Desde o início com a ambição assumida de ser uma rival directa da norte-americana Tesla, a Faraday Future (FF), startup de capitais chineses mas sedeada na Califórnia, acaba de dar mais um passo rumo à concretização das suas pretensões. Apresentou na Consumer Electronics Show (CES) 2017, que decorre em Las Vegas, a versão de produção daquele que será o seu primeiro automóvel – o crossover 100% eléctrico FF 91.

“O mundo precisa de um corte com passado”, afirmou, na ocasião, o vice-presidente sénior para a Pesquisa, Investigação e Engenharia na FF, Nick Sampson, sobre o FF 91. Acrescentando que, mais do que rival do Tesla Model X, o automóvel agora apresentado contribuirá para “um planeta mais limpo, um futuro mais radioso, assim como uma existência mais plena para a Humanidade”.

Mas apesar das ambições ao mais alto nível, o FF 91 arrancou com um relativo fiasco. A plateia foi informada que, depois de deixar o orador no palco, o FF 91 seguiria sozinho para o parque de estacionamento onde trataria de encontrar um lugar para parquear, uma solução similar ao valet parking, mas sem o condutor, ou seja, o valet. As expectativas estavam em alta, o público preparado para assistir a algo histórico – a demonstração daquilo a que a Faraday chama Auto Valet – e, dada a ordem através da aplicação da marca para o FF 91 ir à vida dele, o monstro com mais de 1000 cv foi incapaz de se mexer um centímetro.

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Segundo Sampson, que antes de ingressar na FF trabalhou em outros construtores automóveis como a Lotus ou até mesmo a Tesla, poderão ter sido os materiais utilizados no tecto do edifício onde decorre o CES, a interferir na capacidade de estacionamento do FF 91. Menos mal que, recorrendo a uma segunda unidade, o crossover eléctrico lá provou ser capaz de ir à procura de um lugar onde estacionar sem qualquer ajuda. Após a ordem ter sido dada através da app, o FF 91 fez aquilo que os condutores humanos tradicionalmente fazem: andar às voltas até encontrar um espaço vago. E, uma vez encontrado o espaço indicado, o FF91 detectou-o e estacionou. Não à primeira, mas arrumou com sucesso, sem bater em ninguém e bem ao meio do lugar que estava vago.

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Crossover FF 91 maior que o Model X

O FF 91 é um crossover de estética futurista, com um comprimento total de 5,25 m e 3,20 m na distância entre eixos. Ou seja, com cerca de 15,24 cm mais que um Tesla Model X.

Sobre a estética exterior, os responsáveis da Faraday garantiram que foi totalmente desenhada tendo como único princípio orientador a aerodinâmica, opção que permitiu obter um coeficiente de aerodinâmica de 0.25. Valor ainda assim superior ao de um Toyota Prius ou de um Tesla Model S, ambos com 0.24.

Igualmente a pensar na aerodinâmica, soluções como a antena dupla no tejadilho, a câmara traseira escondida sob o generoso spoiler traseiro, ou até mesmo as jantes de 22″, equipadas com pneus de medidas 275/40, cuja inclinação dos raios muda automaticamente para uma menor resistência ao vento, à medida que a velocidade aumenta. Sem esquecer a troca dos retrovisores exteriores por câmaras, embora colocadas na ponta de braços, para que nos mercados onde a legislação não as permita, possam ser substituídas pela solução mais tradicional.

Na base do FF 91, o já anunciado novo chassi Variable Platform Architecture (VPA), com as baterias colocadas no piso do automóvel e os motores posicionados em cada um dos eixos, com a eficácia no comportamento a ser fruto da suspensão activa e das rodas traseiras direccionais.

Já no que diz respeito ao propulsor, a FF garante conseguir não só uma potência total de 1.050 cv, como também um binário máximo de 1.800 Nm. Valores suficientes para garantir acelerações das 0 às 60 milhas/h (0-96 km/h) em apenas 2,39 segundos – mais rápido do que qualquer Tesla, ou até mesmo um Ferrari 488 GTB, entre outros. E, se dúvidas houvesse, a FF fez questão de o demonstrar em palco.

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Apesar dos custos que tais prestações implicam, o FF 91 reclama uma autonomia de mais de 700 km, segundo o sistema NDEC, valor explicado, em parte, pela opção por um enorme pack de baterias com capacidade de 130 kWh. No caso da Tesla, por exemplo, o maior dos packs de baterias não ultrapassa os 100 kWh.

Refira-se ainda que a FF optou por baterias cilíndricas de iões de lítio desenvolvidas pela LG Chem, embora sem que nenhuma das companhias revele qual será a responsável pelo seu fabrico. Sendo que, juntamente com as baterias, o FF 91 será entregue com uma estação de carga própria para instalação em casa do proprietário, a qual podendo ser utilizada tanto com potências de 110 V como de 240 V, estará apta para carregamentos a voltagens de 1.5, 10 ou 15 kW.

Igualmente capacitado para carregar as baterias em qualquer posto de abastecimento público, o modelo da Faraday apresenta ainda a vantagem de, na estação de carga instalada em casa e com a voltagem mais alta (240 V), conseguir carregar totalmente as baterias em 4h30. Podendo recorrer igualmente a supercarregadores com capacidades até 200 kW.

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Mais equipado que Tesla

No entanto, tão ou mais surpreendente, são as capacidades de condução autónoma que a FF anuncia para o seu modelo, o qual, logo à partida, conta com mais sensores que o Autopilot 2 da Tesla – ao todo, 10 câmaras, 13 sensores de radar, 12 sensores ultra-sónicos e um scanner 3D LIDAR, que emerge do capot dianteiro do carro, sempre que a condução autónoma é activada. E que serve também, a par das luzes no tejadilho, para avisar outros condutores e peões de que o FF 91 está em modo de condução autónoma.

Outra das tecnologias incluídas é uma espécie de identidade online denominada de FFID, que permite ao condutor, recorrendo a uma ligação wireless e a um smartphone, ligar o carro, após um processo de segurança que implica inclusivamente reconhecimento facial. Sendo que, uma vez conectado com o carro, o sistema configura igualmente a posição dos bancos e todos os restantes parâmetros, de acordo com as preferências do condutor que se prepara para iniciar viagem.

A suportar esta ligação… e tudo o mais, uma rede wi-fi fornecida, não por um, mas por dois modems de alta potência, os quais têm também como função manter permanentemente activa uma ligação online de alta velocidade. Capaz de garantir, a qualquer momento, todo o tipo de downloads para o veículo, sejam eles filmes, séries ou até mesmo televisão, a que os ocupantes vão poder assistir quando o FF 91 circular em modo de condução autónoma.

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Do equipamento fazem ainda parte vários ecrãs finos em LED, um tecto panorâmico, além daquilo que parece ser um enorme ecrã táctil, um pouco à imagem das soluções empregues na Tesla.

Aliás, importa dizer que a FF pouco revelou do interior do carro nesta apresentação, a não ser através de (mais) um teaser em vídeo. E que deixou a impressão de que do habitáculo farão parte soluções como comandos que emergem da consola central, controlos sensíveis ao toque, bancos de inspiração aeroespacial, além de muitas luzes e ecrãs. Tudo isto num ambiente que, segundo o fabricante, será espaçoso e de primeira classe, com bancos traseiros que rebatem até 60 graus.

Apesar da produção estar destinada para a nova fábrica que a Faraday tem vindo a construir no Nevada, EUA, a qual não está, no entanto, ainda terminada, os responsáveis da startup esperam poder entregar a primeira unidade do FF 91 em 2018. Para os interessados que queiram desde já tomar posição, a FF abriu um período de registo para potenciais compradores, no próprio site da companhia. Onde, aliás, também poderá ser constituída a já referida identidade FFID.

Caso estejam verdadeiramente determinados a não deixar escapar uma das primeiras 300 unidades do modelo, que surgirão numa edição especial denominada Alliance Edition, os interessados poderão ainda fazer um depósito de 5.000 dólares (cerca de 4.788 dólares), reembolsável. Sendo que, no caso destes veículos, equipados com cores e pormenores exclusivos, além de outras particularidades, existe ainda o argumento extra do facto de parte do lucro estar destinado à entrega para caridade.

Por revelar fica apenas o preço a que será comercializado o FF 91, com os responsáveis da marca a recusarem-se avançar qualquer valor indicativo, salientando apenas que se trata de “um automóvel de luxo”. Isto, além do facto do principal rival, o Tesla Model X, facilmente superar os 100 mil dólares (pouco mais de 95 mil euros).

Contudo, rumores entretanto surgidos avançam que o crossover da FF deverá ter um preço de entrada entre os 150 mil e os 200 mil dólares. Ou seja, entre os 143.000 e os 191.000€.