Cruzeiro, onde o Nelinho se sagrou campeão mundial, certo?
Isso ai, ganhámos ao River Plate.

E apanhou por lá um treinador chamado Yustrich, campeão português pelo Porto em 1956.
Nem mais. O cara era complicado à beça. Tinha uns métodos nada a ver, muitos arcaicos. Um jogador saía de maca, machucado, e ele botava o cara para dentro de campo sem ligar nenhuma à condição física. Às vezes, batia nos jogadores mais novos. Uma vez, ele fez uma preleção no vestiário e disse a todos os jogadores que éramos obrigados a voltar para a concentração depois do jogo. Ora, o Cruzeiro é de Belo Horizonte e eu sou do Rio de Janeiro. Como tal, queria estar com a minha família depois do jogo. Cheguei à concentração, a famosa Toca da Raposa, e pedi licença para falar. Disse-lhe que era carioca e não mineiro. Por isso, queria ver a minha família no domingo e só voltaria a apresentar-me ao Cruzeiro na segunda-feira de manhã. Como costumava fazer com outros treinadores. O Yustrich levantou a voz e falou: “Isto era o que você fazia. De agora em diante, você não vai fazer mais. Não deixo não”. Respondi-lhe na hora: “Olha, eu não estou pedindo para ir não, estou te comunicando que eu vou sempre e vou continuar indo.” O Yustrich estava com uma faca na mão e, às tantas, cravou-a na mesa enquanto gritava: “você acha que está falando com quem menino?”. Eu, calmo: “Estou falando é com o senhor mesmo”. Ele levantou-se e o Raúl, um jogador que estava a assistir à conversa, meteu-se no meio. Eu saí e nunca mais contei com o Yustrich para nada.

Há aquele golo célebre de livre direto ao Boca Juniors.
Pois é, aí o Yustrich queria fazer gracinha comigo. Como fazia com todo o mundo: ele costumava entrar no campo e agredir os jogadores. Dessa vez, ele entrou em campo e fiquei ali, à espera dele. No meio do caminho, ele deve ter pensado melhor e encheu-me de abraços mais beijos. No vestiário, todo o time festejava a vitória e a qualificação junto com um monte de repórteres, ele vira-se e diz-me: ‘obrigado por ter feito o golo para mim.’ Virei-me e disse-lhe logo: ‘Rapaz, tu é muito cara de pau, vê se eu vou fazer golo para você, deixa de ser sem vergonha. Eu fiz o golo para o Cruzeiro, para mim e os meus companheiros. Nunca iria fazer um golo para você. Você não merece não.’

Uyyyy, queimou o filme.
Ki nada.

Reecontrou o Yustrich?
Mais tarde, nos anos 80, ele novamente no Cruzeiro e eu no Atlético Mineiro.

O Nelinho também jogou no Atlético Mineiro [maior rival do Cruzeiro]?
Foi engraçado. Quer dizer, os primeiros tempos foram até difíceis. Alguns jogadores do Atlético não me passavam a bola. Há um treino que o Cerezo recebia as bolas e só jogava para o lado esquerdo. Nem uma para mim. Às tantas, berrei para ele, disse um palavrão e perguntei: ‘qual é, não vai me passar a bola, não?’. A Vila Olimpica estava cheia de torcedores a ver o treino. Ato contínuo, o Cerezo atira-me uma bola com força demais. Dominei-a e devolvia-a. Com mais força ainda. Ele só teve tempo de baixar a cabeça. Nesse momento, os adeptos do Atlético apoiaram-me: ‘é isso Nelinho, põe moral aí”.

Como foi o Cruzeiro-Atlético?
Fiz um golo e saí a correr para festejar. De repente, estava na cara do Yustrich, junto ao banco do Cruzeiro. Foi tudo involuntário, atenção. Nem pensei. Parei e os meus companheiros abraçaram-me. À frente do Yustrich. A torcida do Cruzeiro ficou brava, só que o negócio foi involuntário.

Só para acabar, como foi jogar com a Holanda no Mundial-74?
Olha, eu não joguei essa partida. Foi o Zé Maria no meu lugar. Foi o Zagallo que preparou essa surpresa. Nós até criámos lances de perigo, pelo Jairzinho, só que a Holanda tinha um défice de estrelismo. Não havia vaidade nenhuma, eles só queriam jogar futebol, na tranquilidade. Eu vi o Cruijff a marcar o nosso ponta esquerda enquanto o lateral-direito não recuperava o lugar. Todos cobriam todos, daí a razão do sucesso.