A conclusão de todo o projeto do Museu dos Coches, em Lisboa, poderia ser feita em menos tempo. “Mas não muito menos”, admite o seu autor, Paulo Mendes da Rocha. O arquiteto brasileiro premiado com um Pritzker, considerado o Óscar da arquitetura, esteve em Portugal e, em entrevista ao Observador defende que é preciso construir um silo de estacionamento em Belém, junto ao Tejo. Para tirar de uma das zonas mais nobres de Lisboa a “lataria”, como chama aos carros.

Estreou o filme que a filha fez sobre a vida dele, em Matosinhos, recebeu um Doutoramento Honoris Causa na Universidade Lusófona do Porto, mas a visita a Portugal começou em Lisboa, para que o arquiteto de 88 anos pudesse acompanhar a inauguração da museografia, finalmente instalada, agora que passam dois anos desde a inauguração do próprio museu. Concebido por ele e pelo arquiteto Nuno Sampaio, o projeto museológico mostrou-se pela primeira vez no fim de semana passado e atraiu 10 mil pessoas.

Dentro de 300 dias, praticamente um ano, deverá ser construída a passagem pedonal sobre a linha de comboio. Três anos não é muito tempo para ver o seu projeto concluído? “Eu acho que não”, responde Paulo Mendes da Rocha, no Porto, a pouco minutos de ser homenageado pela Lusófona. “Não depende mim, tudo isso são políticas e no mundo inteiro é mais ou menos assim. Só por milagre a coisa poderia ser feita em muito menos tempo. Não digo que não pudesse ser feita em menos tempo, mas não muito menos tempo.

A seguir ao depósito dos coches, Paulo Mendes da Rocha, o segundo arquiteto brasileiro a receber um Pritzker, em 2006, depois de Oscar Niemeyer ter sido distinguido em 1988, ainda tem um sonho por concretizar naquela área: um projeto urbano que resolva o problema do estacionamento, agravado com a inauguração do novo MAAT. “Porque toda aquela área, Jerónimos, Centro Cultural de Belém e outros, é museológica. É muito desagradável você cobrir o território com lataria dos automóveis, é melhor guardá-los no silo“, defende.

Paulo Mendes da Rocha refere-se a um silo de estacionamento que fazia parte do projeto inicial do novo Museu dos Coches, e que deveria ser construído do outro lado da linha de comboio, junto ao rio, em frente ao museu. Essa ideia acabou por não avançar.

Maquete em papel que Paulo Mendes da Rocha fez na altura do lado esquerdo está o Museu dos Coches e do lado direito o silo de automóveis, que acabou por sair do projeto. O silo teria a mesma altura do museu.

“Com um diâmetro de 60 metros naquela torre chamada silo, como está no projeto, os carros vão estacionando em rampa contínua. Você numa área de dois mil metros quadrados põe mil automóveis. Se puser no terreno, são vários hectares de lataria brilhando”, explica, por contraste ao atual estacionamento a céu aberto que ali existe atualmente, e onde cabem poucas viaturas. A futura passagem pedonal ligaria o silo ao Museu dos Coches. A ideia era, assim, retirar das imediações — Museu dos Coches, Jardim de Belém, Palácio de Belém e Jerónimos — os carros que ali estacionam.

“É uma estratégia de valorizar o espaço urbano em frente a esse trambolho que, como sabemos, é o automóvel enquanto transporte individual. A ideia de qualquer cidade é que quem more no centro não precise de carro. A graça da cidade é você desfrutar a pé ou de transporte público. O transporte individual, desse modo, é um absurdo. É uma máquina que pesa 700 quilos para levar um de nós que pesa 70 quilos, consumindo as entranhas da terra na forma de petróleo. O automóvel é uma estupidez enorme.”

A passagem de pedestres deverá estar concluída em 300 dias, quase um ano. “Logo depois vamos ver se conseguimos o estacionamento”, insiste o arquiteto, que até já tem ideia do que fazer no último andar do silo de automóveis. “Um andar de uso público, como um grande salão de festas. Imagino que ali, na frente dos navios turísticos, possa haver as melhores festas, o melhor réveillon, em frente ao rio, que se possa imaginar.”

“Não é possível que o lisboeta imagine o outro lado [Margem Sul] uma América.”

Numa entrevista dada no Brasil, Paulo Mendes da Rocha defendeu que a habitação “tem de ser junto do transporte público, nas áreas mais centrais, onde o acesso ao trabalho é fácil.” Num momento em que tanto Lisboa como o Porto são procurados por cada vez mais turistas e a pressão imobiliária torna mais difícil a habitação no centro às classes baixas e médias, a arquitetura pode ajudar a equilibrar a balança. “A arquitetura é política pura”, diz, sobre o facto de a construção da cidade ser uma questão política. “A área turística não é uma área para ser abandonada pela população local. A pessoa que vive no centro desce para tomar o café da manhã, ouve falar várias línguas, a certa altura você não sabe mais quem é o turista, se é você ou o outro. Isso é muito rico.”

Para o arquiteto, a cidade “é feita para que possamos conversar uns com os outros, por isso o turista não pode ser mal visto na vida quotidiana de uma cidade”. Pelo contrário: “Eis a cidade nova!”, elogia, defendendo, no entanto, um esforço dos poderes nacionais para que se aproximem da arquitetura para construírem “a cidade contemporânea”.

Para além do silo, se o prémio Pritzker brasileiro pudesse definir a política da Grande Lisboa, saberia perfeitamente o que fazer. Atualmente, vê a capital portuguesa como “uma cidade que se desenvolve com dificuldade ao longo do Tejo, ao longo do Tejo, na frente Tejo”, quando Lisboa é, na verdade, “uma cidade transversa, que atravessa o rio”.

“Não é possível que o lisboeta imagine o outro lado uma América”, defende o prémio Pritzker, sobre a falta de aposta na Margem Sul. © Gerardo Santos / Global Imagens

Além de “uma ponte ou outra” e de “alguma navegação”, o fluxo entre as duas margens “deveria ser muito intenso, com uma Lisboa dos dois lados, não com a cidade uma margem e uma certa natureza amazónica na outra.” E acrescenta: “Não é possível que o lisboeta imagine o outro lado uma América. Todo o plano da cidade deveria, na minha opinião, se dirigir a um sentido transverso ao canal, e não ao longo do canal.”

O Brasil está a pagar pelos seus erros. A Europa também

No ano passado, Paulo Mendes da Rocha recebeu o Leão de Ouro de Carreira na Bienal Internacional de Arquitetura de Veneza por ser autor de uma arquitetura “intemporal” e por ter criado projetos que “resistiram à passagem do tempo, tanto no plano material como estilístico”. A filha mais nova, Joana Mendes da Rocha, estava lá a filmar. Tal como já tinha estado em 2015, em Lisboa, a filar a inauguração do Museu dos Coches.

O resultado dessas filmagens pôde ser visto pela primeira vez em Portugal esta segunda-feira, na Casa das Artes do Porto. “Tudo é Projeto” é o nome do documentário sobre o arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha. A convite da Casa da Arquitetura, o arquiteto esteve na Casa das Artes, assim como a filha realizadora, para diferentes conversas perante o público que esgotou a sala.

“A minha filha fez o filme durante quase os últimos 10 anos. São imagens tiradas daqui e dali, no meu escritório, depois de uma viagem a Veneza, por exemplo. São episódios filmados. Alguns sobre simples memórias dentro do meu próprio atelier, outros em alguns recintos”, explica o arquiteto.

Diz só ter isto o filme uma vez na vida, e “rapidamente”. “Porque o filme não foi feito para que eu o visse. Mas do que eu vi, acho que em qualquer episódio, em qualquer momento do filme, eu percebo que está tudo lá. Presente, passado e futuro de uma vez só. Esse foi o grande feito da Joana como cineasta”, diz, orgulhoso o pai, que admite ter um “carinho especial” pela mais nova de seis filhos. “Todos me são muito queridos, mas essa Joaninha, como é a última… Me dá muito prazer ver o trabalho dela.”

O que não lhe dá prazer é ver a situação política atual no Brasil. “Para nós todos foi uma grande deceção, uma revelação rápida de coisas que estavam escondidas”, considera. “Estamos muito desgostosos, evidentemente. Espera-se, de um modo ou de outro, que isto dê uma volta e possamos sair desta encrenca, de uma forma democrática e justa.

Acrescenta que o que se vive no Brasil não é único no mundo e lembra o ataque terrorista em Manchester. “Ainda agora tivemos notícias terríveis de Manchester. Tenho a impressão de que o mundo está pagando as dívidas do exercício durante tantos séculos de uma política nitidamente colonialista. A Europa está pagando pelos seus erros.”

Sobre se o Governo de Michel Temer vai cair, não quer arriscar uma resposta. “Espero que, se alguma coisa mudar, sempre mude para o lado da melhor hipótese que se possa fazer diante da circunstância. Conto com a inteligência de quem está por lá. O grande mal são as divisões. Porque a questão é o bem do povo o bem da Nação, então não devia haver divisão. Está na hora da união.”