Já lhe chamam “o imposto da demência” e esta é a principal razão apontada pelos analistas para os degraus que o Partido Trabalhista britânico conseguiu galgar até ficar apenas a cinco pontos dos conservadores, que partiram para a campanha para as eleições gerais de oito de junho com 19 pontos de avanço.

A última sondagem do YouGov coloca as intenções de voto nos conservadores nos 43%, com 38% para os trabalhistas, ou seja, a apenas cinco pontos de diferença. Isto apesar de o estudo ter sido conduzido depois do ataque terrorista em Manchester, um incidente que não alterou significativamente as intenções de voto dos britânicos apesar de Theresa May, primeira-ministra, ser vista como mais dura em relação à segurança e à imigração do que o seu opositor mais direto, Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista.

Numa outra sondagem, da empresa Opinium, mais de um terço dos inquiridos (37%) dizem ter hoje uma opinião menos positiva da primeira-ministra do que aquela que tinham no início da campanha. Por outro lado, 39% das pessoas têm agora uma opinião melhor sobre Jeremy Corbyn do que no mês passado.

O plano de Theresa May para que sejam os bens dos próprios idosos a pagar a “dívida” que estes deixam ao Estado depois de morrer colocou o partido em alvoroço. Há outras medidas no manifesto, como a redução das ajudas sazonais com as contas da eletricidade a todos os pensionistas, que também foram criticadas, mas foi o “imposto da demência” que mais mossa fez nas intenções de voto dos britânicos nos conservadores.

De tal forma que May foi obrigada a uma inversão de marcha. No plano original, os idosos com mais de 100 mil libras (114 mil euros) em bens, incluindo imóveis, teriam que pagar pela sua própria assistência social em casa, dinheiro que seria reclamado pelo Estado depois da morte do utente para compensar os custos com outros idosos.

O problema é que nove em cada dez casas no Reino Unido estão avaliadas acima daquela soma e, como a proposta pressupõe que os bens sejam vendidos depois da morte do proprietário, os descendentes ficariam sem herança ou, mesmo sem casa, caso tenham vivido sempre com os pais como é o caso de muitas pessoas portadoras de deficiências que não conseguiram autonomizar-se.

Os conservadores propuseram, então, um limite máximo ao valor dedutível, mas como ainda não indicaram onde se situaria esse limite a onda de protesto ainda não acalmou. Para piorar as coisas, Jeremy Hunt, ministro da Saúde de May, disse que o limite era injusto porque, “se uma pessoa tiver um património de vários milhões, não é justo que sejam os restantes contribuintes a pagar a assistência social desta pessoa”.

A liderança dos conservadores em sondagens do YouGov caiu de 22 pontos de vantagem apenas há duas semanas, para nove pontos na semana passada e apenas cinco na última sondagem. Se este cenário se repetir no dia 8 de junho, os conservadores perderão a maioria de 17 lugares que passaria apenas a uma vantagem de dois deputados sobre os trabalhistas.

Os estudos de opinião também quiseram saber quais as medidas contidas nos manifestos eleitorais de ambos os principais partidos britânicos que uma maior número de eleitores fixa com mais facilidade. 36% dos eleitores inquiridos apontaram o “imposto da demência” como “a principal política” dos conservadores. “Continuar com o Brexit” aparece em segundo lugar mas longe, já que apenas 12% das pessoas se lembram de referir este com um dos objetivos do partido. Reduzir as ajudas com as contas de eletricidade, por um fim às refeições gratuitas nas escolas e redução da imigração também são políticas reconhecidas por cerca de 10% das pessoas.

Já as medidas mais “memoráveis” dos trabalhistas são a promessa do partido em acabar com as propinas na universidade (32%) e o compromisso de impedir a privatização do Serviço Nacional de Saúde (21%).